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Na Universidade da Covid

Ricardo Guerra

 

Para mim (e para mais de 50 000 estudantes), 2020 é um ano especial. O célebre “ano da Covid” marca o princípio da minha vida universitária!!! Em 2020, abandonei o colégio que fora o meu ninho durante 12 anos da minha vida, abri as asas, cerrei os olhos e voei para outros horizontes. E, embora seja recente a chegada ao meu novo destino, sente-se já o aroma fresco a futuro, a um novo eu feito de tudo o que já fui. A novos corredores, novos professores… E, acima de tudo, novos colegas, novos amigos.

Mas a realidade do caloiro, este ano, é distinta da que escreve a indelével tinta do passado. Tudo porque a Covid é, também, “caloira”… No entanto, possui no sangue as manias de uma praxista sem tento nem escrúpulos. A sua praxe humilha, a sua praxe destrói, a sua praxe é perigosa e devastadora. A Covid não pretende, como é o dever da praxe, unir os alunos, acender o fogo do espírito de equipa, redigir belas histórias e doces memórias. Pelo contrário, a praxe da Covid separa ao invés de unir. Acaba com os risos nervosos, com as palavras soltas que quebram o gelo, com as conexões para a vida formadas no instante de um olhar. A praxe da Covid acaba com os cafés depois das aulas, com os encontros de estudo… Oculta até os sorrisos sob o véu impenetrável de uma máscara…!

No entanto, quem corre por gosto não cansa e quem quer algo, sempre alcança. E, se a interação presencial deve ser mínima, o poder infinito da tecnologia tomou o seu lugar. É incrível a dinâmica de grupos criados em todas as redes sociais, os eventos de acolhimento por videoconferência, a troca incessante de informações, de problemas e soluções, etc… Tudo à distância de um clique!

Uma pandemia, tal como uma guerra, é o maior motor de mudança. E, embora fisicamente separados, este vírus une-nos a nós, caloiros, mais do que nunca. Porque ainda que não nos conheçamos uns aos outros, há algo que sabemos: remamos todos no mesmo barco, lutamos todos na mesma aventura. Assim, quando alguém necessita de ajuda, é notório o esforço comum para nos auxiliarmos uns aos outros, é maravilhoso o esforço para tornar a vida académica uns dos outros um pouco melhor, mais confortável, menos solitária.

Além disso, cada réstia de contacto presencial adquire um valor distinto, um sabor único e inigualável. Apreciamos com uma intensidade superior cada momento, os risos que valem mais que mil emojis, as mirabolantes histórias, as inesquecíveis recordações. Porque cada instante é mais do que apenas um instante e, num instante, podemos todos ter de regressar às nossas casas e não nos voltarmos a ver durante uns tempos. Não é garantido o amanhã real, só o virtual. E, por isso, somos crianças de novo, bebemos, sôfregos, o mundo, como se tudo fosse novidade.

O companheirismo está lá, o carinho, o sentido de entreajuda, os castelos de amizades que se formam, pedra por pedra. No entanto, tudo é mais lento, mais ponderado. Falta o calor humano, falta aquilo que o metal e as fibras elétricas e os softwares e os hardwares não podem transmitir. No entanto, aqui continuamos. Na universidade da Covid(a). E isto é crescer. E isto é viver.

 

Fotomontagem: RG

01nov20

 

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2 Comments

  1. Anónimo

    Tenho fé que havemos de festejar o fim desta maldita.pandemia. Felicidade para o teu novo Ano Academico mas sem Covide.

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