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Furadouro – Um cenário de degradação social e habitacional que persiste

Perante as condições do visível risco da casa ruir, e da consequente degradação social e habitacional, em que vive há cerca de três décadas uma família no Furadouro, que ao longo dos anos foi ficando à margem dos programas de realojamento de moradores de barracas e casa degradadas, através dos novos fogos sociais entretanto construídos em duas fases. O casal, composto por Augusto Dias e Maria do Céu Vieira, foi sobrevivendo em condições indignas e desumanas, partilhando durante alguns anos esta casa em ruinas com elementos da sua família, como foi o caso de um filho, continuando ainda hoje este casal com dificuldades económicas e problemas de saúde, ali a resistir, já que ao fim de tantos anos com o mar privilegiadamente a seus pés, não se vê nesta fase da vida, a mudar-se para uma habitação sem um indispensável espaço com quintal. O que terá vindo a dificultar eventuais soluções.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Este cenário de degradação social e habitacional que persiste na zona sul do Furadouro, ali mesmo na Marginal, entretanto requalificada, tal como os arruamentos que envolvem a própria casa acentuadamente em perigo de se desmembrar e poder provocar uma tragédia com este casal, que alguns anos antes ainda tentou preencher todos os requisitos burocráticos para se candidatar a uma habitação condigna. Por várias vezes foi motivo de denúncia e noticias que davam conta da amargura e medos do casal, a viver “em condições cada vez mais degradantes. «Chove dentro de casa. O telhado está seguro por dois ferros das obras. Deus queira que aguente o inverno», deseja Augusto Dias, que garante que os ratos são visitas indesejadas e constantes em todas as divisões da casa.” Cenário fantasmagórico observado por Rui Castro, que escreveu “Casal do Furadouro insiste na falta de condições para viver” (Jornal de Ovar, 17/10/2008).

Mas o drama social e habitacional que deprime a própria paisagem urbana neste local do Furadouro, não é desconhecida dos diferentes executivos que do Município de Ovar nestas décadas. Mesmo dos que mais se empenharam em erradicar a área em que se concentrava a maior degradação social e habitacional nesta praia, terra de pescadores. No entanto, ainda que outros casos exijam também respostas sociais, o caso desta família, pelo risco de ruina da casa abarracada e pela localização central deste deprimente cenário, que não passa despercebido a ninguém, e certamente aos autarcas atuais. Não poderá por muito mais tempo continuar adiada uma adequada solução, por mais intervenções sociais e pedagógicas, que a realidade socioeconómica da família exija.

Nenhuma entidade com diferentes competências, sociais ou habitacionais, se pode vir a desresponsabilizar das consequências que podem resultar, de um tal estado de fragilidade desta casa em que vive gente, e como também o autor deste trabalho na edição de setembro do Etc e Tal jornal, já há uma década escrevia, “Família vive com medo da casa ruir” (Praça Pública, 03/02/2010). Escrevia então, que, “a esperança de vir a beneficiar de uma habitação social para o mínimo de dignidade habitacional, a que o casal, residente no Furadouro, Augusto Cândido Dias Neves e Maria do Céu Silva Vieira, se candidataram nos serviços sociais da Câmara Municipal de Ovar desde 1994, começa a resumir-se apenas à trágica probabilidade de um dia poder acontecer o inevitável desmoronamento da casa em ruínas, em que habitam com o pesadelo e o medo de lá ficarem por entre os escombros, tal é o estado caótico e fantasmagórico (…)”, que na altura foi registado e cuja perigosidade só se agravou dez anos depois.

Como também foi escrito em 2010, a propósito do medo que se repete até hoje, “os últimos meses de muita chuva, foram vividos com demasiada angústia e desassossego, partilhados por esta família que se sente abandonada por quem decide e por quem devia dar mais atenção a tais casos sociais, tanto mais, quando ironicamente a última vistoria feita pela Câmara, em 21 de janeiro de 1994, concluía que a casa «ameaça ruir e oferece perigo para a segurança das pessoas». O documento dava mesmo um prazo de 30 dias para o senhorio fazer obras, que deveriam aliás estar concluídas no prazo de 90 dias. Mas entretanto o senhorio morreu e este casal continua à espera de soluções para o imóvel, situado na Avenida Tomás Ribeiro (…)”.

Também a PSP de Ovar, como foi informado na notícia a que, aqui se faz referência, deu conta de tais condições, uma vez que, “tirou fotografias e elaborou um relatório sobre o cenário deprimente que viu para transmitir ao pelouro da área social da Autarquia, de quem se aguardam medidas efetivas que ponham fim a esta vergonha (…)”. Uma vergonha, que faz realçar sinais de pobreza e de carência social, tantas vezes escondida, que após várias décadas continua a ser vivida no Furadouro, como reflete este indigno postal turístico.

 

01set20

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