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O que rende…

Miguel Correia

 

Fosse esta crónica uma cena de cinema e, perante os vossos olhos, surgiria um pobre infeliz (eu) junto a um carrinho de compras, num amplo e enorme corredor central de hipermercado. O que leram (até aqui) leva um tremendo zero pela criatividade, mas – se não tiverem mais nada para fazer – podem continuar a ler.

As decorações natalícias apoderaram-se de todas as prateleiras e – enquanto receamos voltar a ouvir “Last Christmas” dos Wham – somos brindados com descontos, promoções e toda uma panóplia de preços baixos. Como se, de repente, as marcas sentissem um peso na consciência por “carregar nos preços” durante os outros onze meses do ano! O volume de trânsito, provocado pela quantidade de carrinhos a circular, faz inveja ao relatado diariamente no IC19: vindos de todo o lado e sem qualquer respeito pelos calcanhares dos que por lá circulam. A velha máxima que atribui a culpa a quem bate por trás, mas dói ao que vai à frente… Por instantes – e relembro que nem sequer saí do sítio – esta azáfama e barulho faz com que esqueça o clima pandémico. Entre a gestão do tempo e o atafulhar dos artigos não sobra margem para cuidados de higiene! Afinal, com tanta precaução, por causa do raio do vírus, retiraram a promotora que assa chouriças e oferece pedaços de queijo! Resta o desfile de marcas de whisky e chocolate a perder de vista…

Levanto a cabeça e ainda é percetível o ritmo frenético dos carrinhos encarnados porque a hora do fecho, decretada pelo Governo, aproxima-se. Estivesse ali o Eládio Clímaco e juraria estar nos Jogos Sem Fronteiras, numa prova com tempo limite. Vários participantes, um esforço conjunto, mesmo que o cesto bloqueie a passagem ou se abandonem itens a seis corredores de distância do local original. Alguém há-de arrumar! Mais um “atleta de hipermercados” passa à minha frente. Vem da secção de brinquedos, com um enorme carrinho de bombeiros. Não tem sirene ou janelas: apenas um pedaço de plástico reles e autocolantes. O que importa é o preço e, claro, o tamanho da caixa para enganar o puto. Por fim arranco e reparo que o meu carrinho (oferecido à entrada) tem as rodas presas e teima em virar à esquerda (sem qualquer conotação politica). Sou abalroado por um idoso que desloca, com alguma urgência, para o corredor dos ovos. A sua esposa, com artrite, deixou cair uma embalagem e o pobre senhor quer tratar do assunto antes que o obriguem a pagar! Esqueci de mencionar que estava na secção da charcutaria, onde se preparava para atacar no presunto, ignorando (só desta vez) as recomendações médicas e o colesterol. O tempo não pára e ainda tenho de completar a minha lista de compras. Se, por acaso, deixarem de publicar as minhas crónicas é porque ainda estarei retido na fila para pagamento ou, numa versão sinistra, esquecido sem vida num qualquer corredor à espera que me encontrem… antes da Páscoa.

Foto: pesquisa Web

01jan21

 

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