Maximina Girão Ribeiro
Dando continuidade à descrição das antigas quintas do Bonfim, apresentamos, nesta edição, a Quinta da Fraga, propriedade de enormes dimensões que, segundo os espaços agora conhecidos, estendia-se, sensivelmente, desde a actual Rua Duque de Palmela até às margens do rio Douro.
Este extenso território já por meados do século XVI, estaria na posse de Francisco Dias e de sua mulher Isabel Pinto. Há notícia que, em finais do século XVI, os Jesuítas do Colégio de São Lourenço (Porto), situado junto à Sé, procuravam espaços de grandes dimensões, nos arrabaldes da cidade, onde pudessem produzir bens de primeira necessidade, assim como usufruírem de isolamento e de um ambiente para reflexão. Ora, os terrenos da Quinta da Fraga ofereciam todas essas condições.

Situada no monte das Fontainhas, com uma frente virada para o rio Douro, rica em água que vinha de Mijavelhas, atravessando terrenos da quinta do Bispo (actual cemitério do Prado do Repouso) e, chegando à Quinta da Fraga, essa água punha em funcionamento vários moinhos e fertilizava os terrenos de cultivo. Por esses lados a abundância da água era tal que por lá existiram várias fontes, cuja localização exacta é hoje difícil de determinar.
Tal é o caso da Fonte da Areia ou dos Guindais, anteriormente conhecida pelo nome de Fonte das Lágrimas, um fontanário ornamental que terá sido desenhado por Nazoni, para a Câmara do Porto e construído em 1745. Também há registo da existência de outras fontes como a da Aguada, cuja água seria de tal qualidade que servia para abastecer navios que aí faziam “aguada”, antes de longas viagens. Não podemos esquecer a fonte do Carvalhinho com água vinda de uma mina, escavada na rocha granítica e protegida por uma porta que se localizava nas suas traseiras.
Em 1573, Francisco Dias fez doação da Quinta da Fraga aos padres Jesuítas, com condições perpétuas de pagarem, por ano, 25 alqueires de milho, 10 alqueires de pão e 100 réis. Mas, em 1596, a Coroa suspendeu estas medidas e os Jesuítas ficaram como proprietários da referida quinta.
Com a expulsão dos Jesuítas do País, em 1759, no tempo do Marquês de Pombal, a Quinta da Fraga, com suas casas e capela, passou para a posse do Estado, que vendeu todos os bens em hasta pública e que, mais tarde, acabou por pertencer ao sargento-mor Alexandre José da Costa e à sua família. Esta propriedade, a partir 1806, começou a ser dividida em talhões para ser urbanizada.
Foi ao longo desta Quinta da Fraga que se abriu a rua de S. Victor, projecto que remonta ao período das Obras Públicas, da época dos Almadas, mas que, por muito tempo e por diversas razões, foi sendo adiado por dificuldades diversas, desde as difíceis características topográficas do território, com pedreiras, até à existência de becos, vielas e serventias diversas. A artéria começou por ter o nome de rua Nova da Quinta da Fraga, como era denominada em 1821 mas, mais tarde, tomou o nome de S. Victor, pelo facto de existir uma capela que estava em construção e cujo orago era este santo mártir, padroeiro dos prisioneiros e exilados, jovem cristão que servira no exército romano e que foi decapitado por se recusar a oferecer sacrifícios aos deuses romanos, no ano 308, por altura das perseguições de Dioclesiano.
A capela de S. Victor situava-se na Quinta do Prado, propriedade do bispo do Porto que aí tinha a sua residência de recreio. Esta capela nunca chegou a ser concluída e o que dela restou deve corresponder ao que seria a capela-mor primitiva e que é hoje a capela do Prado do Repouso onde, durante o cerco do Porto, estiveram aquarteladas tropas inglesas que delapidaram alguns bens que lá se encontravam.
Só em 1857 foi apresentado e aprovado o projecto de alargamento da rua de S. Victor, desde a praça da Alegria até ao Jardim de S. Lázaro, o que implicou uma enorme quantidade de expropriações, na zona envolvente. Existia também a intenção de prolongar esta rua até ao rio Douro, facto que não chegou a consumar-se, devido às enormes dificuldades que iam surgindo, sobretudo as muitas pedreiras que era necessário derrubar.

Mas, foi das pedreiras da Quinta da Fraga que saiu grande parte da pedra para a construção do convento de S. Lázaro, o chamado convento de Santo António da Cidade, edifício que pertenceu aos frades menores reformados de São Francisco e que começou a ser construído em 1783, em terrenos situados em São Lázaro. Neste edifício funciona a Biblioteca Municipal do Porto, desde 1842.
Sabe-se que, enquanto se desenrolava o Cerco do Porto, o grande historiador Alexandre Herculano, que fez parte da comissão de instalação da Real Biblioteca Pública do Porto, ocupando o lugar de 2.º bibliotecário desta instituição (nomeado em 17 de julho de 1833), tendo estado alojado numa casa da rua de S. Victor.
Numa época em que o Porto crescia populacionalmente, através de um considerável movimento migratório, a cidade transformava-se com a abertura de novas artérias e a necessidade de arranjar alojamento para os recém-chegados era premente. Assim, também esta enorme propriedade se foi, aos poucos, retalhando e dando origem a novas zonas urbanizadas, intensificando-se também, a existência de numerosas “ilhas”, construídas para receber a gente pobre que chegava à cidade – os operários e as suas famílias, que procuravam trabalho nas oportunidades oferecidas pela Revolução Industrial, que se desenvolvia, no Porto.
O alojamento era um dos maiores problemas, criando sobrelotações e ambientes pouco salubres. Segundo escrevia sobre as “ilhas”, o médico investigador e higienista Ricardo Jorge, em 1889, dizia sobre elas que eram “[…] habitações lôbregas e insalubérrimas onde se amesenda mais de um terço da população; há o desbaste das moléstias infecciosas pela licença do contágio; há enfim uma rede de incapacíssimos esgotos, rastilhando o solo e a água de imundice”.
Segundo um inquérito realizado em 1885, a zona oriental da cidade, nomeadamente o Bonfim, contava com 350 “ilhas”, número máximo registado na cidade e com grande aglomeração, ao longo da rua de S. Victor e redondezas. Entre a Praça de Alegria e o Largo do Padre Baltazar Guedes, sucediam-se portas e portões que eram (são) entradas de “ilhas”.
Na Quinta da Fraga existiu a “Capela do Senhor do Carvalhinho”, da qual, na actualidade, ainda se podem observar as ruínas de um edifício que começou a ser erguido em 1737 e que, hoje, mal se reconhece como sendo um local de culto religioso, tal é o estado de abandono, degradação e desrespeito em que se encontra.

Os resquícios arquitectónicos que ainda são visíveis, situam-se num ponto alto do monte das Fontainhas, à direita de quem desce a Rampa da Corticeira, artéria que agora, desde 2011, é denominada como Calçada das Carquejeiras. O topónimo de Corticeira, ou Rampa da Corticeira estaria ligado ao facto de por ali se descarregarem os barcos, vindos pelo rio Douro, com cortiça, a qual, os moradores da zona expunham ao sol, a fim de se proceder à sua secagem para depois a venderem a uma fábrica que, por esses sítios existia. O sítio da Corticeira é referenciado desde 1760, num registo paroquial da freguesia de Santo Ildefonso, a que nessa época pertencia este local. Também em 1770, um registo paroquial refere uma Maria Pinta, conhecida pela alcunha de a “Corticeira”.
A alteração deste topónimo para Calçada das Carquejeiras, não é mais do que uma homenagem e uma memória às mulheres carquejeiras que, por muitos e muitos anos, subiam a calçada, carregadas de enormes e pesados fardos de carqueja, descarregados desde o cais da Corticeira, para abastecerem padarias, fábricas e casas particulares, ao longo de enormes distâncias pela cidade.

Quanto ao nome “Carvalhinho”, não se sabe ao certo qual a sua origem mas, poderá ser a forma abreviada de “Senhor Jesus do Carvalhinho”, a quem a capela era dedicada.
Durante o Cerco do Porto (1832/1834) a capela do Senhor do Carvalhinho funcionou como quartel da Marinha de D. Pedro IV, estando a esquadra liberal fundeada num lugar considerado seguro dos ataques absolutistas, situado num ancoradouro a montante da Calçada da Corticeira, com a protecção da artilharia dos liberais, instalada na serra do Pilar.
A ligação com a serra do Pilar para abastecimento de mantimentos, armas ou munições era feita a partir de embarcações, que partiam de onde a armada estava ancorada, para atravessarem o rio e, depois, subirem a pé até ao alto da serra, através da capela do Senhor de Além.
Foi nessa capela que teve lugar a primeira instalação da Fábrica do Carvalhinho, local que inspirou o nome da fábrica, pertencente à Quinta da Fraga, no Porto, junto à Calçada da Corticeira. Era uma fábrica de produção de peças de cerâmica e foi fundada no ano de 1840, por Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Catarino, ambos com experiência no campo da cerâmica. Foi no edifício da capela que os novos proprietários se instalaram e, nas arrecadações, atrás da capela, montaram os fornos e os equipamentos necessários para a produção. O forno e as oficinas funcionavam em alguns barracões anexos à fábrica.
A esta fábrica do Carvalhinho veio associar-se, em 1848, um depósito de louças que funcionava na rua da Esperança e, com o capital acumulado, foi possível comprar o terreno e reconstruir a Capela do Senhor do Carvalhinho, trabalho que deve ter sido concluído em 1853, segundo uma inscrição que existia na capela e que anotava o seguinte:
“Reedificada em 1853 por seus proprietários Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Catarino.”
Os proprietários da fábrica requereram à Câmara a transformação do barracão de madeira, numa construção sólida para expandirem as instalações fabris, sinal de que a fábrica estava em bom andamento.
A fábrica do Carvalhinho passou épocas de boa situação económica, fabricando com qualidade, louça e azulejo, tendo mesmo obtido um diploma de mérito na modalidade “azulejo”, na Exposição de Cerâmica, realizada no Porto, em 1882, ex-aequo com a fábrica de Massarelos e uma medalha de ouro, em 1901, numa exposição de cerâmica, realizada no Palácio de Cristal. A produção em série dos azulejos tornou-os mais baratos e acessíveis, aspectos que contribuíram para a sua rápida divulgação e aplicação em edifícios, os chamados “azulejos de fachadas” que deram a esta fábrica grande notoriedade.
A célebre Fábrica Cerâmica do Carvalhinho, em 1923, mudar-se-ia para o sítio do Arco do Prado, em Vila Nova de Gaia.


A capela que foi a instalação primitiva da fábrica, foi levantada em terreno que pertencia à Quinta da Fraga, “junto à Calçada da Corticeira, por baixo do passeio das Fontainhas, junto ao rio Douro”. Ainda nos primeiros anos da República se conservava o primitivo altar de talha dourada, obra do mestre entalhador Manuel da Costa de Andrade.


Embora ainda hoje exista a capela, mas em avançado estado de ruína, esta situa-se a uma cota elevada e era, sem dúvida, mais simples do que uma outra capela com o mesmo nome que terá existido na margem do rio Douro, localizada no fundo da encosta das Fontainhas e que pertencera a António Joaquim Soares, antes do Cerco do Porto. Segundo alguns autores, talvez esta capela fosse a verdadeira e autêntica “Capela do Senhor do Carvalhinho”. Fica a dúvida, pois não encontrámos qualquer tipo de confirmação para este dado…
No calótipo atribuído Frederick William Flower pode observar-se a Casa e a Capela da Quinta da Fraga que ficava junto à marginal. Entre os edifícios aí existentes, faziam parte uma habitação e uma capela anexa, cujo orago era também o Senhor do Carvalhinho.

A capela que fazia parte deste complexo foi demolida em 1943, aquando da abertura da Avenida Gustavo Eiffel.
A escarpa das Fontainhas onde se encontra a Alameda ou Passeio das Fontainhas ostenta a Fonte das Fontainhas, virada para o rio Douro. Recebe a água de duas arcas do manancial, uma delas fica próxima da fonte e, a outra, encontra-se na Praça da Alegria. A fonte primitiva deve remontar a 1669, quando se fundou o Hospital dos Gafos ou dos Lázaros. Esta fonte é emblemática na cidade e de grande afeição popular, pois é nela que, pelo S. João, sobressai a sua transformação em cascata sanjoanina, uma autêntica joia ao gosto do povo portuense.
É aqui, na Alameda das Fontainhas que, sem dúvida, se salienta um dos miradouros mais bonitos da cidade, de onde se pode observar o rio, em todo o seu esplendor e grandiosidade. Além desta Alameda ter funcionado como passeio público, desde finais do séc. XVIII, é também aqui que hoje se encontra uma estátua de homenagem às mulheres carquejeiras.
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01set20