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A trágica explosão em Beirute e a leitura do livro “O Naufrágio das Civilizações”, de Amin Maalouf

José Lopes

 

 

O habito de guardar recortes dos jornais em papel sobre diferentes temáticas, nacionais ou internacionais, a que muitas vezes podemos recorrer, para reler e reavivar noticias, entrevistas, reportagens e artigos de opinião, que de outra forma, amontoadas e mesmo arquivadas em formato digital, se vão tornando efémeras e desatualizadas, tal é a velocidade e quantidade de informação produzida e disponibilizada nas variadíssimas plataformas online, que, não raras vezes nos surpreendem, apesar dos nossos filtros naturais, acabando por nos envolverem a dar credibilidade a fake news. Tal recurso, permitiu-me nestes dias o exercício de reler uma recente entrevista realizada por Paulo Barrigas ao escritor Amin Maalouf (revista Sábado, 02/07/2020), a propósito do seu livro “O Naufrágio das Civilizações”.

Vem este apontamento sobre um recorte da imprensa, guardado mais pelos temas abordados do que pelo nome do autor, que por ignorância cultural desconhecia, mesmo tratando-se de um dos nomes mais respeitados e influentes do mundo árabe, a propósito de mais um livro que me foi oferecido por um professor aposentado da comunidade escolar em que sou assistente operacional. Exatamente com o titulo, “O Naufrágio das Civilizações” de Amin Maalouf, que curiosamente lia a quando das trágicas explosões no porto de Beirute (4 de agosto), que resultaram, na opinião de vários observadores e especialistas, da sucessão de incompetência, incluindo negligência e inércia criminosa, nomeadamente sobre armazenamento do potencial explosivo nitrato de amônio, cujo jogo de empurra sobre as responsabilidades na gestão de tal carga perigosa veio a culminar na gigantesca destruição da capital do Líbano, com mais de duas centenas de mortos e milhares de feridos e desalojados.

Na referida entrevista, Amin Maalouf, conclui sobre otimismo e pessimismo, que, “o papel de um escritor não é dizer aos seus contemporâneos que está tudo bem, que os seus líderes são confiáveis e que podem, portanto, dormir em paz. O seu papel é despertá-los, fazendo soar o alarme.” Mensagem do jornalista e romancista libanês a viver em Paris, que após o trágico acidente em Beirute, ganhou maior relevância com os jovens a quererem assumir em mãos um futuro melhor para um país fragmentado por elites de clãs que se distribuem pelos vários órgãos do poder. Quando, como refere no seu livro, nenhum outro país tinha as condições do Líbano como “território neutro” e então sem “autoridade opressora”, em que se reuniam “comunidades numerosas, de sensibilidades muito variadas, e por nenhuma delas poder almejar uma posição hegemónica, era o lugar ideal para a profusão e o pluralismo. E, muito naturalmente, fora para lá que haviam fluído todos aqueles que já não podiam exprimir-se nos respetivos países.” Lembrando a época de Nasser no Egito.

Definidos os limites territoriais atuais, “o país parecia estar no bom caminho, o de uma nação adulta, firmemente decidida a modernizar-se e a «secularizar» gradualmente a vida politica e as instituições” escreve Amin Maalouf. “O país possuía grandes trunfos. As suas escolas e universidades, os seus jornais (…) Distinguia-se por uma grande liberdade de expressão e uma enorme abertura, tanto em relação ao Oriente como ao Ocidente. Poderia ter puxado para cima o universo levantino e o conjunto do mundo árabe, na direção a uma maior democracia e modernidade. Mas foi o Líbano que acabou puxado para baixo. Para uma maior violência e intolerância. Para o desespero e o retrocesso. (…)”, sem “qualquer visão de futuro”.

Como reconhece ainda o escritor que tem dedicado a sua obra à história e agora se foca no futuro, a exemplo de “O Naufrágio das Civilizações”, o seu mais recente livro. “O passado não tem interesse em si mesmo. Somos nós que lhes damos significado de acordo com as nossas próprias preocupações (…)”, e são muitas as preocupações e inquietações que aborda nesta obra que por esta altura acabaria por despertar o leitor para toda a dimensão do Líbano e do ideal levantino, em que começa por afirmar, “nasci saudável nos braços de uma civilização moribunda e, ao longo de toda a minha existência, tive a sensação de sobreviver, sem mérito nem culpabilidade, enquanto tantas coisas, à minha volta, se transformavam em ruínas; como os personagens cinematográficos que passam por ruas onde todas as paredes se desmoronam e, contudo, escapam ilesos, sacudindo a poeira da roupa enquanto, atrás deles, toda a cidade ficou reduzida a um amontoado de escombros.” Uma abordagem a sucessivos cenários em que se podem imaginar as guerras ao longo de décadas, que ironicamente antecipou a tragédia de agosto em Beirute que deixou mais crise e desemprego que vinha sendo agravado com a pandemia.

Referido é também o que considera ser “o paradoxo desolador deste século”, em que, “pela primeira vez na história, temos meios para livrar a espécie humana de todos os flagelos que a assolam, para a conduzir serenamente a uma era de liberdade, de progresso sem mácula, de solidariedade planetária e de opulência partilhada; contudo, eis-nos lançados, a toda a velocidade, na via oposta.”

Nos capítulos iniciais dedicados à região árabe e às trevas que se espalharam sobre o mundo quando se apagaram as luzes do Levante, o autor debruça-se sobre os dirigentes do país, referindo que, “desde a independência, e principalmente ao longo das últimas décadas, poucos dirigentes deram provas de possuir um grande sentido de Estado. A maior parte orientou-se apenas pelos interesses da respetiva fação, do seu clã ou da sua comunidade religiosa.” Realidade que já vinha dando origem a revoltas, greves e manifestações contra o empobrecimento e carestia de vida. Dificuldades que ganharam redobrada expressão e indignação no rescaldo das trágicas explosões em Beirute, que fizeram despertar novas exigências e reivindicações, levando à queda da cúpula do governo, que se pode limitar a tentar tranquilizar as comunidades mais inquietas, como vem acontecendo desde o inicio da experiencia libanesa.

Para o autor desta obra que nos ajuda a compreender melhor a própria tragédia de Beirute, referindo-se aos “paraísos perdidos da minha infância”, realça que, “se estas experiencias levantinas tivessem sido bem-sucedidas, se tivessem conseguido apresentar modelos viáveis, as sociedades árabes e muçulmanas poderiam ter evoluído de maneira diferente. Para menos obscurantismo, menos fanatismo, menos aflição, menos desespero… Talvez até toda a humanidade tivesse seguido uma via diferente daquela que segue atualmente e que nos leva diretamente ao naufrágio.”

 

Foto: pesquisa Google

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