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José Santa Camarão – O famoso pugilista “presente” em mais de um século de “Memórias de um Vareiro” no… Museu de Ovar

Entre as muitas memórias coletivas que o Museu de Ovar preserva no seu espólio, particularmente sobre a comunidade local, destacam-se um conjunto de objetos da vida do pugilista José Santa Camarão, que mais uma vez, depois de uma primeira exposição de homenagem realizada nesta Instituição Museológica em abril de 2004, foram de novo reunidos para lembrar o cidadão e o desportista, com momentos de glória no boxe que se perpetuam no tempo, como recorda a exposição “Memórias de um Vareiro”, inaugurada no dia 17 de outubro e prolongando-se até 16 de dezembro.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Como tem sido apanágio do Museu de Ovar, o seu espólio está ao serviço da comunidade e das diferentes entidades que visam promover a cultura e a ele regularmente recorrem. Espirito sempre presente nas suas atividades, a exemplo da atual exposição, que tal como vários outros eventos de homenagem a José Santa Camarão, ajudam a manter viva a lenda do pugilista de Ovar. Seja através das diferentes obras de investigação, como o livro de Luís Maçarico “Com o Mundo nos Punhos – Elementos para uma Biografia de José Santa Camarão”, com reconhecidos contributos de investigação do artista pintor e ceramista, Marcus Muge e seu “espólio” pessoal, bem como do Museu de Ovar e várias outras fontes que enriqueceram a obra.

Já Marcus Muge, autor de uma das obras na presente exposição no Museu de Ovar, tem igualmente dedicado a execução de vários projetos artisticos em homenagem ao Santa Camarão, incluindo uma escultura “anatomia” (2002) alusiva ao centenário do Pugilista, que acabou encaixotada. Este artista de Ovar, liderou ainda a defesa de um Museu Santa Camarão, que nunca se concretizou, ao contrário da homenagem que assumiu realizar em Alfama – Lisboa, ali perpetuando também a memória do Santa Camarão, em que viveu e trabalhou nas fragatas.

Ao longo dos tempo, têm sido várias as iniciativas dinamizadas por diferentes entidades, em homenagem ou em memória de Santa Camarão, como a mais recente (2017) edição do livro de banda desenhada da autoria de Xavier Almeida, natural de Ovar. Também o Governo Português atribuiu, a título póstumo, em 2003, a Medalha de Bons Serviços Desportivos ao pugilista José Santa Camarão, que nasceu em Ovar no dia 25 de dezembro de 1902, e na sua terra natal veio a falecer com 65 anos de idade, no dia 5 de abril de 1968.

São assim momentos como o agora proporcionado pela exposição no Museu de Ovar, sobre “Memórias de um Vareiro”, que fazem não deixar esquecer no tempo, quer a sua vida de pugilista, quer a do cidadão participativo na sociedade, como desfiles do Carnaval, ou a de proprietário de um café em sua casa, tornando-se entretanto presença assídua no popular Café Neves, no largo que viria a ser atribuído a título póstumo o nome de Largo Santa Camarão, com uma peça escultória da autoria de Emerenciano Rodrigues, em sua memória.

Com a presença da vereadora da educação do Município de Ovar, Ana Cunha, e do diretor do Museu de Ovar, António Dias, das suas palavras na cerimónia de inauguração da exposição, destacaram-se as de reconhecimento do trabalho desenvolvido por quem cuida do “espólio desta Casa”. Alusão à dupla de técnicas (Leonor Silva e Rafaela Carvalho) que estão atualmente a garantir a preservação e inventariação de elementos e objetos do espólio, como o que deu sentido à exposição “Memórias de um Vareiro”. Iniciativa que a autarca louvou, para “dar às pessoas mais cultura e mais conhecimento”, fazendo assim chegar, “aos que não conhecem e aos mais velhos que conviveram com José Santa Camarão”. Palavras saboreadas por uma delegação de moradores da Arruela, como Manuel Rica, Manuel Lopes, ou ainda Joaquim Pereira, que antes de emigrar para França em 1965, foi então barbeiro de José Soares Santa ou o José Santa Camarão, com a alcunha “Camarão” da família, com quem privaram, nunca tendo sido esquecido pelo tempo os momentos de convívio e amizade naquele bairro de Ovar.

Dos objetos expostos, como vários exemplares dos “gigantes” sapatos e sandálias ou o molde em madeira das meias do homenageado, destacam-se os de âmbito desportivo, como um saco e uma bola de treinos de boxe, assim como um exemplar de luvas de boxe e um troféu da homenagem a José Santa, em 1930, realizada pela Associação Portuguesa de New Bedford, entre as várias homenagens emocionadas que lhe foram feitas pela Comunidade portuguesa emigrada na Califórnia.

Componente desportiva também ilustrada em fotografias, com o pugilista português que alcançou fama mundial na sua carreira que durou entre os anos de 1925 e 1933, em terras do Brasil e dos Estados Unidos da América, em que no ano de 1931, venceu 31 combates consecutivos, tendo estado mesmo à beira do título mundial. O pugilista de Ovar “em cerca de cem combates, ao longo de quase uma década de carreira, Santa obteve uma esmagadora maioria de vitórias. Combateu com Max Baer com quem perdeu e com Primo Carnera com quem desistiu ao 6º round”, lê-se na folha de sala da exposição a propósito da carreira do pugilista, que disputou combates em vários países da Europa, América do Norte e América Latina, tendo em 1929 perdido o título europeu para Pierre Charles, como se lê na referida obra de Luís Maçarico.

No “álbum” de fotografias, que integram igualmente o espólio do Museu de Ovar, registam-se ainda memórias da sua vivência social, em que o José Santra Camarão surge sempre acompanhado dos vários amigos que o acompanhavam pelas artérias da então vila de Ovar.

O ambiente familiar de José Santa Camarão assume também lugar de destaque na exposição através das recordações fotográficas, como o seu casamento em 1932 com Mary Loreto, uma luso americana, filha de açoreanos, cujo filho do casal, Renaldo Santa, acabaria por ser levado pela mãe para os Estados Unidos da América, depois do regresso do pugilista a Ovar, terminada a sua carreira desportiva.

Das mãos do filho, Renaldo Santa, saíram pinturas retratando o pai, “A cara dum pugilista” (2002) e um óleo sobre “José Santa “Camarão”” (2003), que integram a mostra da exposição, assim como uma das várias obras do artista Marcus Muge dedicadas ao “Santa”, neste caso uma serigrafia sem título (2004).

Apesar da sua vivência discreta, esta e todas as iniciativas para lembrar José Santa Camarão, nunca serão demais para preservar a memória coletiva de uma comunidade, que viu destacar-se entre os seus filhos, um dos muitos fragateiros em Lisboa, que assistindo a uma sessão de luta livre no Coliseu dos Recreios, “acabou acidentalmente por tomar parte nela e com sucesso”. Veio depois treinar boxe numa sala do Futebol Club do Porto, estreando-se em abril de 1925, vencendo Joaquim Branco.

O nome do pugilista transpôs fronteiras, projetando o nome de Ovar e do país através do mundo inteiro, entrando no profissionalismo, tendo estado à beira do título mundial. “Memórias de um Vareiro” que o Museu de Ovar tem a missão de divulgar e mostrar, como mais uma vez e através desta exposição, com mais de um século de memórias, assume através da sua missão museológica.

 

01nov20

 

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