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Jorge Jesus e a procuradora

Joaquim Castro

 

 

O treinador do Benfica, Jorge Jesus, foi repreendido por dois procuradores, num tribunal, por ter tratada a procuradora que o interrogava, por você. Nas suas reprimendas, os dois procuradores disseram que deveria tratá-la por senhora procuradora. À saída do tribunal, Jorge Jesus respondeu a um jornalista, que não sabia falar português! Perante este incidente, fiz uma pesquisa no Google, para tentar perceber se era incorrecto tratar uma procuradora por “você”. Claro que, tratar uma pessoa, que não seja próxima, por você, não é muito curial.

Retive o seguinte da minha procura:

“Não há, em Portugal, regra jurídica sobre o assunto. Os advogados portugueses, quando, em Tribunal, se dirigem oralmente aos juízes (de primeira instância), usam frequentemente o vocativo “Meritíssimo Juiz”. Aliás, o dicionário de Morais, no verbete respectivo, diz que o adjectivo em causa é “tratamento que se dá aos juízes de Direito”. No entanto, é também frequente, em Tribunal, os advogados, oralmente, usarem os vocativos “V. Ex.ª” e “Senhor Dr. Juiz”. As testemunhas, os funcionários e outras pessoas chamadas a intervir nos julgamentos raramente usam “Meritíssimo Juiz”.

Nos cabeçalhos das peças escritas dirigidas aos Tribunais do topo da hierarquia judicial (Supremo Tribunal de Justiça, Tribunal Constitucional, etc.), é vulgar os advogados usarem o vocativo “Venerandos Juízes Conselheiros”. Estamos no domínio da etiqueta, que, como se sabe, vai flutuando, sendo as regras cada vez menos uniformes e rígidas. Em Portugal, há advogados que se escusam a aplicar o termo Venerando a juízes de tribunais superiores, ou por entenderem que, semanticamente, este termo é um anacronismo quando não reservado a divindades, santos, anjos, relíquias ou memória ou alma de antepassados, ou por entenderem que o termo sugere a ideia de subordinação ou subalternização do advogado em relação ao juiz, ideia que colide com o princípio da paridade entre os operadores judiciários.

ATRÁS!

Ana Catarina Mendes, deputada e líder da Bancada Socialista declarou, à saída de um plenário da Assembleia da República, que os motivos para aprovar o Orçamento do Estado, são os mesmos que “há cinco anos, atrás” foi aprovado por PS, PCP e Bloco de Esquerda. Pode ser verdade, mas os “cinco anos, atrás” deitaram a declaração para o saco dos pontapés na gramática. Este assunto, do atrás, tem sido abordado nesta rubrica, por diversa vezes. E aquela frase, proferida em espaço amplo, dentro do edifício da Assembleia da República, caiu como uma bomba. É muito grave a falta de rigor dos nossos representantes na utilização da Língua Portuguesa. Refira-se que Ana Catarina Mendes é licenciada em Direito e mestrada em Novas fronteiras. Ora, bolas!

ANÚNCIOS PORREIROS!

Correm pelas redes sociais, muitos avisos, anúncios ou, simples letreiros que revelam verdadeiras máquinas de fazer rir. Esses escritos estão por todo o lado. É só fotografá-los e publicá-los na Internet. Alguns são verdadeiras anedotas, outros, carregados de erros ortográficos. Num jornal nacional, li um título de primeira página, que dizia “COVID-19 NA PRISÃO”. Num estabelecimento comercial, estava o seguinte anúncio: PRECISA-SE DE EMPREGADO PARA FAZER FÉRIAS. Até eu me quis candidatar! Num carro-oficina, de serviço porta a porta, foi escrito: “tudo o que o seu marido não faz em casa, nós fazemos”. Uma casa funerária escreveu: “os nossos serviços funerários são de qualidade garantida. Nunca recebemos reclamações dos nossos clientes”.

EM QUALQUER “RÚBRICA”

Ao fim de tantos anos, ainda há apresentadores que pronunciam “rúbrica”, em vez de rubrica, que é uma palavra grave e que não é acentuada em qualquer sílaba. Dois exemplos dessa asneira gramatical. Na RDP, Antena 1, existe um programa, chamado ZIgZag, que é destinado às crianças, as quais nele participam. Infelizmente, a apresentadora remata uma pequena parte, sobre ciência, como sendo uma “rúbrica” do programa ZigZag. Isto dito aos ouvidos de milhares de crianças, só pode induzir essas crianças em erro sobre a forma como se pronuncia. Já o João Baião entendeu considerar que o cantor Fernando Correia Marques, o que canta “Burrito”, era uma presença incontornável em qualquer “rúbrica” de televisão.

PARTICULARICES

O nosso presidente Marcelo referiu, em um canal televisivo, em tempo de palpites para o Orçamento do Estado para 2021, que “ os partidos não podem agir, no OE, com “particularices”. Fui ao dicionário de Língua Portuguesa e não encontrei tal termo. Também não encontro outros termos utilizados pelo professor Presidente, tais como: “quasi”, “decedir”, “protecção cevil”… Por outro lado, Alice Vilaça, que apresenta o programa diário da Antena 1, “Portugueses no Mundo”, pergunta no fecho de cada programa: “qual é a palavra que melhor define a sua experiência de português no Mundo”? As respostas são as mais diversas, como realização, experiência, valorização, e outras, conforme o entrevistado, que trabalha no estrangeiro. Mas o facto é que a apresentadora do programa deve perguntar: “qual é a palavra que mais bem define…” e não, “que melhor define”. Acho eu.

PEQUENOS DETALHES

Antigamente, os cadernos de encargos e as memórias descritivas de uma obra de construção civil, completavam as diversas peças desenhadas de um projecto, o tal dossiê, que na altura, se escrevia “dossier”. Normalmente, no fim dessas peças escritas, existia a rubrica Acabamentos Finais. Na verdade, todos os acabamentos são finais, pelo que os “finais”, neste caso, não tem cabimento. Ponto final. Melhor que isso, só grandes pormenores! Mas há outros detalhes, que fazem toda a diferença. Por exemplo: “Jovem de 16 anos usa x-acto para atacar mãe”. Mãe de quem? Deveria ser atacar a mãe. Ou “a mulher fez hoje um bom almoço”. A mulher de quem? Poderão chamar-lhe um preciosismo, mas não é. Em alguns casos, estes tais pormenores fazem toda a diferença.

FRASES PERFEITAS

As frases proferidas por figuras públicas, com relevo para os jogadores de futebol, contêm muitas expressões que são uma delícia para muita gente. Alguns exemplos, que agora andam pelas redes sociais:

Quem corre agora é o Fonseca, mas está parado“. – Jorge Perestrelo (relato de jogo)

Inácio fechou os olhos e olhou para o céu!” – Nuno Luz (SIC)

A China é um país muito grande, habitado por muitos chineses“. Charles de Gaulle

Lá vai Paneira no seu estilo inconfundível… (pausa … Mas não! É Veloso. – Gabriel Alves

É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos“. – jornalista da RTP

Um morreu e o outro está morto“. – Manuela Moura Guedes

Antes de apertar o pescoço da mulher até à morte, o velho reformado suicidou-se“. – João Cunha, testemunha do crime

O acidente foi no tristemente célebre Retângulo das Bermudas“. – Paulo Aguiar (TV Globo)

À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel.” -Ribeiro de Jesus, PSP de Faro

O acidente provocou forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido“. – António Bravo (SIC)

Ela contraiu a doença em vida“. – Dr. Joaquim Infante, Hospital de Santa Maria

Os sete artistas compõem um trio de talento“. – Manuela Moura Guedes (TVI)

Esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano“. – Dr. Alves Macedo, oncologista

Querem fazer do Boavista o bode respiratório“. – Jaime Pacheco, treinador do Boavista

Se entra na chuva é para se queimar.” – Denilson, jogador da Seleção do Brasil

No Porto é todo mundo muito simpático. É um povo muito hospitalar“. –

Finalmente, a água corrente foi instalada no cemitério, para alegria da população” repórter do Fundão

CANETA VOADORA!

Há muitos anos, vi, num debate televisivo, uma cena espectacular. Era entre um deputado, cujo nome não me lembro, e José Magalhães, na altura, deputado do PCP, agora do PS. Claro que não estamos a falar de um pontapé na gramática, mas sim de uma viagem atmosférica! José Magalhães, aparentemente enérgico, falava e brandia uma caneta ou uma esferográfica, entre dois dedos da mão esquerda, com energia. Às tantas, a caneta fugiu-lhe de entre os dedos, para o seu lado esquerdo, indo ele, rapidamente, apanhá-la do chão. Num dos cursos de formação que frequentei, já lá vão uns anos, a nossa formadora esteve a analisar o comportamento em cada um de nós, formandos, enquanto nos dirigíamos aos nossos “alunos”, duranta uma sessão simulada. Um dos reparos da formadora foi sobre a minha prestação, em que gesticulei com uma esferográfica, durante toda a palestra. Hoje, muitos comentadores de desporto, não passam sem uma esferográfica a rolar entre os dedos.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Web

 

01nov20

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