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Ovar – Jardim do Cáster com sinais de degradação apresenta-se em estado de abandono

Situado na margem do rio Cáster, linha de água que atravessa a cidade de Ovar, o Jardim Cáster é um espaço publico que pela sua localização, proporciona um acolhedor local de lazer, e simultaneamente é palco natural para alguns dos eventos culturais e espetáculos de rua. Componente multifacetada deste Jardim, cujos sinais de degradação que vem exibindo, tal como o rio, são pouco coerentes e pouco dignificantes, tanto para o convívio das diferentes gerações de munícipes que ali procuram refugio, num cenário verde, decorado por flores e diferentes arbustos e árvores, como para a realização de eventos a exemplo do anual Festival Literário.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

O abandono deste espaço público, pela sua própria localização no centro da cidade, ente as ruas Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro, acaba demasiado exposto, quer ao nível do cuidado e manutenção da área ajardinada e toda a envolvente verde, como na preservação da calçada portuguesa e das partes do piso em calcário, que está visivelmente degradado. Um cenário que só não se reflete no leito do rio pela sua igual degradação.

Uma paisagem de profundo desmazelo, que volta quase três décadas depois de ter beneficiado de um projeto de reconversão, em que este espaço público foi resgatado do abandono a que na altura estava votado. Uma paisagem desoladora agravada à época pelo negativo impacto da poluição originada essencialmente das indústrias de papel que laboravam ao longo do percurso do rio Cáster, e que no centro da cidade dava origem a uma deprimente imagem de poluição, com a concentração de pasta de papel e cheios nauseabundos.

A relação do rio Cáster e o Jardim a que deu nome, esteve mesmo na origem do projeto de reconversão executado no inicio dos anos 90, em que se pretendia valorizar a paisagem neste espaço verde em pleno centro da cidade, num tempo ainda sem os atuais parques e reconversão nas margens do rio, e por isso, local mais privilegiado pelas margens da principal linha de água a que se ligam vários outros rios e ribeiras até à Foz do Rio Cáster/Ribeira que desagua no Canal da ria de Ovar.

Os sinais de degradação que voltam a manifestar-se no seu todo, uma vez que, mesmo a imagem do rio, está longe de proporcionar uma agradável companhia, tal é o desleixo também no seu leito, assoreado e lixo retido por uma represa, que chegou a ter como finalidade, criar a montante um simbólico “espelho de água”, que promovesse um espaço de lazer entre o rio e o Jardim Cáster, tendo mesmo sido construído um acesso para embarcações de desportos náuticos, que rapidamente abandonaram o local depois do momento inaugural, que ainda ficou registado na imprensa local.

Falhada a ideia dos autarcas na altura, que ali apostavam num espaço de recreio, tais foram as consequências dos verdadeiros atentados ambientais que martirizavam o pequeno caudal do rio Cáster, que só mesmo as enxurradas das chuvas mais acentuadas nos invernos ajudavam a limpar ou a transportar para a ria. Ainda que as imagens da poluição se fossem alterando com o tempo bem como a evolução das indústrias, nomeadamente o encerramento no concelho de Ovar das fábricas de papel (ex-Fapovar na Ponte Reada).

Os sinais de degradação igualmente neste rio, continuaram ciclicamente a fazerem-se sentir, tanto pelos cheiros nauseabundos, como pelo aspeto das águas em que abundam gorduras de resíduos industriais que, dentro e fora do concelho de Ovar continuam a fazer do rio um esgoto, libertando-se de forma mais barata dos seus resíduos (já que as multas não parecem ser suficientes para travar tais atentados ambientais).

Voltando a esta relação entre o Jardim e o rio Cáster, a poluição que tem origem em diferentes focos ao longo das várias linhas de água que desaguam no Cáster no centro da cidade de Ovar, tem entretanto a particularidade de os seus nefastos efeitos, sentidos e visíveis, se estenderem em áreas públicas de maior dimensão e de maior frequências de pessoas que testemunham tais atentados, não só no Jardim Cáster, mas fundamentalmente na significativa área em que foi construído o Parque Urbano em ambas as margens do rio, ou mesmo a jusante, nas consolidadas e acessibilidades pedonais nas margens do rio até ao Casal, em que curiosamente, a antiga fábrica de papel deu lugar à Escola de Artes e Ofícios da Câmara Municipal de Ovar, num conjunto do património ambiental, cultural e arquitetónico, em que está por exemplo a Fonte do Casal ou Júlio Dinis com cíclicas fases de abandono a exigirem intervenções de preservação.

Como particularmente nos anos 80 e 90, em que o estado deste rio era de um autêntico charco nauseabundo, que despertou a atenção e empenho partidário e cívico na denúncia contra a sua poluição, dando mesmo origem a uma associação de jovens ambientalistas, como eram os “Amigos do Cáster”. Chegados ao século XXI os motivos de preocupação no essencial não desapareceram, bem pelo contrário. Sem o cenário dantesco da pasta de papel concentrado no leito do rio, a poluição persiste, muitas vezes no silencio da noite só quebrada por cheiros nauseabundos, e muitas outras vezes deixando marcas bem visíveis na água, que rapidamente são alertadas e denunciadas nas redes sociais, ainda que, mesmo esta vigilância cívica mais ativa e imediata, continue sem uma intervenção consequente por parte das entidades responsáveis para que ponham fim aos eventuais focos de poluição, ao longo do percurso do rio Cáster, que nasce no concelho de Santa Maria da Feira, em filões como: Entre Godinho e Escapães, Água da Velha e Quinta da Portela. Acabando por entrar no concelho de Ovar através das freguesias de Arada e São João, para ganhar particular relevância na cidade de Ovar, através da sua relação com os espaços públicos que se desenvolveram ao longo das margens.

É pois nesta relação natural, só quebrada pelas linhas urbanas da cidade e seus arruamentos, que se torna evidente o estado de degradação do primeiro espaço publico beneficiado nas margens do rio no início dos anos 90, através de um projeto da autoria do arquiteto camarário Rogério Pacheco, que incluía ainda uma esplanada, a qual nunca chegou a sair do papel, talvez pelo desagradável cenário de poluição que continuaria a massacrar o rio Cáster ali ao lado do Jardim com o mesmo nome. Sinais de degradação que voltam, neste espaço público em concreto, a manifestar-se, ofuscando um palco privilegiado de vários eventos culturais, que merecem mais cuidado, limpeza e sobretudo adequada requalificação do Jardim Cáster.

 

01ago20

 

 

 

 

 

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