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O líder e o chefe

Ana Costa de Almeida

 

No ano 480 a.C., trezentos espartanos, acompanhados por mais algumas centenas de soldados, mereceram reconhecimento histórico pela forma como, comandados e incentivados pelo Rei Leónidas de Esparta, enfrentaram, com maiores coragem e resistência, o exército persa de Xerxes I, composto por cerca de trezentos mil soldados, naquela que ficou conhecida por Batalha de Termópilas. Num confronto, à partida, desigual, e sem prejuízo do espírito especialmente combativo dos guerreiros espartanos, Leónidas conduziu e motivou um número claramente muito inferior de homens contra o imponente exército persa, mantendo-se presente e sempre a par dos demais soldados até final. Ainda que perdida a batalha, dela resultou para a História a glória para os ainda hoje falados “Trezentos”, enquanto exemplo de coragem e de união, para o que muito contribuiu o ânimo e a postura temerária do seu líder.

Em 1367, D. Pedro I de Castela e Eduardo, Príncipe Negro, de Inglaterra, travaram a Batalha de Nájera com D. Henrique, irmão bastardo de Pedro e que viria a ser Rei de Castela, e Bertrand Du Guesclin, futuro Condestável de França. Tendo os primeiros aliados saído vitoriosos, D. Pedro I quis que Eduardo estabelecesse o valor do resgate a pagar pelos prisioneiros nobres, pois, tendo já morto um deles, pretendia ser ele próprio a poder julgá-los, ou seja, ser também o seu carrasco. O Príncipe Negro recusou o pretendido pelo outro, vincando que antes deveriam os prisioneiros, seus inimigos na batalha, ser honrados como cavaleiros que eram e conhecida que era a obrigação para com os seus Senhores que sobre os mesmos pendia de guerrear sempre que fossem requisitados para esse efeito. Quanto a Bertrand Du Guesclin, Eduardo determinou que fosse o próprio a estipular o valor que entendesse como sendo justo a título de resgate a pagar pela sua pessoa. Reconhecido e temido pela sua coragem e pelos seus feitos, o Príncipe Negro não deixava, assim, de mostrar atenção para com a situação e a condição em que haviam pleiteado os seus inimigos, e de os honrar mesmo quando vencidos.

Na notável Batalha de Aljubarrota, travada em 1385, D. João I e D. Nuno Álvares Pereira, acompanhados de apenas cerca de seis mil e quinhentos homens enfrentaram um contingente militar de cerca de trinta e um mil soldados de D. João I de Castela. Perante o exército cinco vezes superior em número de soldados com que se defrontavam, D. João I de Portugal ordenou que todos os seus cavaleiros, à semelhança do que o próprio rei fazia, desmontassem das suas montadas, em reais intenção e demonstração de que ali, com coragem e unidos, combateriam até final. Colocando-se, enquanto líder, ao lado dos demais soldados, incutindo-lhes força e espírito de união, D. João I moralizou e incentivou o seu exército que, numa vitória afamada na História, derrotou o significativamente superior contingente militar de D. João I de Castela.

Vários foram aqueles que, de diversas formas, se destacaram na História por força do que se evidenciaram ser verdadeiras qualidades de liderança, que vão muito além daquilo que caracteriza um mero chefe, e podem até contrastar com os que não passam disso. Mesmo feitos, em si, que mereceram lugar na História foram, não raro, propiciados, ou mesmo determinados na sua ocorrência, por características e capacidade próprias de liderança.

No nosso dia-a-dia, nos mais diversos contextos e áreas, vamos deparando com pessoas que, pela sua personalidade, pelas suas características enquanto pessoa e na interacção com os demais, pelos actos em que essas personalidade e características se revelam, demonstram ter qualidades e capacidade de liderança. Ainda que esses não se arroguem, eles próprios, ser líderes, no que seria (e é) bizarro auto-elogio, por ser até contraditório com as características inerentes ao que seja um verdadeiro líder, que é ser reconhecido e visto enquanto tal por aqueles com quem lida.

O “líder” cativa, ausculta e sabe debater opiniões diversas da sua, incentiva e valoriza os demais, estimulando o seu desempenho e a sua capacidade pessoal e intelectual em prol de objectivo e bem comuns. É respeitado e mesmo seguido não porque se socorre de intimidação ou porque simplesmente o exige, mas porque, pelos seus actos e atitudes, isso naturalmente sucede. Porque merece, por si, esse respeito, essa consideração e mesmo admiração, representando uma mais-valia em qualquer contexto ou área de actuação e, sobretudo, como é óbvio, face a uma estrutura, qualquer que ela seja, hierarquizada e/ou em que se impõem, mesmo que colegialmente, decisões de relevo. E procura rodear-se dos melhores, até melhores que ele, sabendo que o êxito do conjunto sob a sua liderança lhe será assacado a si próprio.

Um “chefe” não é, de forma alguma, necessariamente um líder. Infelizmente e não raro, longe disso.

No âmbito ou do alto da sua chefia, há quem se mantenha apático, inerte, sem iniciativa nem expressão de opinião e de princípios próprios, para não divergir e, assim, eventualmente incomodar os que mais acima deles estão. Sem que demonstrem sequer personalidade própria, preferindo cingir-se a dar seguimento a ordens e posições, em que nem ousam participar, daqueles de quem depende o seu cargo ou posto de trabalho.

A par desses que se bastam com ser sempre coniventes com o que os mantenha confortavelmente numa qualquer posição de chefia, outros chefes há que adoptam postura e comportamentos de arrogância e mesmo de prepotência, chegando a procurar impor-se mediante intimidação, e incutindo até temor naqueles com quem lidam, numa conduta, aliás, absolutamente reprovável e, ademais, susceptível de punição e responsabilização. É, reconheça-se, forma e meio caricatos de se sentirem “respeitados”, quando, na verdade, de forma alguma o são! Muito menos, precisamente, por força desses ignóbeis comportamentos e atitudes, próprios de quem de líder nada tem, para além de ter falta do mais elementar civismo.

Acrescem ainda os danos e o prejuízo que são causados a uma qualquer estrutura, pública ou privada, por um “chefe” que, no âmbito de uma relação de trabalho articulado ou mesmo conjunto, se reconduz e cinge a si próprio, no que entenda e pense. Num narcisismo avesso ao que possam ser efectivamente os melhores resultados e decisões com origem noutros membros da equipa, e por isso ignorando esses ou mesmo afastando-os, a si agregando apenas os que se limitam a bajulá-lo e que, sem mais para oferecer, com nada de positivo contribuem e nenhuma mais-valia representam.

A capacidade de liderança é inata, e reconhecida em alguém pelos outros. Não se obtém por “decreto”, nem se conseguirá incutir em quem não detém as necessárias (e próprias) características e qualidades pessoais e profissionais. Mas muito facilmente se dá conta de quem não passa de um chefe, por vezes com atitudes e comportamentos para com os demais que nem com um cargo ou uma função de chefia se coadunam, quanto mais com o que de muito mais além caracteriza um líder.

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Google

 

01ago20

 

 

 

 

 

 

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1 Comment

  1. Maria do Carmo Freitas Cachulo

    Parabéns Drª Ana Costa Almeida pelo excelente artigo. De facto assim é. A história mostra-o e o nosso olhar observa-o. Um bom líder impõe-se sobretudo pela atitude e carácter. Beijinho

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