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“Ama-me Devagar Mas Com Urgência”, de Lígia Silva, vence “XXIX Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres”

 A Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres promove anualmente o Prémio Nacional de Poesia que foi instituído por ocasião do 1.º aniversário  (1990) da elevação da freguesia a Vila, ideia de António Pacheco do Executivo de então, liderado por José Martins, e destina-se à divulgação de novos valores da poesia nacional e à promoção da leitura e da escrita. O conteúdo temático das obras apresentadas a concurso é livre devendo estas ser inéditas.

O atual Executivo da Junta da União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova através do presidente, Pedro Vieira, e particularmente, a secretária, Maria José Cardoso, com o pelouro da Cultura, manteve a aposta e tem vindo a desenvolver esforços para uma ampla divulgação e notoriedade deste evento cultural.

Maria José Cardoso em declarações prestadas ao nosso jornal afirmou que, aquando do lançamento do 26.º concurso, em 2017, a Junta decidiu revitalizar o Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres atribuindo pela primeira vez um prémio pecuniário de quinhentos euros para além da tradicional publicação em livro da obra premiada, e tem-se vindo a assistir a um significativo aumento do número de participantes, a par, de acordo com a opinião dos diferentes júris do concurso, da qualidade das obras apresentadas. Referiu também que este ano tem vindo a decorrer, semanalmente, a leitura de algumas poesias de todas as obras premiadas do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, ditas por La-Salete Magalhães, e transmitidas via vídeo nas páginas oficiais do Facebook da Biblioteca de Fânzeres e da Junta. Uma iniciativa, entre outras, que pretende promover a trigésima edição do Prémio a realizar no próximo ano.

O Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres vai já na sua 29.ª edição e é um dos prémios mais antigos a distinguir obras de poesia em Portugal, por uma autarquia. Um projeto que, ano após ano, vem congregando um cada vez maior número de obras a concurso, que chegam de todos os pontos do país e mesmo do estrangeiro, e é uma marca identitária desta freguesia.

QUADRO DAS OBRAS PREMIADAS

Edição Ano Autor Obra
1 1990 Estrela Babau O noivo para a serpente 
2 1991 Fernando Macias

Hugo Santos

(Vencedores ex-aqueo)

Gestos de Amanhecer

A Memória da Casa 

                           

3 1992 Hugo Santos Vinte Cartas para um Deus Ausente  
4 1993 Graça Pires Outono: Lugar Frágil
5 1994 José Carlos Barros Todos os Náufragos   
6 1995 José Ricardo Nunes Gaivota do Bico Azul   
7 1996 (Vencedores ex-aqueo)

José Alberto Mar

Maria Graciete Besse

Rui Manuel Amaral

O Rosto Verde do Silêncio (colectânea)

O Rosto Nu

Mediterrâneo: um nome de silêncios 

Verde é o espirito que te bebe

8 1997 Alberto Marques Casa Coração de Fogo
9 1998 Joaquim Manuel Pinto Serra As Mãos e o Silêncio
10 1999 Alexandre Parafita Lavrador de Versos
11 2000 José Fernandes de Matos A Madrugada dos Sonhos
12 2001 João Ricardo Lopes Além do dia hoje
13 2002 António Augusto Menano Teoria do Vidro
14 2003 Leonardo Carvalho Santos Sons das Palavras
15 2004 Maximina Girão Pétalas de Sol
16 2005 José Manuel Teixeira Rios do Interior
2006 Não foi realizado o Prémio.
17 2007 Marta Dutra Vago – o olhar
2008 Não foi realizado o Prémio.
18 2009 Fernando Hilário A idade das paisagens anteriores
19 2010 Paulo Assim Celulose
20 2011 Paulo Assim Mão sobre os olhos
21 2012 Joaquim Manuel Pinto Serra Viagem através do nosso distanciamento
22 2013 Boaventura de Sousa Santos Pomada em Pó
23 2014 Joaquim Manuel Pinto Serra Rosas amarelas para a nossa ausência
24 2015 Luís Bento Avessos
25 2016 Não foi atribuído o Prémio, por falta de qualidade das obras a concurso (júri).
26 2017 Joaquim Manuel Pinto Serra Uma anunciada solidão
27 2018 Luís Bento Des existir do improviso
28 2019 Luís Aguiar Respirar pássaros como se o sol doesse
29 2020 Lígia Silva Ama-me devagar mas com urgência

CERIMÓNIA DE LANÇAMENTO

De entre trinta e duas obras a concurso, o júri constituído pelo Dr. José Nunes Carneiro, Dr. Francisco Duarte Mangas e Dr. Arnaldo José Araújo, decidiu em 14 de Agosto do corrente ano, por unanimidade, atribuir o XXIX Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres à obra “Ama-me devagar mas com urgência” da poeta Lígia Marlene Araújo da Silva, que concorreu com o pseudónimo de “Antónia Torres”.

No passado dia 18 de Outubro, domingo à tarde, na secular e emblemática Casa de Montezelo, assistiu-se à apresentação da obra, num evento em que a Junta da União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova assegurou todas as condições de segurança, seguindo as regras em vigor, emanadas do Governo e DGS, e que contou com a presença de autarcas locais (à exceção da vereação da cultura da Câmara Municipal de Gondomar), de membros da Federação das Coletividades do Concelho de Gondomar e do Movimento Cívico Pensar Fânzeres, entre outros amantes da poesia que quiseram marcar com  a sua presença num acontecimento deveras importante para a Vila de Fânzeres e para a poeta.

             

A cerimónia teve momentos musicais interpretados por José Alves (trechos em flauta transversal), intercalados com a declamação de poesias da obra premiada por Cidália Santos, uma “habitué” e excelente declamadora.

Foram dirigidas algumas palavras por parte do Dr. Francisco Duarte Mangas, representante do júri, que declarou ter sido uma escolha simples e rápida tal a qualidade da poesia da Lígia Silva, a quem augura um futuro risonho no mundo das letras.

A representante da Editora Elefante, Dra. Margarida Pamplona, em relação à obra e à poeta, fez uma intervenção no mesmo sentido do orador anterior. Agradeceu a oportunidade da editora colaborar com a Junta da União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova, e esperam continuar, referiu.

     

Por sua vez, o presidente da Junta, Pedro Vieira, transmitiu que num ano atípico como o que se vive, a Junta “não quis deixar de assumir as suas responsabilidades e lançou o concurso. Em boa hora, porque pela primeira vez venceu uma poeta gondomarense e é um estímulo à participação dos jovens”. Aproveitou para deixar uma palavra de esperança e coragem aos presentes na luta contra a pandemia, porque a vida continua.

A poeta, Lígia Silva, na alocução proferida agradeceu à organização pela oportunidade, pelo Prémio, e aos familiares e amigos pela confiança que sempre transmitiram, a força que sempre lhe deram, e que aquele dia, era um dia de muita felicidade. Leu um discurso cujo teor, em traços gerais, está plasmado na entrevista que amavelmente nos concedeu.c

No final foram distribuídas lembranças aos intervenientes e servido um Porto de Honra. A cerimónia encerrou com a oferta de livros e uma sessão de autógrafos.

A POETA PREMIADA…

Lígia Silva, de 34 anos, é natural e reside em Gondomar. Estudou economia. Pertenceu à “In skené – Companhia de Teatro. Profissionalmente trabalha num pequeno negócio local de doçaria, mas é nas palavras que encontra a sua verdadeira paixão e a doçura da Vida.

Começou a escrever poesia em 2012, publicando o seu primeiro livro dois anos depois, O Silêncio das Palavras, e em 2018, lançou Margens de Mim, um livro intimista. Agora, com a obra Ama-me devagar mas com urgência, foi a premiada da XXIX edição do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres.

A OBRA…

Em Ama-me devagar mas com urgência, Lígia Silva apresenta uma poesia breve mas com um lirismo intenso, num diálogo permanente com a pessoa que amamos.

O título do livro cativa. Tem pinceladas de Eugénio de Andrade. São 45 poesias curtas mas cortantes que nos falam de paixão e de amor.

Afirma que quer ter na vida mais poemas do que horas.

Escolhemos três poesias para vos “deixar água na boca”:

 “de mim apenas queres

um poema de amor

e eu de ti apenas quero

um amor que vire poema “

pág. 11

digo o teu nome setenta vezes por minuto

setenta horas por dia

eu sei, vais dizer que o dia não tem tantas horas

mas eu também não sabia

que o amor tem mais tempo de história

do que de vida”

pág.. 14

“lentamente

quero o-lhar-te em sílabas

lentamente

dizer-te

a-mo-te

depois

lentamente

percorrer todas as sílabas

do teu corpo

len-ta-men-te”

pág. 38

LÍGIA SILVA: “É IMPORTANTE TRANSFORMAR TUDO EM OUTRA COISA. EU TRANSFORMO EM POESIA”

        

Quem é a Lígia Silva?

“Vou citar uma frase do poema Tabacaria do Álvaro de Campos:  “Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta, ao pé de uma parede sem porta”. Acredito que o impossível está à distância de uma atitude. De uma persistência coerente e entusiasta. E é fundamental acreditar. Porque, para mim, se é possível dentro da minha imaginação, também o será fora dela”.

 Como nasceu a sua relação com a poesia?

“Da necessidade de exteriorizar aquilo que sinto. Percebi que, ao escrever, poderia ter a liberdade que sempre desejei ter. Eu e o papel em total comunhão e união. A leveza de dividir o que dentro de mim cresce. É importante transformar tudo em outra coisa. Eu transformo em poesia”.

Que autores influenciam a sua escrita?

“Fernando Pessoa, que é para mim o maior génio da literatura portuguesa. O Al Berto, pela sinceridade e sensualidade da sua escrita e a Clarice Lispector, por ser uma alma com a qual me identifico totalmente”.

 Revê frequentemente as suas poesias ou, depois de as considerar terminadas, são “intocáveis”?

“Não revejo. Escrevo o poema e assim o deixo. Se o escrevi daquela forma, naquele momento, é porque foi assim que o senti. Então, não faria qualquer sentido alterá-lo mais tarde”.

 Escreve todos os dias, ou quase, na sua página no Facebook. Onde vai buscar a inspiração?

“Eu não a busco, ela surge dentro de mim, pelos sentimentos que me atravessam a pele e o coração. As pessoas que cruzam a minha vida são a minha inspiração”.

 O que a levou a concorrer à XXIX Edição do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres?

“Ter uma porta aberta, mesmo que a porta não se abrisse para mim. Mas parece que se abriu, pois ganhei”.

 Qual a sensação de vencer este Prémio, até porque é a primeira Gondomarense a consegui-lo?

“Uma felicidade enorme, pelo prémio, e pela forma como fui recebida pela organização do mesmo. Senti-me totalmente acarinhada e acompanhada nesta viagem”.

 

 Dos três livros já publicados, “O Silêncio das Palavras” (2014), “Margens de Mim” (2018) e “Ama-me devagar mas com urgência “(2020) qual o que gosta mais e porquê?

O livro que mais gosto é o último, o “ama-me devagar mas com urgência”, porque ele é o que eu sou. Os outros dois são o que eu fui”.

 Tem alguma obra no prelo? Título e para quando a publicação?

“Sim, tenho, mas ainda não posso divulgar. Até porque, agora, é momento de saborear o meu “ama-me devagar mas com urgência”. Saboreá-lo bem”.

 Que livro(s) tem na mesa de cabeceira?

“O Livro de Desassossego do Fernando Pessoa, Diários do Al Berto e o Livro de Crónicas da Clarice Lispector”.

 Como vê o estado da cultura e da poesia, em particular, no momento atual?

“A cultura, neste momento, está a ser extremamente afetada em todo o mundo. Esta pandemia está a tirar-nos a liberdade de viver, de sorrir e de criar. O medo sobrevoa e, onde o medo sobrevoa, não se vive em plenitude. Cada vez mais sinto necessidade de ir a um concerto, de ouvir e ler poesia, de estabelecer um contacto com aquilo que nos enriquece e transforma: a arte. A arte é a forma do ser humano exprimir-se e é pelo que acrescentamos e transformamos no outro que vale a pena criar. É urgente manter os eventos nesta fase em que estamos, com todos os cuidados necessários, claro. Mas as pessoas precisam, ainda mais, de encher a visão de luz e o coração de felicidade e amor”.

 Que pergunta gostaria que lhe fizéssemos e que nunca ninguém fez?

O que é que realmente importa? Responderia: o que deixamos no outro e o que o outro deixa em nós.

Eu espero ouvir alguma coisa que transforme o meu dia. Que me faça pensar e até que me faça duvidar. Que mova tudo o que eu dava como certo e que desoriente todos os pontos cardiais da minha bússola.

Eu espero aprender, ouvir o que ainda ninguém me disse e colocar mais um tijolo na construção do meu ser”

 

Texto: Manuel Oliveira

Fotos: gentilmente cedidas pela Junta da UF Fânzeres e S. P. Cova

 

01nov20

 

 

 

 

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