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Um despacho fatal

Joaquim Castro

 

 

Um amigo luso-angolano publicou no Facebook uma história incrível, em que um despacho mal pensado num documento levou à execução de dois cidadãos angolanos. Ele viu o documento que originou a “sentença” de morte. Segundo esse amigo, os comissários policiais enviaram um relatório ao respectivo governador provincial, no qual contavam que descobriram os autores de várias mortes na região.

Os acusados eram dois feiticeiros. Depois de explicadas as diligências efectuadas para chegar aos dois homens, solicitavam ao senhor Governador do (sei, mas não digo a província), para que decidisse sobre os castigos a aplicar aos autores das mortes.

O governador colocava quase sempre o mesmo despacho, fosse para o que fosse. E o mesmo fez neste caso: execute-se! As autoridades locais levaram o despacho à letra e mandaram a Polícia fazer o trabalho, executando os dois feiticeiros. Só mais tarde, com a mudança de governador, é que se percebeu o que tinha acontecido, mas o mal estava feito.

RECOLHER DISPAROS

Um comissário da PSP disse, após um tiroteio em Moscavide, em 25 de julho de 2020, que a PJ estava a recolher os disparos. Puxei dos conhecimentos dos meus 42 meses de serviço militar, e não vejo como é que isso se faz, de apanhar os disparos!

Provavelmente, o oficial da Polícia quereria dizer que a PJ estava a recolher os invólucros das munições disparadas nesse tiroteio. Isto, porque a munição de uma arma, como a da polícia, é constituída pelo invólucro, que é ejectado para perto, e pela bala, que é disparada, com o objectivo de criar efeito, normalmente a alguns ou a muitos metros de distância.

Ao dizer que a PJ estava a recolher os disparos, o senhor comissário não foi claro nas suas declarações a um canal de televisão.

“RÚBRICA” NO ZIG ZAG DA RDP

No programa Zig Zag, transmitido pela RDP, ouvi a uma apresentadora anunciar uma “rúbrica”, desse programa. Esta má dicção da palavra “rubrica”, o que acontece em diversos meios da comunicação social, prevalece e não há quem lhe ponha termo.

Os “doutores” saídos das universidades que arranjam empregos na média bem poderiam ter ao seu dispor um manual com os principais erros de palmatória, que vão cometendo, um pouco por todo o lado, para que os pudessem evitar futuramente.

No caso referido, em que o programa Zig Zag, se destina a crianças, este pontapé na gramática, o “rúbrica”, assume particular gravidade, pelo mau exemplo, perante ouvintes que andam a dar os primeiros passos na Língua Portuguesa.

PALAVRA DO ANO?

Num texto partilhado no blogue “Divagar e Conversar”, de Ovar, li o seguinte, da Autoria de Pedro Santos Guerreiro: “A palavra do ano é “pandemia” e a frase mais usada é “a situação que estamos a viver. Bom, a situação que estamos a viver está a correr mal e vai piorar antes de melhorar, pelo que o primeiro-ministro vai cavando trincheiras lá à frente para a sua sobrevivência política”.

Não digo que não, mas se formos a escolher a frase do ano, com certeza que a expressão “aquilo que”, ganharia a competição. Desde o presidente da República, ao primeiro-ministro, passando pela ministra da Saúde, a precursora da frase, assim como de outras numerosas personalidades, se renderam, inexplicavelmente a esta moda, deixando de lado expressões equivalentes e mais tradicionais. “O que deixei de fazer”, passou a ser “aquilo que deixei de fazer”. Não é errado, mas é estranho.

PÓ, PÓS, PA…

No dia 4 de Agosto de 2020, o presidente Marcelo, a falar sobre a Pandemia, referiu, perante as câmaras de televisão, que “o que é que é bom pó país, é bom pós portugueses, é bom pa todos”.

Foram um “pó” e um “pós”, seguidinhos, rematados com um “pa”, que o professor catedrático não devia ter pronunciado. Aliás, os nossos actuais políticos ficam a dever muito à Gramática, em múltiplos aspectos. Nunca me apercebi de tanta calinada junta, como agora.

Os exemplos são muitos, mas há palavras, cujas pronúncias são um atentado à Língua de Camões. Exemplos: “periúdo”, em vez de “período”; “rúbrica”, em vez de “rubrica”; “control”, em vez de “controlo”; “Filândia”, em vez de “Finlândia”. São tantos os exemplos, que poderíamos estar aqui o tempo todo e não chegar ao fim!

MALUCO DA CABEÇA!

Não sei se haverá alguém que não use pleonasmos, ou redundâncias, na sua verbalização ou na sua escrita. Pois, o pleonasmo é muitas vezes utilizado para reforçar uma ideia ou uma teoria, mas o efeito acaba por ser quase sempre patético.

Há pleonasmos famosos, como “subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”. No primeiro exemplo. Há que argumente, que pode ser “subir para cima de uma mesa”. E se for subir para uma mesa, não serve?

Mas se estes pleonasmos são fáceis de detectar, há outros que nem por isso. Por exemplo: ”recordar o passado”, pequenos detalhes”, “encarar de frente”, “metades iguais”. Depois, há aquelas do “cala a boca” e “arder em chamas”, sem esquecer o “maluco da cabeça”. Mas há muitos outros pleonasmos, alguns bem giros!

OS TELEVISORES E AS TELEVISÕES

A RDP está transmitir uma informação, sobre a TDT – Televisão Digital Terrestre. Diz assim: “A televisão avariou-se? Não. Foi a frequência que mudou”.

Ora, televisão e televisor podem não ser a mesma coisa. Mas serão poucas as marcas ou as lojas que utilizam o termo televisor, que é a caixinha que nos dá as imagens. Já a televisão, como RTP – a Rádio e Televisão de Portugal, tem a ver com uma estação de televisão, tal como SIC, TVI e CMTV, entre outras.

No entanto, pelo uso, as palavras televisão e televisor acabam por se referir ao aparelho que transmite imagens, vídeos e sons. A DECO Proteste, uma entidade de defesa do consumidor, em Portugal, prefere tratar os aparelhos por televisor.

“DESINTOCHICAR”

A SIC apresentou um programa, no qual se fazia a divulgação de um produto para desintoxicar o fígado. Contudo, a palavra desintoxicar foi pronunciada como “desintochicar”, e vez de “desintox(cs)icar”, como mandam os dicionários.

Pelo contrário, ouvimos muitas vezes pronunciar “felicse”, em vez de “félis”, por exemplo ao antigo jogador do Benfica, João Félix. Tentaram, também, tratar o ex-ministro, Bagão Félix do mesmo modo, mas ele desfez a dúvida durante uma entrevista na televisão, esclarecendo quem era “Félis”. Por sua vez, a palavra sintaxe, não segue, nem uma nem outra norma, pronunciando-se “sintasse”, cuja norma vem desse, pelo menos, 1699.

Ou seja, são estas particularidades que tornam a Língua Portuguesa tão difícil, mesmo para quem a estuda e a tenta respeitar. Ainda assim, há muitas outras palavras com som “CS”, como, por exemplo: anexo, asfixia, axila, boxe, clímax, complexo, convexo, fixo, flexão, fluxo, látex, nexo, ortodoxo, óxido, paradoxo, reflexão, reflexo, saxofone, sexagésimo, sexo, tóxico e toxina.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos:  do autor e pesquisa internet

 

01set20

 

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