Para quem cresceu e vive no litoral nestas últimas seis décadas, e não conheceu o vizinho distrito de Terras de Viriato, neste caso a cidade de Viseu, quando ainda funcionava a linha ferroviária do Dão e o ramal Viseu – Santa Comba Dão, com ligação a Espinho através do troço Sernada do Vouga – Viseu, da linha do Vouga.
Ambos acessos ferroviários desativados entre setembro de 1989 e janeiro de 1990. A oportunidade de visitar a cidade de Viseu, que trás à memória gente vareira que subia e rasgava as serras de comboio, para durante os dias da Feira de São Mateus obterem alguns rendimentos suplementares, vendendo por exemplo, enguias fritas em escabeche, cujo método culinário de tempero, facilitava a sua conservação durante vários dias em que estas famílias também se acomodavam por entre as tendas dos feirantes.
Uma vivência social, económica e humana, de que restam memórias, como as ligações de comboio que o tempo apagou, deixando como alternativa as vias rápidas rodoviárias. Visitar Viseu mesmo por um só dia, foi nestas circunstâncias um sonho realizado.
José Lopes
(texto e fotos)
Sem comboio, nas linhas encerradas (deram lugar à maior ciclovia/ecopista do país, com 49 Km, entre Viseu e a estação de Santa Comba Dão) por falta de passageiros, como habitual argumento para desmantelar ramais e troços ferroviários, traçados por entre serras e vales, com paisagens naturais de rara beleza que as novas vias rodoviárias em troços de linha reta, reduzem a variedade de paisagens aos olhos dos viajantes, ainda que mais rápido cheguem a cidades do interior ou do coração do Centro do país, como Viseu com todo o seu património histórico e cultural.
O objetivo pessoal foi chegar a terra nunca visitada pelas diferentes gerações familiares. E esse foi alcançado entre Ovar e Viseu numa viagem de automóvel, que ao fim de várias décadas proporcionou tal programa de um dia, mesmo sem roteiro organizado, que uma qualquer pesquisa na internet facilitaria para orientação de percursos segundo o tema de visita que reunisse o consenso familiar.
A opção foi mesmo deambular pela cidade sem roteiro e sem procura de dicas na net. Rapidamente se partiu à descoberta da cidade do interior até ali apenas imaginada fisicamente, com a sua malha urbana entrelaçada por elementos que restam da muralha medieval, do século XV, como são os exemplos da Porta dos Cavaleiros e a Porta do Soar. Sinais da muralha mandada construir por D. João I que seria concluída no reinado de D. Afonso V, que vão servindo de guia e referência a quem ali chega de forma intuitiva, para registar rápidas memórias, que acabam por se limitar ao miolo urbano da cidade, deixando para uma viagem devidamente planeada, o seu aprofundamento histórico e cultural.
Com tais limitações, ficaram por visitar e conhecer locais e espaços museológicos e património arquitetónico e religioso, como roteiros culturais proporcionados pelo município local, a exemplo da Catedral de Santa Maria de Viseu (Sé), a Igreja da Misericórdia ou o Museu Nacional Grão Vasco. A opção foi calcorrear o núcleo histórico envolvente, desperdiçando assim a oportunidade de contemplar, desde logo no interior da Sé (século XVII), o claustro em dois andares, em que se encontra uma porta da Catedral romântica, redescoberta no início do século XX, ou o teto abobadado da Catedral e o seu coro-alto. Bem como visitar o Tesouro da Sé, em que se exibem esculturas, relicários e outros objetos valiosos. Já na Igreja da Misericórdia, datada do século XVI, reedificada em 1775.
Sendo o Rossio o centro do movimento da cidade de Viseu, foi ali que se iniciou a visita familiar, e ali terminaria na procura dos famosos “viriatos”, representativos da doçaria das terras de Viriato. O doce “Viriato”, composto por ovos, coco e recheado de creme. Um bolo tradicional de Viseu que terá surgido em 1955 e acabou, na sua procura ao fim do dia, por fazer voltar ao Rossio para o deliciar e rever o centro da cidade com a diferente luminosidade da manhã, refletida no colorido natural do seu jardim e num conjunto de painéis de azulejo, em que estão retratados elementos da vida quotidiana da região.
Esta viagem a Viseu foi ainda uma oportunidade para conhecer o espaço ao longo das margens do rio Pavia em que anualmente se realiza a secular Feira de São Mateus. Uma área pública em que se situa o monumento a Viriato em grandes dimensões, integrado num perímetro considerável em forma octogonal, designado a “Cava do Viriato” que constituía uma forma de estrutura defensiva, através de um conjunto de taludes em terra e fossos exteriores, cuja origem divide estudiosos pela época romana e muçulmana. Um perímetro que se tornou um passeio público no século XIX e se mantem após uma requalificação deste património histórico.
Passear pelas ruas e zonas envolventes, estranhamente num sábado sem grande movimento de pessoas, cuja responsabilidade cívica do uso da mascara mesmo na via pública, não permitia aliviar as medidas de prevenção e higienização face à covid-19. Era só por si sinal de significativa contenção na movimentação de pessoas e turistas na cidade, em que o comércio igualmente refletia algum confinamento, mesmo do “funicular” parado, que seria certamente sequência de um acentuado agravamento da pandemia que as noticias nos fazem despertar para a própria realidade, também em terras de Viriato.
Com todos os naturais condicionamentos a considerar nestes difíceis tempos, um “saltinho” à cidade de Viseu foi irresistível, sobretudo por despertar ainda mais curiosidade sobre um território com tão rico património cultural para descobrir e visitar. Mesmo quando os pontos de referência, são um monumento dos tempos medievais ou um mural do festival de “street art” em que participam vários artistas portugueses e estrangeiros, acolhido nesta cidade desde 2015.
Não fosse toda a paisagem natural envolvente da cidade um valioso património ambiental, Viseu oferece ainda extraordinários jardins e espaços verdes, destacando-se a Mata do Fontelo que inclui um projeto de investigação, que visa salvaguardar e valorizar a Mata. Um projeto que continua com equipas no terreno a desenvolver estudos que permitam uma reabilitação cuidada deste património.
O interesse para um dia voltar a Viseu, não no comboio que não parece sair do projeto que propunha um corredor ferroviário entre Aveiro, Viseu, Salamanca. Mas numa futura oportunidade de nova boleia familiar ou de excursão, como os roteiros de viagens proporcionados pelo Etc e Tal jornal, para visitar a Catedral de Santa Maria de Viseu (Sé), Igreja da Misericórdia, Casa do Miradouro, Museu Nacional Grão Vasco, Museu Almeida Moreira, Casa da Ribeira, Solar do Vinho do Dão, Museu Etnográfico Casa da Lavoura e Oficina do Linho ou ainda o Museu do Quartzo, que faz parte do Roteiro das Minas e Pontos de interesse Mineiro e Geológico de Portugal, que se localiza no Monte de Santa Luzia, em que o quartzo foi extraído entre 1961 e 1986. Curiosidades que exigiam mais do que um “saltinho” a Viseu.
01nov20



























