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Livre comemora sete anos e “depois de Joacine, temos mais pessoas a entrar no partido que aquelas que dele saíram. Estamos em crescendo!”… revela o jovem dirigente Rui Silva

O partido “Livre” comemorou, recentemente, sete anos de existência! Como é que se encontra um partido que, em tão curto espaço de tempo, viveu uma grave crise, com o caso “Joacine”, e o facto de ter ficado sem a tão almejada representação na Assembleia da República? Em ano de Autárquicas, como é que o Livre se está a preparar para mais um desafio eleitoral? Concorrerá no município do Porto?

Perguntas e mais perguntas que serão, de seguida, prontamente, respondidas pelo jovem, de 24 anos, Rui Silva, um portuense de Massarelos, que está a tirar, na capital, o mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, e que é membro do Grupo de Coordenação Local do Núcleo Territorial do Porto do Livre.

 

José Gonçalves (texto)                Francisco Teixeira (fotos)

                                         

Já lá vão sete anos, mais precisamente, a 16 de novembro de 2013 que foi fundado o Livre, ainda que a data oficial seja a de 13 de janeiro de 2014. Seja como for, temos há sete anos um partido que marcou a esquerda em Portugal…

“Sem dúvida. A fundação do Livre, está muito ligado ao Congresso das Esquerdas Alternativas organizado em 2013, e realizado na Aula Magna da Universidade de Lisboa, por causa da Troika e dos movimentos de esquerda, aos quais estavam associados, entre outras personalidades, o Mário Soares. No fundo, estava na agenda a fragmentação da Esquerda e o impacto que o governo de Passos Coelho estava a ter em relação aos desenvolvimentos políticos e de que forma a esquerda podia ser uma alternativa de poder e de propostas programáticas.

Naquela altura o debate ideológico estava muito ligado a uma questão neoliberal, das narrativas dos portugueses viverem acima das suas possibilidades, e de sermos mais papistas que o papa em relação à Troika. De facto, a génese do Livre nasceu nessa altura!

Gostaria de salientar que, normalmente, se tem a ideia que o Livre vem de uma dissidência do Bloco de Esquerda e isso não está corretamente bem definido. O Livre tem pessoas que vieram do Bloco, mas também do PCP, do antigo MDP/CDE, com especial destaque para o, já falecido, José Manuel Tengarrinha, que se juntou ao Livre e foi um elemento muito participativo e interessante, ao nível da relação entre um partido recente com um dos pais da democracia em Portugal. Portanto houve todo este enquadramento.

Depois, há o processo mais formal do Congresso que se realizou, aqui, no Porto, a 31 de janeiro e 01 de fevereiro de 2014, e foi, numa fase já posterior, que as pessoas viram que da parte do Bloco de Esquerda não havia um interesse tão grande para haver abertura à esquerda, pois estava mais numa estratégia de protesto em relação ao PS, e interessaram-se pelo Livre…”

Depois aparece o Tempo de Avançar…

“Sim, mas antes disso, a questão é que o Livre foi formalmente constituído em meados de 2013; foi aceite em início de 2014, e já a pensar nas eleições Europeias desse ano. Todo o processo estava a ter essa dinâmica, em grande parte, devido a Rui Tavares, que tinha sido eleito, nas listas do Bloco, em 2009, às Europeia, e havia o interesse em que a esquerda fosse diferente, mais europeia, mais construtiva, mais verde.

Em 2014 o Livre foi, então, sozinho às eleições Europeias – também foi as primeiras eleições em que eu participei, isto um dia depois de ter feito 18 anos, e votei pela primeira vez, e de consciência, no Livre. Livre que, nesse ato eleitoral, como partido emergente, teve o melhor resultado de sempre em Portugal nas Europeias, que têm sempre a particularidade de não serem tão centrais, tão participadas. O assunto a que se referem não é tão discutido como acontece com outros escrutínios, e, assim, foi uma dinâmica muito interessante.

Então, em 2015, o Livre tem conversações com o movimento Tempo de Avançar. Esse sim, com mais ligações a dissidentes do Bloco, casos de Ana Drago e o Daniel Oliveira. Aí, o Livre foi parceiro formal e o Tempo de Avançar associado, para as eleições Legislativas. Mas, não conseguimos eleger um deputado! Estivemos próximos de atingir esse objetivo, mas os cerca de 40 mil votos não chegaram para tal. Acho, contudo, que foi significativo para o que aconteceu, mais tarde, com a convergência à esquerda. Houve, no fundo, uma pressão para o Bloco e para o PS, e uma motivação eleitoral essencial, para o eleitorado de esquerda, se unir permitindo que, depois, houvessem as conversações que levaram à Geringonça”.

A JOACINE ERA PARTE INTEGRANTE DO LIVRE, O MAIS ESTRANHO FOI A SUA PERCEÇÃO NÃO SER TÃO COERENTE COM A LINHA DO PARTIDO

Livre que consegue mais tarde o objetivo de chegar à Assembleia da República e, logo depois, passar por uma das maiores crises da sua curta existência. Refiro-me à eleição de Joacine Katar Moreira e às consequentes divergências, e ao afastamento desta do partido. Há dois tempos distintos: a eleição e a pós-eleição. Como é que o Livre está a reagir à crise depois da conquista do melhor resultado eleitoral de sempre?

“O momento mais tenso do Livre foi em dezembro de 2019, em que começaram a vir ao de cima as divergências, mais ao nível de fazer a política do que em relação ao programa. Ficou-se com a ideia que ao nível ideológico programático a Joacine não se enquadrava bem no Livre, o que não é verdade. O programa que ela apresentou, e que defendeu, dizia respeito às prioridades do Livre, agora, o problema é que, sendo eleita, a nossa ex-deputada demonstrou uma maneira de fazer política que é bastante dissonante com a maneira fundacional do Livre, que é um partido partilhado, que pugna, acima de tudo, pela democracia interna e isso tem implicações óbvias sobre a responsabilidade dos seus eleitos e do seu modo de atuação.

Esse facto originou a crise que sabemos, e que culminou, após um congresso muito conturbado. Esse congresso, e de uma forma transparente, está todo online, sendo de destacar a eleição de novo Grupo de Contacto e de uma Assembleia. Essa nova Assembleia, como órgão soberano ao qual lhe foi, pelo Congresso, incumbido o poder de deliberar sobre o que acontecia, e, democraticamente, sobre o caso da Joacine.

Entretanto gostaria de salientar que a Joacine era uma parte integrante do Livre, e o mais estranho foi a sua perceção não ser tão coerente com a linha do partido, do qual ela fazia parte. Ela era uma das quinze pessoas que fazia parte do Grupo de Contacto…”

O Livre parece ser muito aberto aos eleitores, dando-lhes, por assim dizer, diversas formas de poder intervir na sua vida ativa. Isso tem-se tornado positivo para a vida atual do partido?

“É positivo porque a participação no Livre não se limita só a ser apoiante ou membro. Pode participar nas Primárias Abertas e, mesmo sendo independente, pode integrar as listas do Livre e, dessa forma, concorrer e ser eleito pelo partido, o que já aconteceu com alguns casos.

Por exemplo, temos membros que são independentes ao nível de juntas de freguesia que se reveem totalmente no nosso programa, aceitam-no, e defendem-no. Ao nível da distinção entre apoiante e membro, acho que é um passo importante, porque infelizmente – mas isso é um sinal dos tempos – ao nível político, especialmente em Portugal, a política é vista como uma coisa «errada»; há uma suspeição permanente sobre os políticos, sobre a política e sobre o que, no fundo, é o empenhamento cívico, na melhor das visões.

O facto de alguém poder ser aderente e ter direitos no partido, que não são extensos como ser membro – que implica pagar quotas, e ter mais responsabilidades e deveres -, é importante para haver uma rede de pessoas que, ainda hesitantes, possam passar por uma transição que vai de aderente e depois a membro”.

AS NOSSAS INICIATIVAS, EM TERMOS DE PARTICIPAÇÃO, ESTÃO EM CRESCENDO

Mesmo depois da crise entre o Livre e a deputada Joacine, a verdade é que as mais recentes sondagens dão ao partido, praticamente, a mesma votação que a verificada nas Legislativas. Portanto, a crise não terá afetado, sobremaneira, o vosso eleitorado… Isso é um facto que pode traduzir-se no trabalho que estão a desenvolver quanto à “reimplantação”, do partido?

“São iniciativas que em termos de participação estão em crescendo. Até à pandemia, tínhamos uma dinâmica muito interessante. Por exemplo, aqui, na freguesia do Bonfim, no Porto, onde participavam cada vez mais novas pessoas… curiosas, criando-se, então, uma dinâmica muito interessante no Porto e na região. Infelizmente, e com a pandemia, essa dinâmica perdeu-se. Fizemos ainda algumas conversas online, mas não é a mesma coisa. Agora, no novo ciclo, será apostar nestas conversas, mensais, online, mas estamos convictos que, com o desconfinamento, e estando o País e a região numa situação que permita uma maior participação física, que essa dinâmica irá reaparecer.

Claro que o partido, e isso é notório, tem uma maior implantação na Área Metropolitana de Lisboa, especificamente na capital e nos municípios que lhe são circundantes. Isso, em parte, advém do facto de o núcleo fundacional, ou seja, de muita gente que criou o Livre, residir naquela área. O ideário do Livre salienta aspetos que são vistos como secundários, não tão comezinhos, e, desse modo, é mais difícil chegar às pessoas. Quando falamos da Europa e da participação política, ou quando falamos de ecologia, falamos em temas que não têm tanta aderência em Portugal.”

Mas, para a juventude esses temas já são encarados de outra maneira?!

“Desde a crise que tivemos no início do ano (2020) – com a saída da Joacine do partido, e das pessoas que se reviam na sua ação política -, temos mais pessoas a aderir que as pessoas que saíram. Estamos em crescendo! Tendo dados e conversando com novas pessoas, vemos que muita gente é de uma faixa etária mais nova e que se interessa sobre essas temáticas.

Aqui, gostaria de destacar que as temáticas da Ecologia, com a Greve Climática que aconteceu aqui no Porto; as dinâmicas, por exemplo contra o racismo, ou dos direitos feministas, são temáticas que em todo o mundo, mas também em Portugal, têm por parte das novas gerações um maior desejo para que sejam um objeto de seleção política, do que, se calhar cenários, também importantes mas mais tradicionais em Portugal, como a política vista caso a caso a nível mediático, e que depois, a longo prazo, nada traz de novo ao nível do debate e das suas consequências, que são muito superficiais e demagógicas, como debates sobre se Portugal é muito ou pouco socialista, ou se Portugal é ou não racista… isso são questões que funcionam nos media duas três semanas, mas depois não trazem resultados concretos.”

O RENDIMENTO BÁSICO INCONDICIONAL, EM PORTUGAL, É UMA IDEIA QUE TEM VINDO A AVANÇAR. PODE DIZER-SE QUE É UMA BANDEIRA DO LIVRE

O Livre situa-se na área do centro esquerda, ou está mais para a esquerda do que propriamente para o centro?

“Diria centro-esquerda-esquerda, porque, de certo modo, consegue-se perceber que o Livre, ao nível da sua ação política, possa parecer menos radical que o PCP ou o Bloco, por certo, ao nível do discurso, mas depois, ao nível de propostas, temos questões que somos mais à esquerda que se calhar alguns desses partidos.

No programa para as Legislativas, uma das nossas propostas era que o salário mínimo subisse para 900 euros; que a jornada laboral caminhasse para as trinta horas semanais; e o Rendimento Básico Incondicional que é uma proposta que, com a pandemia, tem sido muito discutida, confirmando-se não ser uma questão radical, nem algo que vá destruir a economia.

No Brasil ou nos Estados Unidos, por questões muito diversas, e por governos populistas de direita, já temos dados que nos permitem dizer que uma proposta muito parecida com a do Rendimento Básico Incondicional, tem um efeito direto para a avaliação da pobreza nas pessoas para a sua recapacitação e para saber o que podem fazer com a sua vida.

Nós, no partido, temos, felizmente, gente que trabalha diretamente e conversa sobre esta temática, nomeadamente o nosso candidato às Legislativas aqui do Porto, Jorge Pinto, que apresentou uma tese de doutoramento e trabalha com o conceito de Rendimento Básico Incondicional em Portugal, ideia que tem vindo a avançar. Pode dizer-se que essa é uma bandeira do Livre”.

Falta um protagonista na liderança do Livre?

“Esse é um debate e uma constante no Livre, porque em Portugal a política é muito baseada em personalidades. As grande mudanças ao nível ideológico e político nos grandes partidos, como o PS ou o PSD, estão em função do líder e não na sua substância política, o que mostra que há um enfoque muito personalizado, especialmente, por parte dos media. Isso coloca algumas dificuldades ao Livre, tendo a matriz de partido participado…”

O LIVRE NÃO É O RUI TAVARES, NEM O RUI TAVARES É O LIVRE

Mas, o Rui Tavares era conhecido e foi uma referência do Livre…

“Sim. O Rui Tavares, tal como eu, é membro da Assembleia do Livre. No entanto, o Rui Tavares, pela sua atividade política na opinião pública, de historiador, comunicador, de colunista, tem muito maior preponderância do que outras pessoas no Livre. No entanto, isso não quer dizer que o Livre seja o Rui Tavares e o Rui Tavares seja o Livre. O Rui Tavares, em grande parte, publicitou o programa do Livre, e fez com que várias pessoas se juntassem ao partido, incluindo eu. Foi através da leitura das colunas do Rui Tavares, dos seus livros, do que fala, que eu despertei para esta área política do eco-socialismo, que é, no fundo, uma esquerda verde europeia.

Ainda em relação às personalidades, a nossa Direção tem quinze pessoas, todas ao nível do voluntário. O facto de nenhum deles ter sido eleito para a Assembleia da República causou-nos um problema ao nível de como é que a nossa comunicação política funciona. Neste último ano, temos vindo a debater bastante essa questão, e o que temos pensado e feito, é que pessoas que estejam disponíveis participem mais no espaço público, e que essas novas caras sejam dadas na relação com os media…”

Mas, há no Livre pessoas que são conhecidas do grande público…como por exemplo o Ricardo Sá Fernandes…

“Ele é membro do Conselho de Jurisdição”.

ESTAMOS ABERTOS AO DIÁLOGO EM TODO O PAÍS

Este será um ano (2021) de Eleições Autárquicas. No Porto, o Livre tem um eleitorado residual…

“… Depende. No Porto concelho, talvez, mas em Felgueiras – que faz parte da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa – o presidente eleito conseguiu-o através de uma coligação do PS com o Livre. Presidente esse com quem temos excelentes relações. E temos um deputado, Mário Gaspar na Assembleia Municipal de Felgueiras e na  Assembleia Intermunicipal…”

Essa abertura, como a que acontece com o PS, é para manter?

“Estamos a refletir internamente. Temos grupos de trabalho para preparar o programa para as Autárquicas, e as linhas-mestras da atuação política do Livre. A nossa política de coligações – se vamos sozinhos a alguns sítios ou não -, está a ser debatida tal como aconteceu nas anteriores Autárquicas. O Livre, por causa do seu ADN político de convergência à Esquerda, de maior participação de pessoas e grupos que não estão filiados em partidos, tem uma política de avaliação caso por caso…”

… e formaram uma coligação com o Bloco de Esquerda.

“Em Loures houve uma coligação com o Bloco, mas não conseguimos eleger qualquer candidato. Já na altura, a tónica em Loures seria contra a política de demagogia, e poder haver uma convergência à esquerda – que, neste caso, infelizmente, foi apenas com o Bloco –, de forma a criar uma alternativa democrática e de políticas que não são divisionistas, nem segregadoras”.

Podemos concluir que o Livre está aberto ao diálogo também aqui, na região do Porto?

“Em todo o País! Desde Felgueiras a Vila Nova de Foz Côa e até à Vidigueira, no Alentejo, o Livre tem a participação ao nível de alianças, e de independentes. Independentes que concorreram pelo Livre com o mesmo ideário, e, depois, tornaram-se membros do partido porque descobriram mais acerca dele e gostaram do projeto. De acordo com a nossa moção, que foi aprovada há cerca de um ano no Congresso, essa será também uma das nossas linhas para as Autárquicas, tratando-se de uma abertura para quem esteja interessado, na sua freguesia, no seu município, e de tratar questões como a ecologia, na participação democrática, e que seja próximo da área do Livre. Aí, nós teremos disponibilidade e grande apreço para que existam conversações de modo a que algo possa vir a aproximar-nos”.

Aqui, no Porto, na região, o Livre tem condições para se implantar?

“Penso que sim, porque a nossa base, desde 2017, não era muito elevada, e a partir daí começamos a crescer. Já temos alguma implantação, por exemplo em Lousada, em Felgueiras, no Porto, Matosinhos e é uma dinâmica que vai continuar. No entanto, é muito preliminar termos alguma certeza quanto à nossa presença nas eleições. Certo é que vamos concorrer, mas ao nível do que vamos fazer, ainda estamos a discutir internamente. Cada grupo de coordenação local, cada coletivo local, articular-se-á e terá a palavra final sobre o que acontecerá. Não será a Direção nacional, em Lisboa, que o decidirá. Não! Serão as pessoas que cá vivem que decidem sobre estes temas. As pessoas que fazem a análise da região onde vivem, e as suas perspetivas, saberão se há um espaço para o Livre.”

HÁ UMA RETÓRICA, A NÍVEL DA OPINÃO PÚBLICA, MUITO ANIT-PARTIDOS, MUITO POPULISTA E QUE OLHA COM MUITA SUSPEIÇÃO A PARTICIPAÇÃO NA VIDA POLÍTICA…

Para a Esquerda aparece agora um novo desafio: a extrema-direita, em crescimento nas sondagens, e que para as Autárquicas terá por certo objetivos a atingir. Isto trata-se de mais um alerta para a Esquerda se unir de modo a que os radicais de direita não vejam o seu partido crescer da forma que está a crescer?

“Primeiro, gostava de dizer que ao nível da emergência da extrema-direita em Portugal, o habitual, e isso era falado internacionalmente, era dizer-se que o nosso país era imune ao populismo da direita radical. Isso, como vemos, não aconteceu. O pronúncio, se calhar, foi em Espanha, onde a extrema-direita chegou ao poder e tem, agora, um papel muito preponderante na política de bloco de direita, devido a uma sustentação por parte do principal partido de direita, o Partido Popular, em eleições locais, na Andaluzia.

Do meu ponto de vista, já tinha a perceção de que havia uma procura muito considerável em Portugal por um partido desta génese, porque, apesar de Portugal ser sociologicamente de esquerda, há uma retórica a nível da opinião pública muito anti-partidos, muito populista, e que olha com muita suspeição a participação na vida política, a qual +é considerada como uma coisa negativa.

Daí que a procura existia; agora, finalmente, há uma oferta: um partido; uma personalidade que, ironicamente, veio de um partido de centro-direita, veio do PSD, e que fez uma spin-off. Criou o seu próprio veículo pessoal, e que está a crescer nas sondagens em grande parte por uma incoerência. e por uma não demarcação. dos principais partidos de direita.

Infelizmente, verifica-se que nada se aprendeu com o que está a acontecer em toda a Europa. O PSD, como partido fundacional do regime democrático, de centro-direita, os seus valores centrais da pessoa – propalados valores de Sá Carneiro – estão a ser completamente postos de lado por uma política tacticista de curto prazo, que, no fundo, o pode levar ao poder com o Chega, como aconteceu nos Açores. Isso terá implicações muito incisivas para as pessoas, mas também para o PSD”.

A ESQUERDA VIVE DA POLÍTICA DOS SEUS QUINTAIS E AINDA ANDA DE COSTAS VOLTADAS…

Mas, isso é a direita a pensar e é a estratégia da direita E a esquerda perante o papel desafiante da extrema-direita? Sabe-se que a esquerda, não fosse a Geringonça, e já mesmo com ela, dificilmente se une. A esquerda está pronta, desse modo, a derrubar barreiras, muros, que, entretanto, foi criando entre os partidos?

“A Esquerda ainda vive da política dos seus quintais, e ainda anda de costas voltadas, e isso, para mim, é muito notório a nível local, onde me parece que teria toda a lógica partidos como o Livre, o Bloco e o PCP, assim como outros partidos nessa área, pudessem unir esforços, fazer uma convergência com o seu caráter político intacto, mas poderem, juntos, fazerem um acordo a nível autárquico. É que, a este nível é muito difícil a um partido que mesmo que tenha dez por cento ter representação no executivo da Câmara Municipal.

Por exemplo, nas últimas eleições para a Câmara do Porto, o Bloco de Esquerda esteve quase a entrar para a vereação, o que não aconteceu por uma unha negra Esse facto, a verificar-se, faria toda a diferença, porque significaria que o movimento de Rui Moreira deixaria de ter a maioria. O simples facto de o Bloco e o PCP – o Livre, não, porque sempre foi a favor destas convergências –nunca se juntarem para haver uma plataforma comum para se representaram com uma força à esquerda do PS, ajudou a que isso fosse uma realidade”.

Mas, há consideráveis diferenças de pensar a cidade, entre o Bloco e o PCP…

“Certo, penso que são, por certo, grandes diferenças, mas são menores que as numa relação com o PSD ou com o CDS, com movimentos como o de Rui Moreira, ou até mesmo com o PS”

Houve já alianças, pós eleitorais, da CDU com o PSD aqui no Porto. A Junta do Bonfim é um exemplo…

“As dinâmicas a nível local – prova-se! – são diferentes. Infelizmente, e nestes casos, a CDU tem uma postura muito conservadora ao nível do que dever fazer. É o que vejo na atuação, deste último mandato, na Assembleia Municipal e na vereação, onde a CDU, apesar de só ter uma vereadora, não é tão incisiva, tão crítica com Rui Moreira, como o Bloco é, e seria o Livre”.

Mas, a cidade tem, ou não, vindo a evoluir?

“Houve um caminho positivo depois de Rui Rio como presidente da Câmara. Sou crítico de Rui Moreira, mas por certos aspetos, vejo que houve uma melhoria em relação a Rui Rio. No entanto, a minha linha política de como vejo a cidade, é muito diferente da de Rui Moreira. A ideia de uma cidade liberal, em que a iniciativa privada quase tem o monopólio total ao nível do urbanismo, ao nível da iniciativa e atuação no plano. Infelizmente, estamos em 2020 e a estratégia local em relação ao turismo no Centro Histórico não é consequente, não existe… temos uma zona de contenção que já nem sequer se adequa para a realidade do turismo local; as políticas de urbanismo e de regulação em relação a este setor”.

QUEM SEJA DEFICIENTE MOTOR OU SEJA SÉNIOR E TENHA DIFICULDADES DE MOBILIDADE, TEM UMA VIDA MUITO DIFÍCIL NO PORTO…

Todavia, houve – e refiro-me a factos –  obras em bairros sociais; a questão ambiental começou a ter relevância ao nível dos transportes…

“Certo! Mas, na questão dos transportes, esses factos são, mesmo assim, passos muito pequenos. O Porto está cerca de 20 a 30 anos atrás de uma Barcelona ou de uma Madrid, e não estamos de falar de um país que, supostamente, seja super avançado. Mas, Barcelona, que é a segunda maior cidade de Espanha, conseguiu que a política de mobilidade desse privilégios às pessoas que não têm o seu veículo pessoal. Deu privilégio à mobilidade suave, com as bicicletas, com o peão, com o transporte público.

Na Câmara do Porto ainda vemos que há muito medo, por exemplo, dar exclusividade aos peões em ruas que são do século XIX,  e onde o estacionamento abusivo é atentatório, para quem por lá passa e para os seus habitantes. Alguém que tenha um filho numa cadeira de rodas; alguém que seja deficiente motor; alguém que seja sénior e tenha dificuldade de mobilidade, tem uma vida muito difícil no Porto devido ao estacionamento abusivo, da qualidade do pavimento… do mobiliário urbano. Essas políticas têm de mudar radicalmente!

Incentivar a que haja ciclovias usáveis e seguras na cidade, e arruamentos que, tendencionalmente, privilegiem velocidades inferiores a 30 quilómetros por hora, caso contrário, temos índices de mortalidade pedonal preocupantes. Se uma ciclovia for bem feita, os ciclistas não querem sair de lá. Agora, se ela só tiver um traço no chão, e depois estar um carro estacionado, o ciclista vê-se obrigado, por se sentir mais seguro, a dela sair.

Na política de mobilidade, onde temos de apostar mais é no transporte público, nos autocarros, nos elétricos, e temos aí o projeto do grupo de Ação para a Reabilitação do Ramal de Alfândega – GARRA – que tenho acompanhado – que é muito interessante e meritório ao nível do empenhamento cívico, que não tem a ver com os partidos, mas que pode propalar e incentiva a que estes se pronunciem sobre esta questão. Entretanto, a Câmara por algum motivo, e não se percebe muito bem, tem uma fixação que pode fazer uma ciclovia naquele troço entre a Alfândega e Campanhã, que especialistas disseram já que não é viável, e que seria melhor servido por elétrico, por exemplo”.

EM PORTUGAL NÃO HÁ POLÍTICAS PÚBLICAS PARTICIPADAS E PENSADAS A LONGO PRAZO

E qualquer projeto que for implementado na Linha da Alfândega não será a título definitivo…

“O problema das questões temporárias, de curto prazo, são, em Portugal, a longo prazo. Temos o caso do ramal da Linha do Tâmega para Amarante, que foi encerrada em 2009 para ser renovada e, até hoje, ainda nada foi feito. São somente dez quilómetros até Amarante, e teríamos uma ligação segura, turística, e de apoio à população, que foi posta na gaveta porque em Portugal não há políticas públicas participadas e pensadas a longo prazo.

Relativamente às propostas de expansão do Metro do Porto, penso que rompem com o plano que existia anteriormente e que, infelizmente, é mais uma política ao nível do Governo do PS de atender às capelinhas de câmaras do PS”.

O Ambiente é algo de importante, mas só, recentemente, é que entra no discurso e ação das autarquias…

“A questão ambiental durante muitos anos foi vista, em Portugal, como um assunto para uma elite, e que não tinha implicações práticas na vida, mas, a verdade, é que tem. Ao nível da pandemia, por exemplo, temos estudos que se uma cidade tiver os melhores índices de ar, a incidência do coronavírus é muito menos problemática para os e resultados de infeções”.

O Livre defende ribeiras a céu aberto, e áreas envolventes devidamente tratadas …

“…Sim. E é contra a impermeabilização dos solos. O Porto parece ter uma negação de que cá chove e isso é notório em relação aos segmentos a céu-aberto do Metro, em que as estações estão completamente desatualizadas de acordo com a atualidade climática do Porto, e que vai piorar”.

“É ATERRADOR QUE PARA PARTICIPAR NUMA ASSEMBLEIA MUNICIPAL (PORTO) TER IR NO DIA (…) AO GABINETE DO MUNICÍPE ASSINAR UM PAPEL PARA ESTAR PRESENTE E DEPOIS, LÁ, NÃO PODER FAZER PERGUNTAS…”

Foto: Arquivo – Miguel Nogueira (Porto.)

Além do Ambiente, quais outras linhas políticas do Livre há a realçar, tendo em vista a cidade do Porto?

“A participação! Qualquer cidadão pode participar na política pública na sua cidade. Isso é fulcral. Para dar um exemplo, é aterrador que, na segunda maior cidade do País, e numa vereação que se diz muito participativa e de inovação, para participar numa Assembleia Municipal, ter de ir, no dia, até às cinco da tarde, ao Gabinete do Munícipe, presencialmente, assinar um papel, para poder lá estar presente e, depois, uma vez lá, nem poder fazer perguntas. Isto é de loucos! Depois, a sessão não está prontamente disponibilizada em direto na internet, que é uma medida óbvia no século XX.

Em Lisboa, a Assembleia Municipal tem desenvolvido um papel muito meritório a nível da disponibilização de documentação, de debates, de participação, que podia ser muito facilmente replicada no Porto. Mas, o Porto parece estar sempre em guerrinhas de egos com Lisboa, enquanto poderia aprender alguns exemplos para fazer cumprir a democracia.

Ainda relativamente às propostas do Livre, temos no nosso programa as Assembleias de Cidadãos. Trata-se de um modelo que, através de uma amostragem representativa da população de um bairro, de uma freguesia, de um concelho e de uma região, as pessoas poderem deliberar internamente – de uma forma participativa, consultando especialistas, osculando os diferentes partidos – propostas e refletir sobre o que deve ser a cidade. Este seria um órgão interessante no Porto, ou no país, para quebrar um pouco com o monopólio dos partidos que, depois, no fundo, se fecham”.

A base, a dinâmica, do Livre, no Porto, está na juventude?

“Ao nível de novos aderentes, sim. Mas temos pessoas de todas as idades. Tenho camaradas que são de meia-idade…”

E que esperam, por certo, que o Livre concorra à Câmara do Porto

“É uma das hipóteses que está na mesa. Ainda não temos certezas, temos que fazer as nossas análises com toda a gente. Depende da nossa análise política da situação; se há viabilidade, ou não. Se podemos concentrar esforços em outras áreas, porque o Livre, apesar de tudo, é um partido pequeno, com recursos limitados, e assim tem de fazer uma boa gestão.”

Estar fora e ativo é importante, mas concorrer, e estar dentro e presente, não é mais…?

“É importante, mas tudo depende da nossa análise. Eu acho mais lógico participar nas Autárquicas, em Felgueiras, ou num concelho, município ou freguesia em que a nossa ação politica seja mais eficaz, que num computo em que não tenhamos recursos suficientes para que tal aconteça.

Agora, o cenário de coligações, ou de acordos, poderá facilitar, em muito, esse aspeto. Mas, ainda vamos fazer um apelo a quem queira participar, depois haverá, obviamente, uma seriação. O Livre não é propriamente uma barriga de aluguer. Mas, há esse risco tendo em conta a maneira como se faz a política.

Na sequência do processo com a Joacine, houve um grupo de trabalho que refletiu e propôs alterações que depois se efetuaram ao nível das Primárias, e de como é que funciona a democracia interna, ou seja: se primeiro se faz um programa e depois se faz as Primárias, ou o contrário”.

Aprende-se muito com o, e no, Livre?

“Sim, sem dúvida! Depende da perspetiva da pessoa quanto ao partido e por que razão dele quer fazer parte. Há casos de pessoas que veem num partido toda a dinâmica de promoção pessoal, ou profissional. Acho que neste aspeto, o Livre é muito diferente, pelo facto de ser participado. Eu, para ter alguma posição, tenho de participar a sério, tenho de ter ideias”.

O «VOLT» NÃO É UM CONCORRENTE DIRETO DO LIVRE

E o Livre é um partido europeísta?

“Sim.”

Tendo em conta esse facto, e porque a anterior pergunta não era inocente, surgiu, há pouco tempo, o Volt, que também se diz europeísta. É este novo partido um concorrente direto do Livre?

“Diria que não. O espaço de europeísmo em Portugal é que, se calhar, estava muito reduzido.

Este – o europeísmo – era um tema que não era tão saliente, mas como estamos a ter um debate enorme sobre a questão da «bazuca», e de um debate a sério sobre o Estado de Direito em países, como a Polónia e a Hungria, já o é. Estes são assuntos que têm implicações próprias para o Livre, e aí o Rui Tavares teve um papel muito meritório, provando-se, desde o Verão, altura em que ele teve uma troca de opiniões com o primeiro-ministro sobre a posição portuguesa, revelou-se que a sua posição tinha lógica, porque se empurrarmos esse problema com a barriga, nessas temáticas cairemos sempre mais tarde.

Sobre o Volt, da maneira como o vejo, é europeísta, mas a nível ideológico não tem muito, além disso mesmo… do europeísmo, e de um federalismo politico. Nós, no Livre, somos europeístas mas críticos. Quando falamos em Europa queramo-la mais responsiva, mais democrática, muito mais social que esta, e no Volt vejo que o europeísmo deveria ser mais crítico. Nas últimas Eleições Europeias, tirando o Livre e a Iniciativa Liberal, mais ninguém falou em concreto da Europa. Reportou-se e limitou-se a temática a casos”.

Em Portugal é cada vez mais notória essa, digamos que. “política de casos”! Isso vai mudar?

“A nível geracional haverá uma mudança, pois como já falamos, há uma maior mobilização, fora dos partidos, sobre temas e isso leva a que, quando se fala num debate, ou numa campanha, quando falamos sobre ecologismo, queremos falar sobre ecologismo e não se este ou aquele candidato porque seu irmão não sei quê teve um caso, que não interessa a muita gente, tirando uma elite mediática…”

“A MINHA GERAÇÃO TEM DE PERCEBER QUE NÃO PODE SER SÓ ATIVA PELO FACEBOOK”

Podemos acreditar na geração do Rui Silva?

“Acho que sim, mas a minha geração tem de perceber que não pode ser só ativa pelo Facebook, online, não pode ser um ativismo em questões pontuais, porque se queremos mudar o mundo teremos de atuar, reformar e revolucionar…”

A rua não existe?

“A rua online existe muito, e felizmente que, em Portugal, e com os protestos que vimos, a rua online acaba por ter expressão na rua a sério. Agora, se alguém quer mudar o mundo tem de juntar-se a outras pessoas. Nós não somos uma «ilha» fazemos parte de um coletivo”.

Mas, a vossa juventude conhece mais o mundo, há um valoroso contacto intercultural a ter em conta…

“O facto, por exemplo, de no Porto termos muitas pessoas Erasmus é interessantíssimo pela dinamização cultural que isso provoca. Há associação interessantes de pessoas que vieram cá para estudar e por cá ficaram a viver; são imigrantes que nos ajudam à troca de conhecimentos. As coisas boas dos outros países também podem ser implantadas cá. Um dos modus operandi que tenho no Livre é ver o que funciona de bom lá fora para vir a ser implementado no País.

Entretanto, a participação no cooperativismo é importante. Ou seja em algo que representa o verdeiro socialismo, de modo as pessoas deterem os meios para poderem construir o que querem e isso, ao nível do Porto, seria interessante fomentar as cooperativas de Habitação e de construção, com uma política municipal direcionada para essa área com o objetivo de combater a especulação e podermos incentivar o rendimento acessível… a dinâmica económica não precisa de ser sempre entre o público e o privado…”

E para finalizar…

“Reforçava que nos próximos tempos, haverá uma nova abertura, no Livre para que quem esteja no território e queira-se articular com o Livre ao nível das Autárquicas, que se prepare, que se reveja nos ideias no Livre que pode esperar por esse momento, depois isso terá uma faceta de Primárias como é costume”.

 

 

NotaEsta Entrevista foi realizada no passado dia 22 de dezembro, no “Pão com Recheio” – café, confeitaria e restaurante – à Rua de António Carneiro, no Porto, junto à PSP.

 

 

01jan21

 

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