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A incompreendida incompreensão da moderação

António Pedro Dores

 

O estado social e a globalização, vitoriosos das últimas guerras, estão em decadência. Voltam os velhos dilemas ideológicos e práticos como déjà vu. Nenhum sinal de esperança.

No excelente “a arte da moderação num tempo de extremos”, Rui Bebiano remete a moderação para o íntimo de cada um: “a moderação requer um esforço pessoal, por vezes solitário ou incompreendido, mas que é o único capaz de construir um espaço de resistência ao ódio e à incompreensão”. Deixa-se conduzir pela armadilha das ciências sociais: reduz o seu alvo de atenção, a boa da moderação, e, para compensar, reifica como natural o extremismo sem identidade. O contraste salienta a necessidade da moderação, mas resigna-se à derrota: a incompreendida incompreensão da moderação.

A boa moderação não caracteriza as “democracias formais”. O autor reconhece que no imediato pós-Segunda Guerra Mundial e a seguir à Queda do Muro de Berlim, em vez de pacificação “o oposto ocorreu, com a projeção de novos antagonismos e certezas”. Nomeadamente, as falsas certezas da moderação do estado social e da utilidade da economia: logros propagados pelas ciências sociais ensinadas nas escolas.

O “tempo dos extremos” foi anunciado em 2003, por Mário Soares e Freitas do Amaral (2003): equipararam Bush filho a Hitler, a respeito da declaração de guerra das civilizações, na cimeira dos Açores. Nessa altura, os comentadores trataram estes dois pais da democracia portuguesa como velhos marretas. Ainda hoje a comunicação social e os politólogos de serviço tratam o revivalismo nazi-fascista como uma doença mental dos protagonistas, como Trump ou Bolsonaro. Ignoram, como o fizeram Soares e Freitas, a corrida dos estados, democráticos e autoritários, na preparação das respectivas polícias para os esperados confrontos internos.

Será que se pode pedir moderação a pessoas cuja perspectiva de vida é o desemprego para o resto das suas vidas, a começar por enfrentar o despejo de casa? Perante este cenário, que ocorre pela segunda vez numa década, a única sugestão para alguém que esteja em boas condições para se manter moderado é o recolhimento pessoal?

Consciente de o seu texto poder ser lido como um requiem, Bebiano nega. Cita Camus, que terá pensado igualmente nesse problema: “o nosso mundo não precisa de almas mornas, precisa antes de corações ardentes que saibam dar à moderação o seu justo lugar”. A moderação será, nas palavras de Bebiano “construir pontes capazes de dar espaço, dentro de um novo quadro de paz, ao natural fluxo da diversidade humana”.

Vamos então construir pontes de moderação. Bebiano trabalha numa faculdade de Coimbra equivalente àquela em que eu trabalho em Lisboa. Ambos sabemos como, na era dos esforços de internacionalização do ensino e da investigação, as comunicações entre as faculdades gémeas de Coimbra e Lisboa estão pessoal e estruturalmente impedidas por razões de competição e de ideologia. Imagino que em Coimbra, como em Lisboa, os historiadores e os sociólogos passem nos mesmos corredores sem fazerem pontes entre si. Por décadas, mesmo as novas faculdades surgidas com o 25 de Abril fundadas em propósitos de interdisciplinaridade, a competição organizada pelas políticas de avaliação científica têm gerado isolamento entre os profissionais e as disciplinas. A má notícia, caro Bebiano, é que já estamos em estado de resistência aos extremismos (ideológicos) e à incompreensão (interdisciplinar) há décadas, no íntimo das universidades. A boa notícia é que os universitários têm muito trabalho entre mãos se e quando quiserem construir pontes.

Há que clarificar a diferença entre aqueles que entendem, por exemplo, a história e a sociologia como disciplinas incompatíveis entre si – e que estão a ganhar – e os que entendem a sociedade como uma entidade histórica em evolução permanente. Por exemplo, podemos questionarmo-nos se Hobsbawn (1994) tem razão, ao dar o nome de Idade dos Extremos ao pequeno século XX (1914-1989), depois da era das revoluções, do capital e do império que ocuparam o século XIX alargado. Ou se Hirshman (1997) tem razão quando explicou como, desde a Revolução Francesa, a ideologia burguesa retirou do espaço público as ideologias belicistas e as escamoteia sob a forma elitista de disciplina a que sujeita as ciências sociais e as universidades.

A moderação em liberdade deveria incluir a livre discussão da natureza humana, como o faz Scheidel (2017), quando observou como apenas a extrema violência foi capaz de inverter significativamente a tendência geral de aumento das desigualdades sociais. Em vez de os estudos da violência serem censurados nas universidades a livre discussão permitiria tratar o assunto: a violência espontânea e também a institucional.

Estarei disponível para organizar uma escola para além das ciências sociais que nos isolam do mundo. Não é só um desafio teórico: é uma necessidade prática.

 

Referências:

Amaral, D. F. do. (2003). Do 11 de Setembro à crise do Iraque. Bertrand.

Hirschman, A. O. (1997). As Paixões e os Interesses. Bizâncio.

Hobsbawn, E. (1994). The Age of Extremes – A History of the World, 1914-1991. Pantheon Books.

Scheidel, W. (2017). The Great Leveler, violence and the history of inequality from the Stone Age to the twenty-first century. Princeton University Press.

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Google

 

01out20

 

 

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