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60 anos do Museu de Ovar: Manuel Silva, fundador ainda vivo, gostava de ver realizado o sonho de um novo edifício…

Para assinalar o 60.º aniversário da fundação do Museu de Ovar (8 de janeiro), foi escolhida a figura e a obra da artista vareira, pintora e ceramista Beatriz Campos, que também desenvolveu atividades em cargos nos órgãos sociais desta Instituição, tal como já se tinha dedicado o seu marido António Coentro de Pinho, a quem deixou um significativo lote de obras de arte, da pintura à cerâmica, que fazem parte do seu acervo e que agora, voltam a ser mostradas através de uma exposição que vai ser inaugurada no dia 16 de janeiro, no âmbito dos 60 anos do Museu de Ovar.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Entre fundadores apaixonados pela ideia de dotar Ovar de um Museu, destacam-se, o autêntico pioneiro José Augusto de Almeida, sempre acompanhado por António Carvalho e Manuel Silva, este último, o único fundador ainda vivo, que partilhou, em colaboração com Manuel Almeida Brandão, as suas memórias no livro “Museu de Ovar – como nasceu e cresceu” a propósito dos 50 anos e publicado a quando do 56.º aniversário em 2017, e nos partilhou nestes últimos dias de 2020, o desejo de ainda poder ver realizado o sonho de um novo edifício, sede do Museu de Ovar.

JOSÉ AUGUSTO DE ALMEIDA, FUNDADOR E PRIMEIRO DIRETOR DO MUSEU DE OVAR

Tudo começou quando através do “Grupo 66 de Escutas de Ovar”, José Augusto de Almeida assumiu concretizar a ideia de realizar uma exposição permanente, que veio a abrir no dia 10 de janeiro de 1959 e foi o embrião para a angariação dos mais diversos objetos oferecidos, com destaque na etnografia regional ou coleções, como 50 peças de arte africana oferecidas, como refere Manuel Silva, “pelo senhor Manuel Coelho da Silva”. Iniciavam-se também as doações de obras de arte de vários artistas ainda à exposição que representaria uma autêntica pedrada no charco na oferta cultural na época.

A exposição tornou-se foco de atenção ao ponto de nesse ano, “em junho os escutas receberam uma carta do Duque de Bragança (respondendo a um pedido), dizendo: «Encarrega-me Sua Alteza Real o Duque de Bragança de informar V.Exª que para a exposição permanente do Corpo Nacional de Escutas – Grupo 66 – já foi escolhida uma peça de prata que presentemente está a ser estudada por um dos nossos mais eminentes eruditos. Sua Alteza Real não só honrará o Corpo Nacional de Escutas com esta oferta para a sua exposição como mandou obter uma científica nota descritiva para acompanhar o envio». (Esta peça é um tinteiro de viagem que foi utilizado pelos Reis D. Carlos e D. Manuel II)”, descreve Manuel Silva.

Mas o futuro espólio do Museu de Ovar também ganharia significativa importância durante a referida exposição do Corpo de Escutas liderado por José Augusto de Almeida, já na altura com o apoio de Jorge Carvalho e o Padre Torres, em que pintores de renome ofereciam obras suas, referindo este fundador que nos dá o privilégio de ainda partilharmos as suas memórias, que, “entretanto continuavam a chegar mais quadros a óleo de Armando Andrade, Marina Recarey, Olíva de Barros e a sala já começava a ser pequena”, a que se juntaram ainda os artistas, Margarida Tamegão que deixara dois quadros, Narciso Morais, Maria Joana Barbieri, Paulo Gama e vários outros, como, Moreira Azevedo, João Semedo Correia ou Alberto Gonçalves Cavaleiro, Lucília Alberto Assunção, José Basalisa e Maria Fernanda Amado, Neves e Sousa, e Domingos Rebelo.

Alguns dos nomes de autores de obras de pintura que se faziam representar, valorizando a exposição na sua diversificada representatividade etnográfica e artística ali apresentada em espaços que iam sendo demasiado precários para tais obras de arte, cuja dimensão veio a exigir procura de novo espaço, que resultaria por alugar uma casa centenária na Rua Heliodoro Salgado em que se inaugurou (12/11/1959) a exposição que se veio a consolidar. Espaço da atual sede do Museu de Ovar entretanto comprada, sendo hoje um importante património da Instituição, mas continua reconhecidamente a ser insuficiente para dar verdadeira visibilidade a muitas das coleções nas diferentes artes, que fazem parte do seu espólio.

O reconhecido trabalho e empenho pessoal de José Augusto de Almeida, que viria a desempenhar durante vários anos o cargo de diretor do Museu de Ovar, foi determinante junto de muitos dos artistas pintores e ceramistas, que confiaram ao Museu várias das suas obras, tornando-se realidade o projeto de evoluir de exposição permanente do Corpo de Escutas para um Museu de Ovar.

Ideia que prevaleceu durante 1960 com a preparação para uma do futuro Museu de Ovar, em que, “o grande mestre Raul Xavier foi o artista que mais se interessou pela exposição e mais se interessou pela exposição e mais lutou para se conseguir ter, no futuro, o Museu de Ovar”, recorda Manuel Silva, que não se cansa de fazer referencias a José Augusto de Almeida e à convicção que tinham, de que, “mais obras viriam por seu intermédio de artistas seus amigos”.

BEATRIZ CAMPOS, PINTORA E CERAMISTA VAREIRA

Realizou-se assim a 8 de janeiro de 1961, data em que se comemora a fundação do Museu de Ovar), a exposição que determinou o futuro Museu de Ovar, destacando-se a presença do mundo das artes, a artista vareira Beatriz Campos, que ao longo dos anos vem merecendo mostras das suas diferentes artes, pintura ou cerâmica, e que 60 anos depois volta a ser lembrada em memória da sua dedicação a esta Instituição Museológica.

Como refere Manuel Silva, nesta exposição, “foi apreciado o valioso e artístico recheio que enchia, por completo, doze salas”, trazendo memórias de obras de artistas representados na pintura, como: Domingos Rebelo, Jaime Murteira, Varela Aldemiro, Silva Lino, Neves e Sousa, Clotilde Costa Carvalho, João Barata, Maria Fernanda Amado, Marino Guandalini, José Ferreira Basalisa, Carlos Carneiro, Aurora Pinho Libório, Fernando Galhano, Hermano Baptista, Beatriz Campos, João Marques, Rosa Rodrigues, Zé Penicheiro, A. Rodrigues Melo, José Ribeiro, Bertha Borges, Jaime Isidro, entre tantos outros. Já na escultura, são destacados nomes como: Raul Xavier, Júlio Vaz Júnior, Armando Mesquita, Arminda Almeida, Costa Mota (tio), Vasco Pereira Conceição, entre outros.

O Museu de Ovar era finalmente uma realidade, mas o mais entusiasta fundador, José Augusto de Almeida, não se dava por satisfeito. A obra de construção de um Museu em Ovar era verdadeiramente exigente para o seu enriquecimento cultural e artístico, por isso o seu empenho junto dos artistas era impressionante, e como reconhece Manuel Silva, “foi assim que ele conseguiu enriquecer o Museu de Ovar”, conseguindo obras de escultura de Leopoldo Almeida, entre outros como, Armando Mesquita, Luís Ramos Abreu e Maria Luísa Fragoso.

Ou as pinturas que chegavam de Lisboa, de Jaime Murteira, Ventura Moutinho e João Oom. Obras e objetos que a um ritmo surpreendente davam corpo e conteúdo ao espólio do Museu de Ovar nos seus primeiros anos de atividade, em que (1963), “ o Zé Augusto fez mais uma viagem ao estrangeiro a fim de visitar alguns artistas na expectativa de conseguir mais ofertas e ao mesmo tempo ver Museus, onde pudesse colher ideias para melhorar o nosso e para a possibilidade de um novo, no futuro.” Reafirma no livro, este fundador que recorda as muitas histórias do trabalho dividido pelos três elementos determinantes nesta caminhada de consolidação do Museu de Ovar.

Os anos sessenta foram de reconhecimento do próprio regime, e de instituições como Fundação Calouste Gulbenkian, tendo o seu então presidente, Azeredo Perdição, visitado o Museu de Ovar, bem como o Presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, entre tantas outras figuras públicas nacionais e personalidades locais. O Museu de Ovar era filmado pela RTP, através do realizador, Adriano Nazareth, bem como a imprensa da época (jornais e rádio). “A secção africana foi enriquecida com mais cinquenta (50) objetos, verdadeiras preciosidades de etnografia de Angola, enviados pelo Museu do Dundo (…)” (1964).

Para assinalar o 5.º aniversário em 1966, a cerimónia contou com a presença de artistas do Porto e Lisboa, incluindo Júlio Resende, Maria Luísa Fragoso e João Fragoso. Nesse mesmo ano foi inaugurada uma exposição de cerâmica de Jorge Barradas, que, “de uma só vez, ofereceu trinta e três obras, dezassete com a sua assinatura, duas com a de António Soares e as restantes, uma de cada um dos seguintes artistas:

Ana Tudela, Martinho da Fonseca, Dórdio Gomes, Estêvão Soares, Stuart Carvalhais, Martins da Costa, Martins Barata, Roque Gameiro, Manuel Bordalo Pinheiro, Leal da Câmara, Diogo de Macedo, Francisco Valuca, Artur Bual, Infante do Carmo”. Momentos extraordinário de valorização deste Museu, em que o presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Azeredo Perdigão, marcava presença, e o então presidente da Câmara Municipal de Ovar, Carlos Silva.

Eventos que contavam igualmente também com a presença de novos artistas amigos do Museu de Ovar, como Guilherme Camarinha e Augusto Sereno, destacando-se também pela significativa oferta e presença artística, o ceramista Querubim Lapa, ou o pintor José Mouga, Luís Darocha e o escultor José Rodrigues. Mestres que deram ao Museu de Ovar o privilégio de estarem representados no seu vasto espólio.

Marcantes exposições de reconhecidos mestres e artistas, bem como de jovens artistas, eram eventos a que o Museu de Ovar abria portas, ganhando ainda mais prestígio nacional e internacional de onde chegavam obras de arte, e para fora das fronteiras eram levadas exposições de reconhecido valor e património do espólio do Museu de Ovar.

Das muitas exposições temporárias individuais e coletivas, ficavam laços profundos de amizade que perduraram e perduram no tempo, sem esquecer os artistas vareiro, a exemplo de Emerenciano Rodrigues e Luís Ferreira de Matos, Dionísio Alberto Resende.

MANUEL SILVA, O ÚNICO FUNDADOR AINDA VIVO

No início dos anos setenta o regime marcelista e as suas instituições continuavam a visitar e a receber o Museu de Ovar na pessoa do seu diretor José Augusto de Almeida, de quem chegava a convicção do apoio à causa de construção de um novo edifício para sede do Museu de Ovar. Um apoio do antigo regime à construção de um sonho para afirmação cultural, que estranhamente teve um fim inglório no 25 de Abril, a que Manuel Silva se refere como, “a morte dum sonho…”. Quando o sonho era mesmo o de “ter um edifício próprio onde se pudesse expor todo o valioso espólio, com maior dignidade, nesse dia, findou.

Nesse mesmo dia o projeto definitivo, elaborado por técnicos da Junta Distrital de Aveiro, para a construção, foi entregue ao Diretor Zé Augusto, que ainda o foi levar a Lisboa”, lembra Manuel Silva. Mas Marcelo Caetano que tinha visitado duas vezes o Museu de Ovar e o tinha recebido em Lisboa, já tinha sido derrubado do poder, ironicamente para bem da cultura nacional tão amordaçada pelo regime sem liberdade de expressão e sem a democracia que verdadeiramente fez despoletar a cultura aos vários níveis de intervenção.

Aos obreiros do Museu de Ovar restou continuarem a lutar pelo seu sonho, para o qual tiveram um terreno reservado pelo último presidente de Câmara do regime derrubado, Francisco Correia de Almeida, situado na Zona Escolar, com 10.000 metros quadrados. Mas ali em democracia viria a ser construída uma Piscina Municipal.

Adiado até aos dias de hoje, o sonho de construção de um novo edifício museológico, chegou a ter vários projetos elaborados, um dos quais, bastante ambicioso em que era apresentado como “o futuro Centro Cultural de Ovar”, que, “terá pavilhões independentes para as Secções de Etnografia e Arte” (segundo um texto de Zé de Ovar publicado na Revista Reis da Joc-Loc/1970). Projetos que a Fundação Calouste Gulbenkian acabaria por chumbar como potencial financiadora, por considerar que, “era grande demais para a terra que era…” desabafou-nos nestes dias o fundador Manuel Silva, a quem perguntamos qual seria o seu desejo nesta época habitual de pedidos de desejos para o novo ano. A resposta foi rápida, ainda que sem ilusões na sua concretização. Só poderia ser, “gostava de ver realizado o sonho de um novo edifício”.

Acrescentando espaços em que ainda poderia ser construído tal sonho. O que resta do edifício do antigo Cineteatro de Ovar, “ali mesmo no centro da cidade de Ovar” ou o edifício na quinta Zagalo, situada mesmo ao lado da Casa Museu Júlio Dinis. Um sonho que chegou ao 60.º aniversário por alcançar, com o risco, como também lamenta, de se poderem perder algumas peças de diferentes coleções, como pinturas ou trajes. Preocupações de quem dedicou uma vida ao Museu de Ovar desde os seus 25 ou 26 anos e agora com 86 anos de idade para festejar amanhã (sábado dia 2), já qualquer responsabilidade diretiva, resta a esperança de que tudo o que fizeram em nome da sua terra, da arte e da cultura, não tenha sido em vão.

 

01jan21

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