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A mais bem preparada!

Joaquim Castro

 

 

A SIC tem um novo programa, no qual se fala da geração mais bem preparada de sempre. O tema não é novo, pois já se fala na geração mais bem preparada de sempre, há vários anos. Deste modo, ficamos sem saber se a geração mais bem preparada de sempre era a de 2014, ou até a anterior, se esta, a de 2020. O tema não é pacífico, havendo quem diga que o que temos não é a geração mais bem preparada de sempre, mas sim mais geração bem preparada. Felizmente, já não tenho lido ou ouvido dizer a geração “melhor preparada” de sempre. Seja como for, tanto agora, como no passado, há gente bem preparada e outra que nem por isso. Basta dar um giro pelas redes sociais, para se perceber como a actual geração trata a Língua Portuguesa. Nem os ministros se safam no português! Sem pôr em causa a preparação das novas gerações, refiro que, a avaliar pela forma como alguma dessa nova geração trata a nossa língua, nem tudo são rosas dentro dessa geração mais bem preparada de sempre. Mas esse mal vem, muitas vezes, de quem a ensina, nas escolas e nas universidades.

O NOVO PORTUGUÊS

Logo pela manhã, do dia 14 de setembro de 2020, tive de ouvir um jornalista da SIC Notícias dizer: “hoje, é o primeiro dia “di” aulas, após o encerramento, devido à Covid-19”. “Di” aulas? É como, são “dezassete “i” horas”… Mas quem quiser ficar cheio de pontapés na gramática, é passar uma tarde de domingo a ouvir os apresentadores, para ver quem dá mais chutos na Língua Portuguesa. O “tá”, “tou” , “tava”, “tive”… estão entre os campeões. Alguns apresentadores eram cantores, outros actores e outros andavam a brincar pelas televisões. Em comum, todos transportam a sua ignorância em português, prestado um mau serviço à nossa língua. Mas ninguém se admire deste fenómeno. Ainda há dias o categorizado ex-ministro da Educação e professor universitário, Marçal Grilo,  esteve a falar num canal de televisão, utilizando a expressão “há uns anos atrás”, por duas vezes. Assim, não há cabeça que aguente, pois nunca poderia ser “há uns anos à frente!

OBJECTIVOS

Jorge Jesus, treinador de futebol do Benfica, disse no fim do jogo com o Famalicão, em casa deste, que a sua equipa iria trabalhar, para conseguir “os seus objectivos”. Mas isto é o que todos os treinadores e jogadores dizem nas suas declarações. Ao repetirem o termo “alcançar os nossos objectivos”, treinadores e jogadores ficam sempre dentro desses limites, seja, como serem campeões, não descer de divisão ou descer mesmo! Depois vêm aquelas frases, que se repetem no fim de cada jogo: “foi um jogo complicado”, “temos de levantar a cabeça”, “merecíamos, pelo menos, o empate” e mais um monte de frases feitas. Uma das mais famosas frases de um jogador de futebol foi a que João Pinto, um baixinho mas robusto jogador do Futebol Clube do Porto, disse: Estava à beira de um precipício, mas dei um passo em frente. Mas entre as frases de jogadores e de treinadores de futebol, há aquelas que fizeram e fazem história e são um regalo para quem as lê.

O MINISTRO LEITÃO

Apesar de ser o titular das Finanças e Ministro de Estado, João Leitão refere o Orçamento, como “de” Estado, em vez de Orçamento “do” Estado, a designação correcta. Por sua vez, a ministra da Presidência e de Estado, considera que temos uma Direcção-Geral “de” Saúde, cometendo um erro de designação, equiparado ao do ministro da Finanças. Mas há muitos “des”, por aí, deixando os “dos” no esquecimento. Já um jornalista disse no noticiário da SIC, de 28.08.2020, que havia uma “ameaça que pairava no ar, por causa das negociações do Orçamento do Estado, erradamente dito “Orçamento de Estado”. Pairar no ar? Depois disso, uma comentadora de tv falou em “flutuar no ar”. Mas já tinha ouvido, anteriormente, na SIC, que “no ar pairava também uma preocupação sobre o canil de Santo Tirso”, aquele em que houve um incêndio.

ENCONTRO SEM ENCONTRO

Na Antena 1 ouvi um entrevistado a dizer ao entrevistador que eles, uma organização, procuravam ir “de encontro” às pessoas. Este assunto já foi tratado aqui, nesta rubrica, mas nunca é despropositado voltar ao assunto. De facto, o entrevistado talvez quisesse dizer “ao encontro de”, ou seja a favor, em contraste com “ir de encontro a”, que significa em oposição. Mudo de assunto, porque me lembrei que, há dias, uma moça colocou no Facebbok um anúncio, segundo o qual vendia um telemóvel em bom estado, com duas moças. Respondi-lhe que se era com duas moças não era caro. Eu estava interessado, escrevi eu, por brincadeira. Mas a moça lá corrigiu a publicação, esclarecendo que falava de duas mossas!

UNIDADES E MILHÕES

No rodapé de um canal televisivo, durante o noticiário, apareceu a seguinte frase: “Estima-se que exista de 2 a 21M de toneladas de plástico no fundo do mar. Escrito desse modo, a frase quer dizer que tanto pode haver 2 toneladas, co0mo 21 milhões de toneladas de plástico no fundo do mar”. Mas esta frase não está correcta, em termos de rigor. A frase certa seria: “Estima-se que exista de 2M a 21M de toneladas de plástico no fundo do mar”, considerando que M significa milhões. Também costumo ler notícias do género: Ao fim de 40 anos, foi detido um ladrão de 65.

QUEM ESTAVA BÊBADA?

Realmente, a Língua Portuguesa é muito traiçoeira, como é sabido. Vi uma publicação no Facebook, com a seguinte frase: “A mãe bateu na filha porque estava bêbada”, seguida da seguinte pergunta: “quem estava bêbada? Ora, aqui está um bom exercício para resolver. Não se pode saber quem estava bêbada, porque mãe e filha são do género feminino e bêbada também é. É uma frase ambígua. Tanto pode ser a filha como a mãe a estarem bêbadas. Se fosse assim: “o pai bateu na filha, porque estava bêbado”, o problema estava resolvido. O bêbado era o pai. Ou assim: “ o pai bateu na filha, porque estava bêbada”. Ora, neste caso, era a filha que estava bêbada. Ou seja, esta é uma pergunta sem tresposta.

A HISTÓRIA DOS FAMOSOS TRÊS VINTÉNS

TRÊS VINTÉNS – tinha o valor de 60 Reis, cunhado em prata, por iniciativa de D. Pedro II. D. João V e D. José mantêm a cunhagem, com o peso de 1,83 gramas. D. Maria I mantém os TRÊS VINTÉNS com o mesmo peso. D. João Príncipe Regente, depois D. João VI, D. Pedro IV e D. Miguel continuam com os TRÊS VINTÉNS. Em D. Maria II e seus filhos D. Pedro V e D. Luís não se encontram, até que, em D. Carlos e D. Manuel II desaparecem definitivamente.

O que os ajuntadores não sabem é porque a maioria desta simpática moedazinha, apresenta um furo na extremidade do eixo vertical, junto do bordo. A pequenina moeda tornou-se tão popular que, as mães parturientes usavam pô-las ao pescoço das filhas, logo que nascidas, suspensas dum fio, como amuleto. Daí a razão do furo.

Quando se matrimoniavam, retiravam-na. Era o sinal de que já eram casadas. Os rapazes atiradiços, ao abeirarem-se delas, começavam por procurar-lhes, no colo, a simpática moeda e, quando não a encontravam proferiam desgostosos “já não tens os três vinténs, ou então “já lhe tiraram os três vinténs”. E, aqui tendes, porque esta moedazinha ao tomar o sentido pejorativo que conheceis, se tornou tão popular. (Texto transcrito, tal como me chegou).

Neste caso, não se trata de um pontapé na gramática, mas sim de uma curiosa história.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: Joaquim Castro e pesquisa Internet

 

01out20

 

 

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