Com apenas três anos após ser instalado e inaugurado na rotunda do Carregal, em Ovar, o barco moliceiro “Fonte Nova”, adquirido pelo Município local para requalificar aquele espaço público, como porta de entrada para o canal da ria de Ovar, acabou, depois de ser retirado de atividade, para ser deixado apodrecer ingloriamente em terra.
O tradicional barco moliceiro no canal da ria em Ovar, já há várias décadas se perdeu de vista, mesmo como embarcação emblemática que foi sendo preservada e mantida simbolicamente por proprietários a ela ligados por laços familiares, que durante várias gerações desenvolveram atividades na ria, como a apanha do moliço para adubar de forma natural as terras agrícolas em ambas as margens banhadas pelas águas da ria, como o lugar da Marinha ou do Torrão do Lameiro no concelho de Ovar.
No tempo e na paisagem, perderam-se cenários de rara beleza com este tipo de barcos, de significativo porte, exibindo suas velas e pinturas multicolores, com painéis decorados com desenhos e frases brejeiras, que espelhadas nas águas da ria, influenciaram muitas telas de artistas pintores que deixaram através da sua arte uma significativa parte da vida na ria, que há muito se perdeu, naturalmente, por diferentes fatores sociais e ambientais, que determinaram alterações nas atividades na laguna, a exemplo da apanha do moliço.
Ao barco moliceiro restou a componente turística desenvolvida essencialmente nos canais da ria em Aveiro, enquanto ao longo do canal de Ovar, durante as últimas décadas, vários exemplares foram sendo mantidos para eventos como as regatas de moliceiros, e outros foram apodrecendo nas margens, encurralados pela falta de condições para a sua navegabilidade, mesmo só a motor, já que à vela nesta parte norte da ria se tornou impossível, ditando assim o seu fim nas margens ribeirinhas de Ovar.
Sem condições de navegabilidade para os moliceiros no canal da ria em Ovar, em terra procura-se homenagear exemplares deste património social e económico, a exemplo de outro tipo de embarcações características da ria ou do mar, como a da arte xávega numa rotunda no Furadouro ou de Esmoriz e Cortegaça. A Camara Municipal de Ovar adquiriu por 9 mil euros (mais IVA) o barco moliceiro “Fonte Nova”, que foi instalado na rotunda do Carregal, em que viria a ser inaugurado no dia 25 de abril de 2017, então com palavras do presidente Salvador Malheiro, em que justificou, “requalificamo-lo e colocamo-lo na rotunda, precisamente do Carregal, para que se saiba que Ovar também é Ria e que ela começa ali”.
Mas ali em terra, o moliceiro “Fonte Nova” em tão pouco tempo ficou a apodrecer. Um cenário degradante, que já nem mesmo os arbustos e as flores “amores-perfeitos”, que embelezam a rotunda, conseguem camuflar os sinais de desagregação das várias peças de madeira da estrutura do barco, da proa até à ré, bem como dos tradicionais painéis com pinturas e legendas, como, “O teu pitinho é lindo”, ou “Que grandes prendas menina”, que vão perdendo a ironia brejeira.
Uma imagem nada dignificante para o próprio património náutico que representa este tipo de embarcação, e particularmente degradante para a promoção da ria, independentemente das suas atuais limitadas condições de navegabilidade para embarcações do género, mesmo com a operação de dragagem em curso no canal da ria em Ovar.
Texto e fotos: José Lopes
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