Maximina Girão Ribeiro
Na sequência da abordagem que temos vindo a considerar sobre as quintas do Bonfim, nomeadamente as quintas de recreio, ou as de residência, cabe-nos hoje referirmo-nos à Quinta da China.
No século XVIII, na margem direita do Douro, junto à foz dos rios Tinto e Torto, onde as terras eram férteis e as águas abundantes, floresciam as quintas de recreio e, entre elas, a Quinta da China, cujo nome nos levanta, desde logo, algumas interrogações. Quinta da China…porquê? Tudo indica que o nome esteja relacionado com o negócio de louças finas (porcelanas) e tecidos, cuja proveniência seria a China. A quinta, com o seu cais, serviria de desembarque das mercadorias e seu armazenamento para depois serem vendidas em outros pontos da urbe, ou serem embarcadas para outras cidades, provavelmente Lisboa, ou para outros países.
O Padre Agostinho Rebelo da Costa salienta na sua obra “Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto” (1785) que a Quinta da China se destacava pela “[…] grandeza da sua casa, do seu terreno, jardins, árvores e muros […].” Na realidade a casa e Quinta da China usufruem de uma localização soberba sobre o rio Douro, numa encosta a sul, lugar romântico e de forte carga histórica, privilegiada por uma vista panorâmica sobre o Rio Douro e Gaia.
A quinta já existia nos finais de Setecentos, mas pensa-se que as grandes intervenções tiveram lugar só no século XVIII, transformando-a numa das quintas mais notáveis do Porto, pela sua posição privilegiada, de amplo espaço murado, possuindo torres de vigia que permitiam observar movimentações, quer em terra, como no rio e suas margens.

A propriedade foi delineada a partir de terraceamentos, ou construção de socalcos escavados na escarpa, com muros de suporte, até ao rio. Ao longo dos socalcos encontravam-se vários elementos decorativos, destacando-se, também. um terraço ajardinado em frente à casa, voltado para o rio e rematado por um interessante parapeito com balaustrada.
Ao longo dos tempos muitos acontecimentos aqui tiveram lugar, designadamente durante a segunda invasão francesa, em 1809, comandada por Soult. Exactamente no dia 29 de Março, dia em que as tropas francesas entraram no Porto, esta propriedade foi objecto de ataque e de manobras militares e, tragicamente, José, filho de João Lopes Ferraz e de Maria Bessa foi morto, na sua própria casa, por um soldado francês.
Nas lutas liberais, durante o cerco do Porto, nesta propriedade estava instalada a designada Bateria da Quinta da China, que representava o início das linhas de defesa do exército de D. Pedro. Assim, esta quinta foi palco de encarniçadas lutas, sobretudo no dia 29 de Setembro de 1832, quando tiveram lugar os combates que deixaram a quinta arruinada, combates que prosseguiram, vindo a terminar na rua do Heroísmo, onde os miguelistas conseguiram penetrar, transpondo as linhas de defesa e provocando uma violenta batalha da qual saíram derrotados.
Esta propriedade e a sua moradia tiveram diferentes donos e moradores.
Inicialmente foi pertença do Bispo do Porto e foi cedida, em 1679, aos Padres Gracianos de Santo Agostinho de Belmonte, ou seja, a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho de S. João Novo. Sabe-se muito pouco desta fase da quinta. Pensa-se que não teria ainda a casa de tipologia senhorial, no entanto, deveria ter existido uma capela, cozinha, sala de refeições, as respectivas celas para cada um dos frades e, naturalmente, as dependências agrícolas, depósitos de alfaias, celeiros, cortes para o gado…
Contudo, no séc. XVIII, um documento da Câmara Municipal intitulado “As Quintas da Zona Oriental do Porto”, refere que em 1788 era uma quinta grandiosa tomada a prazo por Francisco de Bessa Teixeira e, mais tarde, o prazo foi transmitido a João Lopes Ferraz, seu genro, casado com Maria de Beça (ou Bessa), uma filha Francisco de Bessa Teixeira. Da transmissão do prazo constava a casa, terreno, jardins, árvores e muros, considerando-se que, no Porto, haveria poucas casas semelhantes a esta. Acrescenta o documento que a casa é austera, solarenga e se desenvolve tipologicamente em U tendo, adossada uma capela, na ala nascente.
Em documentação consultada na Casa do Infante, referente a 1866, relata-se sobre a quinta e casa que é “[…] boa casa apalaçada, com diferentes entradas e servidões por uma escadaria de pedra, com sua varanda da mesma pedra em forma de pátio e, junto às casas uma capela com porta para um pátio, uma servidão para o cais do rio Douro e para uma rua da mesma quinta que vai ter à rua do Heroísmo e, pelo sul das casas, um jardim com taça no meio, um tanque agora com bica e mais terras de cultivo divididas em tabuleiros, sustentados por paredes de suporte […], diferentes minas, tanques com ramadas e árvores de fruto […] e, junto ao cais do rio Douro, tem uma ermida com a imagem de Nossa Senhora da Vide.” [com uma vara de videira na mão]. A propriedade tinha horta e pomar, campos e bouças e, junto ao cais, chegou a existir uma fábrica e um forno de cal.

Esta quinta possuía duas capelas, uma dedicada a Nossa Senhora da Vide, de planta poligonal, revestida de belos azulejos e localizava-se junto do torreão/mirante. Já não existe, pois foi demolida com a abertura da estrada marginal e que deveria ser do tempo em que aí residiram os Padres Gracianos de Santo Agostinho. A outra capela era dedicada a Nossa Senhora da Graça e ainda hoje permanece no actual contexto arquitectónico.
Diz-nos um estudo de Ana Sílvia de Albuquerque Nunes, que “A Quinta da China pertenceu a João Lopes Ferraz, negociante e Almotacé na cidade do Porto, no séc. XVIII, pai de João Lopes Ferraz de Bessa, igualmente Almotacé.” Ambos tinham um nome sobejamente conhecido nas esferas da governança, pelos cargos que ocupavam no poder municipal e na Ordem de Cristo.
Mais tarde, em 1799, João Lopes Ferraz de Beça (ou Bessa), surge já como Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo e Síndico Apostólico do Real Convento de Santo António da Cidade do Porto. Nesta data, sabe-se que obtém uma provisão para conduzir água para os mesmos religiosos sem pagar laudémio e foro dos sítios por onde passar o referido cano. (in documento na Torre do Tombo).
Foi este João Lopes Ferraz e seus familiares que dominaram o comércio das louças e tecidos, assim como de vinhos, azeite, especiarias, cortiça e outros artigos, através da firma “Ferraz, Filho e Correia” mas foram, sobretudo, dos grandes exportadores de vinho do Porto.
Por volta de 1869, a Quinta da China teve novos proprietários –, exactamente os pais das pintoras Aurélia e Sofia de Sousa, ou seja, António Martins de Sousa e sua mulher Olinda Perez, emigrantes retornados do Brasil e Chile. Este emigrante sentiu-se seduzido pela rara beleza e deveras encantado com o panorama soberbo que do alto daquelas varandas e miradouros se desenrolava. Foram, sobretudo estes aspectos, decisivos para a compra desta propriedade.
O casal teve sete filhos (seis raparigas e um rapaz), sendo Aurélia a quarta filha a nascer, a 13 de Junho de 1866. Desta numerosa família, salientaram-se as duas filhas pintoras, embora Aurélia seja mais conhecida do que sua irmã Sofia.
Aurélia regressou com a família a Portugal, com três anos, passando a viver na Quinta da China, tendo seu pai falecido em 1874, quando Aurélia tinha apenas oito anos.
Com 16 anos, começou a ter lições de desenho e pintura com Caetano Moreira da Costa Lima (distinto discípulo de Roquemont) executando, por essa altura, o seu primeiro auto-retrato.

Depois, Aurélia de Sousa matriculou-se na Academia de Belas Artes do Porto, em 1893, na aula de Desenho Histórico e, de 1899 a 1902 frequentou, em Paris, na Academia Julien, os cursos de J. P. Laurens e Benjamin Constant. A qualidade dos seus trabalhos tornou-se evidente, desde muito cedo, o que lhe permitiu figurar em diversas exposições e colher inúmeras distinções.
A sua estada em Paris foi também aproveitada para visitar e conhecer museus em várias cidades europeias, viagens que realizou na companhia de sua irmã Sofia, também ela a estudar pintura, em Paris.
A obra de Aurélia de Sousa, embora manifeste características muito pessoais, denota também influência dos estilos de pintura mais inovadores do seu tempo, como o naturalismo, o realismo, e o impressionismo. Da sua obra pictórica destacam-se os auto-retratos e os retratos, as paisagens, as naturezas mortas, as ilustrações e os desenhos. São, no entanto, a casa e o espaço familiar, o jardim e toda a Quinta da China, rodeada de uma magnífica paisagem com o rio por perto, os aspectos principais que inspiraram o seu trabalho artístico.
A sua principal biógrafa, Raquel Henriques da Silva, refere que a obra de Aurélia de Sousa “[…] regista a silenciosa narrativa da casa: a presença da velha mãe, os afazeres das mulheres e das crianças, os cantos escuros da cozinha e do atelier, as tardes em que a luz se confunde com os fatos de verão, os caminhos campestres ou as vistas do rio. Pratica uma pintura vigorosa, raramente volumétrica, detida na análise das sombras para nelas captar a luz.”
Em várias das suas telas, salientam-se as amplas vistas que se desfrutavam da Quinta da China nomeadamente em “Paisagem – Margens do Douro”.
Aurélia de Sousa morreu na Quinta da China, em 26 de Maio de 1922, com 55 anos.
A casa e a Quinta da China são hoje pertença de uma empresa, mas é perceptível que “o passado (ainda) mora aqui!”

Cada casa, ou cada propriedade são sempre um produto do tempo e integram-se em todos os movimentos económicos e sociais que contribuíram para a transformação de cada época. Estas quintas e respectivas casas, jardins, elementos ornamentais sofreram, ao longo do tempo, o abandono, a ruína, o vandalismo, as intervenções despropositadas, sem qualquer critério de rigor, à revelia dos organismos culturais do Estado, embora a Quinta da China tenha tido uma intervenção arquitectónica criteriosa, sem desvirtuar o espaço simbólico que o conjunto representa para a cidade.
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
Fotos: pesquisa Google
01out20

Nasci e fui criada no bairro da china im pouco mais a cima da quinta. Muitas vezes fui para la em miuda ajudar apanhar fruta. Os meus falecidos vizinhos que tinham casa na quinta do enxofre foram caseiros, a Celestinhaxe o sr Joaquim com sua filha Mila,que tinha uma deficiência. Depois tiveram que sair quando a quinta foi vendida há Mota engil. Eu e os meus irmãos e vizinhos ainda fomos lanchar, quando a sua filha ou filho se casaram na capela da quinta… Eu deveria ter una 15 anos…
Vivi nos anos 40/60 na quinta do Enxofre ou Rego Lameiro a 100 m da Quinta da China.
O seu proprietário Sr. Caiado tinha um Stand de carros de luxo, já não me lembro se sra na Rua Passos Manuel próximo do Coliseu ou na Av. dos Aliados ou nas dia ruas.
Tinham um Casal que tratava dos serviços agrícolas e que viviaviviana entrada da Quinta e que viviam logo à entrada da Quinta.
Tinham um filho que em miúdo fazia entregas de leite a freguêses vizinhos e que mais tarde se formou em Direito em Coímbra.
Este filho também teve um rebento de uma criada da Quinta,
que frequentou a faculdade e creio que se formou em Direito também!
Já lá vão cerca de 75/80 anos, outros tempos e… muitas dificuldades!
Descubro agora que a Quinta da China permite todos os delírios, todas as histórias e todas efabulações.
1/ A minha avó nasceu (1900), cresceu e viveu (até 1971, quando a Quinta foi vendida a António Mota) na Quinta da China.
2/ A minha avó esteve sempre à cabeira da tia Aurélia até à sua morte.
3/ Todos nós (a família) nascemos crescemos e vivemos na Quinta até à sua venda (1971)
4/ Boas e inesquecíveis recordações da minha tia Sofia de Sousa que nos contava histórias, inventava desenhos e nos dava ameixas cristalizadas!
5/ As placentas de todos os que aí nasceram (a minha família) estão enterradas no grande jardim do lago, das camélias e dos nenúfares.
6/ Todo meu, o nosso passado está indissolúvelmente ligado à Quinta.
7/ Ainda há um ano, por vezes, quando ia dar a medicação à minha mãe, de 94 anos, pela manhã, acordava sobressaltada e dizia-me:”que disparate, estava a sonhar que estava contigo ao colo, no jardim.”
8/ Mas, acerca da Quinta da China, todos se põem na fila e acotovelam-se, para contar a sua versão.
9/ Que fazer? Pelo meu lado, nada. A asneira e o disparate são livres. Sempre fizeram o seu lastimável caminho.
A casa da família da minha mãe, e da minha avó, que aí viveu toda a sua juventude, com as tias. O meu bisavô César Martins de Sousa, nascido em Valaparaiso (Chile), veio com os pais e irmão para o Porto. Já adulto voltou para a Chile, na tentativa de recuperar os muitos bens que os pais por lá tinham deixado, quando de lá tiveram de fugir por causa da Guerra do Pacífico. Por lá casou e enviou de volta a Portugal um filho, César Segundo, e uma filha Sophia del Carmen, para por cá estudarem e viverem com a sua avó Olinda e com as tias. O meu tio avô César Segundo de novo emigrou para o Brasil. A minha avó Sophia del Carmen casou, na capela da quinta, com Armando Aurélio Ferreira Couto. Foram viver para a Rua do Monte dos Judeus, mais tarde para a Av. da Boavista e por fim para a Foz do Douro. Sophai del Carmen morreu em 1972 e Armando Couto em 1997.
A quinta da china é da mota engil e é a casa do Antonio Mota ha largos anos ja
Uma Quinta histórica e com muitas histórias, sendo a sua localização na margem do rio Douro uma das razões para a sua importância na cidade do Porto.
Tinha a ideia, que o atual proprietário da Quinta da China, será o Grupo Mota Engil, mas sem certezas. Abraço ????
A quinta da China tal como a Quinta das Águas, fazem parte da minha infância e juventude. Gostei de saber a sua história com tanto detalhe. Uma informação de grande qualidade, que agradeço como portuense que sou. Parabéns e muito obrigada.
Em 1989 a Quinta da China terá sido vendida ao SMAS (actual empresa Águas do Porto).