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Cantar os Reis já é Património Cultural Imaterial de Portugal mas a tradição não vai poder sair à rua

A noticia de que o tradicional Cantar os Reis já é Património Cultural Imaterial de Portugal, no tempo em que chegou, como resultado de uma candidatura que a Câmara Municipal de Ovar efetuou no final de 2016, é não só motivo de grande satisfação para toda uma comunidade reiseira em que se envolvem várias gerações de reiseiros, para manter bem viva esta tradição, como ainda um reconfortante reconhecimento, quando devido à pandemia e às medidas de confinamento e de segurança, as diferentes Troupes de Reis não podem sair à rua com os seus programas de saídas e calor humano que as carateriza, para levar letras e músicas originais durante os primeiros dias do ano até à Noite de Reis, a casas de famílias, cafés, restaurantes, coletividades ou instituições.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Publicado no Diário da República n.º 228/2020, Série II de 2020-11-23 (Anúncio n.º 265/2020), o característico Cantar os Reis como Património Cultural Imaterial de Portugal, mereceu de imediato uma nota do Município de Ovar, através do seu presidente Salvador Malheiro, que manifestou grande satisfação por, finalmente, ver a candidatura aprovada, revelando que “É um dia muito feliz para Ovar, que vê uma das suas principais tradições inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial”, acrescentando, “é tradição que vamos continuar a promover e a divulgar. Apesar do atual contexto de Pandemia, que não nos permitirá celebrar o Cantar dos Reis 2021 como desejaríamos”.

Recorde-se que a candidatura agora aprovada, tinha sido submetida no final de 2016, baseada nas especificidades desta tradição de Ovar, que, ainda que partilhando algumas características com outras práticas em Portugal e na Europa, designadas de “Cantar os Reis” ou “Cantar as Janeiras”. No caso concreto de Ovar este património cultural consolidou-se de forma diferenciadora ao longo dos anos, ao nível artístico e social, adquirindo um cunho cultural muito próprio, e sofisticado ao nível da composição musical e poética.

O parecer favorável da Direção Regional de Cultura do Centro, para aprovar a inscrever o «Cantar dos Reis em Ovar» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, resulta do cumprimento dos “critérios relativos à importância da manifestação do património cultural imaterial enquanto reflexo da identidade da comunidade em que esta tradição se originou e se pratica e a produção e reprodução efetivas que caracterizam esta manifestação do património cultural na atualidade, traduzida em práticas transmitidas intergeracionalmente no âmbito da comunidade de Ovar, com recurso privilegiado à oralidade e envolvimento empírico” (Diário da República).

Foi assim finalmente reconhecido um dos patrimónios culturais mais genuínos das tradições de Ovar, como a história do Cantar os Reis e a tradição das Troupes de Reis, reunidas no processo de candidatura, que a pandemia acabaria por impedir também, que o Padre Manuel Pires Bastos estivesse com o seu espirito reiseiro entre os vivos, nestes momentos de reconhecimento da secular caminhada da tradição, para na sua habitual e veterana atividade reiseira, participar entusiasticamente na poesia e nos acordes musicais, particularmente dedicado à Trupe da JOC-LOC como uma das referências deste património de um povo.

“A tradição das Troupes de Reis remonta aos finais do século XIX. Tinha inicialmente alguma semelhança com as «Janeiras» que têm lugar um pouco por todo o país, mas adquiriu características próprias e originais em Ovar. Em 1893, com o especial patrocínio de João Alves Cerqueira, um conceituado comerciante da praça vareira de então, nasceu a primeira Troupe – a dos “Reis dos Alves” ou “Troupe dos Velhos” e logo outras começaram a surgir”.

“O Cantar os Reis em Ovar distingue-se dos restantes pelo facto de, apesar de serem imbuídas de um saudável amadorismo e surgidas de forma espontânea, as Troupes vareiras exigem de si mesmas o mínimo de qualidade interpretativa e melodiosa.

Desta forma, as exibições são minuciosas e antecipadamente ensaiadas; o leque de instrumentos tocado é muito variado e inclui o violão, o bandolim, o banjolim, a bandola e até o violino; o desempenho vocal é muito importante e manifesta-se em belas exibições de solistas e coros; as toadas, em jeito de balada, têm letras inéditas e músicas inéditas ou adaptadas. Destaque ainda para a estrutura do Cantar dos Reis, que é constituído tradicionalmente por três trechos:

A Saudação onde é louvada a Noite Santa dos Reis e são saudados os presentes; A Mensagem onde se celebra o nascimento de Jesus e os seus ensinamentos; e O Agradecimento, em tom bastante mais ligeiro, no qual são pedidas as ofertas habituais e é agradecida a hospitalidade”.

O verdadeiro espirito reiseiro nas noites frias de janeiro é o oposto do exigido distanciamento físico e restantes medidas de segurança contra a pandemia e a Covid-19. Cantar os Reis é cantar de viva voz e em coro no calor da confraternização que se vive em cada Troupe, das mais tradicionais, a todas as que se afirmam e contribuem igualmente para o enriquecimento, valorização e preservação desta tradição, que em 2021 não se vai partilhar.

No entanto e como referiu o presidente da Câmara Municipal de Ovar ainda a propósito da inscrição do “Cantar os Reis” como Património Cultural Imaterial de Portugal, o vasto programa que está a decorrer de novembro a abril, para assinalar os 150 anos do nascimento de António Dias Simões, “um dos arautos desta tradição”, que como afirmou o autarca, nestas condições de confinamento, esta é, “uma iniciativa que será agora engrandecida”, referindo aos 150 anos do Nascimento de António Dias Simões e à consagração da candidatura que acabou por ser aprovada exatamente nesta altura, mantendo viva a tradição que não poderá ser assumida pelas Troupes de Reis e seus reiseiros de diferentes gerações.

150 ANOS DO NASCIMENTO DE ANTÓNIO DIAS SIMÕES

Sobre o programa comemorativo dos 150 anos do nascimento de António Dias Simões, uma efeméride, que se desenrolará até 3 de abril de 2021. Haverá vários eventos e momentos culturais alusivos à obra deste arauto da tradição do Cantar dos Reis. Uma das figuras mais carismáticas da arte e cultura vareiras, a qual será agora relembrada e homenageada, também como historiador, poeta, dramaturgo, comediógrafo, pintor, miniaturista e calígrafo.

A investigação e conceção do projeto “150 Anos do Nascimento de António Dias Simões 1870 – 2020”, é de Fernando Frazão.

O programa inclui o Projeto Trupe de Reis António Dias Simões e investigação, desenvolvimento do processo criativo, ensaios e produção do espetáculo Trupe de Reis António Dias Simões, que pretende dar a conhecer letras e músicas da autoria de António Dias Simões.

Destaca-se ainda a Exposição 150 Anos do Nascimento de António Dias Simões 1870 – 2020, que abriu ao público no Museu Júlio Dinis e encerra a 3 de abril, tendo visita orientada com Fernando Frazão.

Será ainda apresentado o livro da autoria de João Silva e Costa, “O Cantar os Reis em Ovar”, que vai ter lugar no CAO a 18 de março

 

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