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A Vacina da Esperança

Ricardo Guerra

 

Álvaro de Campos escreveu um dia que “O que há em mim é sobretudo cansaço”. É certo que este heterónimo de Pessoa era excêntrico nas suas sensações, vivia a vida à flor da pele. No entanto, hoje, vestido de máscara e despido da sanidade, da humanidade e da normalidade, o mundo grita este verso em uníssono. Afinal, quem não se torna poeta quando o prendem as trevas do abismo?

Estamos todos cansados. Fartos do inimigo invisível e das notícias (tanto das absurdas e falsas, como das ainda mais absurdas mas verdadeiras). Fartos do confinamento, dos muros, das estatísticas e dos gráficos. Do desemprego, do desassossego, do turbilhão, da exaustão. E, como a História se repete sem cessar, é por entre este moribundo cansaço que surge a loucura, a revolta… Nos últimos dias, manifestações de negacionistas têm assoberbado as chorosas ruas do nosso país. Massas de médicos, jornalistas e advogados que, sem proteção nem noção, se rebelam contra os factos e arriscam a vida numa guerra pela “verdade”, a sua verdade. Empunham a espada da desinformação e um escudo de falácias, numa batalha sem fim contra o progresso.

No entanto, eles, no fundo, representam o expoente máximo do desespero, da fome de vida, da falta de esperança, do desejo utópico de que a paz pouse de novo nos nossos lares e nas nossas ruas. Eles representam o grito contido, a ave que não voa e cujas asas morrem enquanto mira o sol pela janela. Contudo se, nas notícias, despontam razões que justificam esta miséria, nos últimos dias têm brotado, nos ecrãs, jardins de esperança. Há múltiplas vacinas a caminho, uma delas com 95% de eficácia, algo inédito em muitas outras já existentes (como, por exemplo, a vacina da gripe, que atinge apenas os 45% neste campo).

Por um lado, e porque os factos são inegáveis, a solução não se revelará para já. A vacina não se encontra ainda concluída, ou seja, é ainda possível verificar-se problemas que inviabilizem a sua administração. Por outro lado, os conflitos de interesses diplomáticos e monetários que regulam a ordem do mundo tornarão complexa a sua distribuição de modo equitativo e justo.

Não obstante, nesta vacina reside a nossa última réstia de fé, as migalhas que nos levam de regresso a casa. O elixir mágico a que nos agarramos contra as tempestades da tristeza, a almofada onde adormecemos por momentos o nosso cansaço… e sonhamos de novo com a utopia do antigo normal. Ah…! Esse normal onde era possível sorrirmos sem máscara, abraçar-nos sem medo do toque…! E é a vacina a estrada de ouro que nos levará de volta a esse mundo.

É também inegável que, embora sejam já conhecidas as consequências a curto/médio prazo da vacina, não sabemos ainda os seus efeitos a longo prazo. No entanto, questiono: perante a realidade crescente de infeções e mortalidade em que sobrevivemos a cada dia, que consequências poderão ser assim tão negativas que a tornem inviável? O mundo desespera por auxílio e é necessário estabelecer prioridades… E a vacina é a prioridade principal neste momento.

A esperança é a última a morrer, dizem. Mas mantê-la viva está nas nossas mãos. A cada dia, passo a passo… Devemos ser nós próprios a acender a nossa estrela cadente, a plantar o nosso próprio dente de leão. E soprá-lo com a crença verdadeira de que, um dia, vai ficar tudo bem…!

 

Foto: pesquisa Google

 

01dez20

 

 

 

 

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