Carmen Navarro
Lídia Jorge é a 30.ª escritora a ser distinguida com o principal Prémio de literatura da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, (México) de Literatura em Línguas Românicas, e é o segundo escritor português que recebe tão alta distinção depois de António Lobo Antunes, em 2008.
Este galardão mexicano, foi anunciado pela professora universitária espanhola Anna Caballé, que fez parte do júri, que distinguiu a carreira literária de Lídia Jorge, realçou a sua “originalidade e subtileza de estilo” e “imensa humanidade”. O júri destacou também “o nível literário” de Lídia Jorge, e o modo “como a sua obra novelística retrata a forma como os indivíduos enfrentam os grandes acontecimentos da História. E na forma de se aproximar tanto dos temas tratados na sua obra – adolescência, descolonização, lugar da mulher, emigração, agentes da História, assim como na apresentação das personagens que a protagonizam”, foram os fatores sublinhados pelo júri do principal prémio literário da Feira Internacional do Livro (FIL), de Guadalajara.
Na ata, o júri explica que a escritora obteve “o respeito unânime da crítica com o seu chocante romance «A Costa dos Murmúrios» (1988), escrito em resultado da sua passagem por Angola e Moçambique, em processo de descolonização. Nele, as terríveis consequências do colonialismo são descritas com um realismo às vezes brutal, emergindo também no romance um problema que passará por toda a sua literatura: a reflexão sobre como a História é construída e escrita”.
O júri deste ano foi constituído pelo professor Mario Barenghi, da Universidade Bicocca, de Milão, Itália, pela escritora e crítica literária Anna Caballé, assim como pelo escritor Javier Rodríguez Marcos, ambos de Espanha, pela investigadora Luminita Marcu, da Universidade Bucareste, na Roménia, pela editora livreira francesa Anne Marie Métailié, pelo docente mexicano Rafael Olea Franco, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e pela escritora e ensaísta brasileira Regina Zilberman.
O presidente da FIL de Guadalajara, Raúl Padilha Lopez elogiou o júri pela distinção feita a esta escritora portuguesa, dizendo: “ escolha desta magnitude”
Lídia Jorge disse que se sentiu “comovida” por o júri a ter apontado como uma das mais importantes vozes da literatura em língua portuguesa.
Lídia Jorge, dedicou o prémio aos “companheiros” da literatura portuguesa, citando alguns escritores entre outros como: Nuno Júdice, Hélia Correia, Mário Cláudio, Mário de Carvalho e Almeida Faria.
Lídia Jorge sucede ao mexicano David Huerta, premiado em 2019.
A Feira Internacional do Livro de Guadalajara, é a segunda maior do mundo, no mercado livreiro, depois da feira de Frankfurt, na Alemanha.
Cai a Chuva no Portal
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.
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Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lídia Jorge (Inédito)
A este Prémio máximo juntam-se outros que distinguem uma carreira literária brilhante: Prémio Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro em 2019/2020, o Grande Prémio de Literatura (2019), o Prémio Vergílio Ferreira (2015), da Universidade de Évora, o Prémio Luso-Espanhol de Cultura (2014), o Prémio Internacional de Literatura da Fundação Günter Grass (2006), o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Correntes d`Escritas (2002), o Prémio Jean Monet de Literatura Europeia (2000) e o Prémio D. Diniz da Casa de Mateus (1998), entre outros galardões.

Lídia Jorge é uma romancista, poeta, contista e ficcionista de um realismo mágico e, autora de uma peça de teatro. Nasceu em Boliqueime, no Algarve, a 18 de junho de 1946, com o nome de Lídia Guerreiro Jorge.
Licenciada em Filologia Românica e professora do ensino secundário, em Lisboa, ensinou em Angola e Moçambique para onde partiu em 1970. Viveu o conturbado ambiente da Guerra Colonial que lhe deu material para mais tarde escrever o romance “A Costa dos Murmúrios”. Dedicou-se também à publicação regular de artigos na imprensa e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
A voz da guitarra
Juntei-me à voz da guitarra
Por ser mais que verdadeira
Provei que eu própria era
Feita de sua madeira.
Viemos da mesma árvore
Talhadas do mesmo jeito
Guitarra tem as minhas formas
Eu tenho o seu próprio peito
Estão em mim as suas cordas
E até a mão de quem toca
É carne da minha carne
Falando da minha boca
Lídia Jorge
Em Lisboa continuou a atividade docente e, em 1980, publicou o romance O Dia dos Prodígios, que lhe valeu o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa. Esta foi a sua primeira obra publicada. O Dia dos Prodígios é uma alegoria do país fechado e parado que Portugal era sob a ditadura, sempre à espera de uma força que o move-se. O romance foi muito bem aceite pela crítica e os leitores, revelou-se uma renovadora das letras portuguesas.
Em 2018, Lídia Jorge editou o seu primeiro livro de poesia, “O Livro das Tréguas”, uma seleção de 50 dos poemas que a autora escreveu e nunca tinha publicado.
Sou de Vidro
Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita
Lídia Jorge
(maio de 2019)
Os romances de Lídia Jorge encontram-se traduzidos em diversas línguas. Em 2006, a autora foi distinguida na Alemanha, com a primeira edição do Albatroz, Prémio Internacional de Literatura da Fundação Günter Grass, atribuído pelo conjunto da sua obra.
Para Sophia
Lua branca da madrugada
pousaste teu cinto na terra
e o mar te veio buscar.
Já lá estavas, de lá enviaste
as palavras que um tempo
fora do tempo te tinha dado
e nós à espera desse momento
alado, em que as tuas letras transformassem
linhas pretas num campo iluminado.
Agora estás lá dentro, agora desde que a lua
e o mar se unem e fazem as marés
mas só alguns o sabem, tu soubeste e
nisso és.
Voltaste à terra branca, e na cidade
um sino bate a hora como se o dia
de hoje apagasse um foco incendiário.
Teu fogo porém vivo, é de outra chama
e a cama onde te deitas, doutra cambraia
e a praia onde te banhas, de outra
água.
Lídia Jorge
Lídia Jorge, Escreve Portugal, porque observou a condição social em que vivemos e a escravatura feminina, antes do 25 de abril de 1974 e analisa a mudança na sociedade.
“Os escritores são seres de liberdade e de libertação dos outros.”
Lídia Jorge
01nov20





