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Moinho das Lages continua à margem da beleza paisagística do Parque Urbano de Ovar

Ao longo de décadas de abandono dos terrenos situados no vale das margens do Rio Cáster em pleno coração da cidade de Ovar, em que se destacava o conjunto de elementos arquitetónicos que dão corpo ao Moinho das Lages, pelo seu simbolismo representativo de uma atividade de particular importância social e económica, como eram os moleiros e toda a sua história na região, com já muito raros exemplares de moinhos salvos de abandono e ruina. O Moinho das Lages e todo o património que representa esteve também, durante muitos anos, camuflado num cenário de abandono que acabou por se prolongar até aos dias de hoje, destacando-se agora como um património em ruinas à margem da beleza paisagística do Parque Urbano de Ovar.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Este Moinho que teve como últimos residentes, Rodrigues Onofre (Lau) e Rosa Maria Rodrigues, que davam vida à propriedade rural junto ao cruzamento de linhas de água (Rio Cáster e Rio Lage) e preservavam com paixão alguns dos elementos (peças) do equipamento de moagem que se iam degradando, mesmo durante a fase final em que ali já não se produzia a farinha de milho, através de mós movidas pela corrente da água de uma levada. Lá continua num desolador cenário de ruinas, contraditório com a evolução da consolidação na biodiversidade natural, proporcionada neste vale do Rio Cáster que deu origem ao Parque Urbano de Ovar com uma área de cerca de 7,5 ha de terrenos.

Um projeto de valorização do espaço então abandonado, mas também de estabilização das margens do Rio em que habitualmente se registavam cheias. Premissas a que correspondeu com sucesso esta obra do Arquiteto Paisagista, Sidónio Pardal, inaugurada em 2013, que devolveu à cidade um espaço lúdico de extraordinária beleza paisagística. Ao que se veio a “anexar” um outro projeto, que foi deixado pelo executivo camarário que construiu o Parque Urbano, mas que o atual executivo no seu segundo mandato, o mantem na gaveta. Um projeto de reabilitação deste Moinho em ruinas, que tem a finalidade de o transformar, num “Núcleo Temático Molinológico”, contemplando três espaços distintos, como: área expositiva dos moinhos; área expositiva «oficina das moagens»; área expositiva «ofício do pão». Ficando ainda associado um restaurante. Espaço temático molinológico que valorizaria ainda mais o Parque Urbano de Ovar, mas o tempo passa e as ruinas vão se acentuando, servindo em condições desumanas para acolhimento de cidadão sem-abrigo.

O Moinho das Lages ficou assim ao abandono, repetidamente coberto pelo matagal que invade todo o conjunto de elementos que compõem o património que se destaca lamentavelmente pelo seu atual estado de ruinas, descaraterizando a paisagem na parte norte do Parque Urbano, que assim se viu secundarizada relativamente à prioridade que foi dada na parte mais a sul, na opção pela construção de raiz de uma cafetaria e explanada, bem junto ao núcleo urbano central da cidade, em que já havia muita oferta hoteleira.

Mantem-se assim um decadente cenário de abandono que com o passar do tempo vai agravando as estruturas fundamentais do edificado a reabilitar no futuro, caso o projeto saia da gaveta. Projeto de reabilitação que irá determinar a reorganização dos espaços existentes, propondo-se tanto quanto possível, “a manutenção das características arquitetónicas do edifício, introduzindo as alterações necessárias com vista à adaptação dos espaços existentes às novas funções que agora se pretendem implementar e integrando novas tecnologias e métodos construtivos de forma a promover a sustentabilidade do edifício”, segundo o enquadramento do projeto.

A projetada e adiada intervenção no Moinho das Lages, integra-se num espaço verde que deu origem ao Parque Urbano de Ovar atravessado pelo Rio Cáster, como elemento estruturante de toda a obra paisagística do projeto de Sidónio Pardal, “concebido como um espaço livre público com relvados, maciços, percursos e elementos escultóricos intencionalmente desenhados como ruínas na tradição dos parques românticos”, como refere a memória descritiva do parque, que ironicamente continua a conviver com ruinas de um património que se quer recuperado para valorizar e dignificar a tradição dos Moinhos, mas simultaneamente o Parque Urbano de Ovar de cuja beleza das suas paisagens não pode ficar à margem.

 

01jan21

 

 

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