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Carta Aberta aos Emigrantes

Ricardo Guerra

 

 

Vila Nova de Gaia, 01 de setembro de 2020

Querido emigrante,

Há muito, muito tempo, empacotaste as malas e abandonaste tudo. Uma mãe, um pai, irmãos, filhos, inúmeros amigos que são hoje vultos e fantasmas que ainda jogam juntos no parque da cidade. Em busca do pedaço de pão, foste. Sem olhar para trás. Mergulhaste cego no caótico ocaso da aventura, na sombra da loucura que peregrina na rua do incerto. Na pureza inócua da novidade. Tudo pelo luzidio tesouro que brilha, trémulo e efémero, no horizonte, no lendário final do árido e lapidoso arco-íris. Fizeste as malas. E foste.

E tudo mudou.

É verdade. Já não são as mesmas as calçadas onde, de mão dada com a felicidade, correste e saltaste, nesses enérgicos e eletrizantes passinhos de menino. Não são as mesmas as aves que trinam a voz oculta do amanhecer. Não são as mesmas as gentes, porque o tempo e a ordem natural da vida se encarregam de aplicar, de modo impetuoso, as suas tiranas leis invisíveis. E mesmo as gentes que resistem, que lutam contra o buraco negro da eternidade, não são as mesmas, muito em parte porque lá não estás. Porque não estás lá para lhes oferecer a cor única do teu sorriso, para lhes contares epopeias das mais épicas façanhas, histórias, conversas, desabafos secretos de uma fraterna irmandade.

Tudo mudou. Mas nada mudou.

Nada mudou, pois não olvidaste, decerto, aquele que foste. E o teu país também não. A tua ausência reverbera na montanha do mundo. Se gritares o teu nome à infinidade do céu, as estrelas sorrirão de volta e brilharão mais intensamente, instigadas pelo beijo do passado nas suas pálidas faces. Recordarão as memórias da tua primeira queda da bicicleta, a primeira vez que te queimaste no fogo ardente de uma lareira em chamas, o primeiro dia de escola, a primeira comunhão, o primeiro beijo, o primeiro… E a curva do teu sorriso será uma máquina do tempo que as levará  de novo ao teu passado, oculto na memória coletiva das coisas. E o mundo lembrar-se-á de ti. Sempre.

Ainda assim, não é fácil. Não é fácil a vida lá longe. Mas ser emigrante é ser forte. É ser anjo. Estender as asas e fugir numa nuvem de chuva, cerrar os olhos e ser qual gota de água que aguarda o aconchego doce dos braços do porvir. É entregar-nos ao destino sem garantias: apenas alguns trapos, algum dinheiro na algibeira… E esperança, muita esperança. Ser emigrante é ser futuro. Sacrificar infinito sangue, suor e lágrimas, por um misterioso apelo de Deus, pelo sussurro de uma vida muito melhor. É ser futuro e, no entanto, sentir o coração bater ao ritmo da melodia do passado. É saber que flui no sangue o rubro hino de uma nação eterna e imortal. É escrever a palavra saudade com o sal das lágrimas.

E a saudade dói. Principalmente quando um monstro invisível, qual vento nevoento, impede o anual regresso à terra que nos viu crescer e, assim, impede o breve mas maravilhoso regresso ao passado. Ó, o calor dos abraços, dos afagos sem demora, dos carinhos sem rumo… A mesa de memórias e um banquete de rosas e amor e paz… E a dor aperta e magoa e dilacera…

Dói. Eu sei que dói. Mas quando doer, recorda, então, o bravo coração que palpitava quando fizeste as malas e largaste tudo: uma mãe, um pai, um irmão, dois filhos, inúmeros amigos. Em busca do pedaço de pão. E encontra nesse fogo sem nome, nessa vontade sem explicação, nesse puro desejo de viver, a tua esperança.

Sê forte. Hoje e sempre.

 

01set20

 

 

 

 

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