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Presidente eleito

Joaquim Castro

 

 

Este trabalho resulta, em parte, do que se vê, lê e ouve na Comunicação Social. Pode ser de “produção” própria ou de quem lá vai lançar umas postas de pescada. Cada vez mais, a Língua Portuguesa é maltratada. Em vez de ir melhorando, vai sempre piorando. Aparentemente, os responsáveis dos órgãos de comunicação não se debruçam sobre esse verdadeiro fenómeno comunicativo. Porventura, eles também não serão grandes mestres da nossa Língua. Ainda assim, era de esperar que, pelo menos, nos meios de comunicação que todos pagamos, a RTP e companhia, o assunto fosse levado mais a sério. Mas não. É lá que vou buscar uma boa parte dos pontapés na gramática. Ainda hoje, dia 19 de Dezembro de 2020, comecei por ouvir, na Antena 1, uma jornalista dizer que Rui Moreira, “o presidente eleito da Câmara do Porto, estava a ser alvo de investigação, por peculato”. Ora, presidente eleito, já foi, quando foi eleito, antes de tomar posse. Mas é assim que as coisas andam e se deixam andar.

FILHO DA PUTA, SEM OFENSA!

Conta-se que um advogado tentou arranjar um argumento forte, para defender um cliente que chamou filho da puta a outra pessoa. Dizia o advogado de defesa: senhor juiz, quando vamos ao futebol, se o guarda-redes faz uma grande defesa, dizemos, “o filho da puta, defende bem”. Não estamos a ofender. Antes, estamos a elogiar a sua qualidade de guarda-redes. Se vamos a um concerto e ouvimos um músico a tocar brilhantemente, atiramos, “o filho da puta toca bem”. É neste contexto, que devemos situar a expressão do meu constituinte, ao chamar filho da puta ao queixoso. Perante tais argumentos, o juiz absolveu o réu, mas disse-lhe: o senhor pode agradecer esta sentença ao “filho da puta do seu advogado”! Num outro caso, havia uma testemunha chamada Pedro Nega. De cada vez que o juiz o interpelava, querendo que ele dissesse se era verdade um determinado facto, o advogado dizia-lhe: Fala, Pedro Nega! Ou seja, há nomes que até dão muito jeito para os julgamentos, como é o caso.

ALGARVE CIDADE

O maestro de uma orquestra de Lisboa, anunciou na TV que o Concerto de Natal deste ano será online, “podendo ser visto em qualquer cidade do país: em Lisboa, em Bragança ou Algarve”. O certo, é que Portugal não tem uma cidade chamada Algarve, que é uma região. Vá lá, é um pequeno e insignificante deslize, mas a um maestro exige-se maior rigor. Neste caso linguístico. Já o animador de uma rádio local, numa rubrica de efemérides, que lembra datas históricas do passado, atirou: “Comemora-se hoje, a data do casamento de Isabel II. Foi um meteorologista que escolheu o dia, iria ser o mais “solarengo” daquela época. Se calhar, o meteorologista acertou na escolha do dia, mas não havia dias soalheiros para escolher, mas sim, dias soalheiros. Solarengo, de solar, pode ser um edifício nobre, …Depois, as efemérides foram rematados com, “a música que mais gosto”. Ou seja, a música de que mais gosto. Penso eu de que, como dizia Pinto da Costa. Ainda não tinha terminado este trabalho, quando ouvi um jornalista da Antena 1, referir Boris Jhonson como primeiro-ministro de Londres, que tinha conversado com o presidente francês, Emmanuel Macron. Foi uma sorte, o jornalista não intitular o presidente francês, como presidente de Paris. O primeiro-ministro do Reino Unido, ainda foi tratado como-primeiro ministro de Inglaterra. Por este andar, ainda vamos ter António Costa tratado como primeiro-ministro de Lisboa!

LÁ SE FOI O OBSERVATÓRIO

O radiotelescópio gigante do Observatório de Arecibo, cuja estrutura pesava 900 toneladas, suspensa sobre uma parabólica reflectora, nas colinas de Porto Rico, desabou no início de Dezembro de 2020. Era uma das maiores antenas de observação astronómica, construída em 1963. A decisão para desmantelar o telescópio tinha sido tomada já em meados de Novembro, por questões de segurança, depois de dois cabos terem partido e deixarem toda a estrutura em risco. Mas os danos fizeram com que a estrutura cedesse, sem dar tempo para uma demolição planeada. Como seria de esperar, o facto mereceu as atenções dos meios de comunicação social, que a associaram a factos relevantes da sua História. Num canal português, foi afirmado que aquela antena, pela sua “magnificiência” tinha despertado a atenção dos produtores de cinema de Hollywood, para a rodagem de filmes.  Claro que, o jornalista deveria ter pronunciado magnificência, que é a palavra certa, para definir a qualidade do que é magnificente, grandioso, opulente.

DESFILE DE PONTAPÉS NA GRAMÁTICA

Quem se der ao trabalho de ouvir com atenção as intervenções dos próprios profissionais da Comunicação Social e de quem lá vai mandar umas postas de pescada, pessoalmente, ou por ligação remota, enche um bom saco das asneiras, que por lá caem. Se for um directo sobre trânsito, na Antena 1, não é um pontapé na gramática, mas quem nos informa de como está o trânsito pode muito bem começar por dizer que o “trânsito está parado”! Mas, quase certo, é, o mensageiro, continuar com: “Ora, então; iniciamos pelo Túnel do Grilo, onde há engarrafamentos”. Ou seja, o “então” começa e vai sendo semeado por toda a intervenção: “então, isto; então aquilo; então, aqueloutro”. Recentemente, uma senhora do trânsito, até chamou “tonel” ao Túnel do Grilo. Ora, como um tonel serve para guardar vinho e outros líquidos, onde é que nós já vamos!

UMA PARA TODOS?

Nas redes sociais, apareceu um grande placar, no qual se vê a imagem de Marisa Matias, candidata presidencial, com a legenda, “Uma para todos”. Pareceu-me que a legenda não era autêntica, mas sim manipulada. Descobri que a candidata, afecta ao Bloco de Esquerda, afinal, teria a legenda original: “Uma por todos”, o que torna a mensagem bem mais pacífica do que a que foi alterada para, “Uma para todos”, o que pode dar origem a um segundo significado, à boa maneira portuguesa. Ao longo dos tempos, as mensagens políticas, mormente as de candidatos autárquicos, são fontes de inspiração para os imaginativos críticos portugueses. Aliás, há uns anos, uma revista de âmbito nacional, publicou dezenas de cartazes de candidatos a autarquias locais, cujos dizeres, mesmo sem manipulação faziam as delícias de quem neles lia as mensagens. Tenho pena, mas não sei onde guardei a revista. Lembro-me de um episódio, muito caricato, protagonizado por um colega, acérrimo militante do PS. Segundo me contou, fez dezenas de quilómetros, a escrever “Vota PS”, nas estradas do seu concelho. Quando fez a viagem inversa, reparou que o que escreveu, tinha mais um “D”. Ou seja, ficou “Vota PSD”! Em conclusão, quando se idealiza um cartaz, convém escrever mensagens, que não possam ser aproveitadas, através das subtilezas da Língua Portuguesa.

OS TAIS “PEQUENOS DETALHES”

Já aqui tratamos desta história dos “pequenos detalhes”. Se são detalhes, serão sempre pequenos. Vem isto a propósito, do conhecido comentador de desporto David Borges ter aparecido no programa de desporto da SIC Notícias, em que participa regularmente, para, de entrada, dizer que a vitória do Benfica sobre o Gil Vicente, por 2-0, se deveu a pequenos detalhes. Estranho seria dizer que a vitória se deveu a “grandes detalhes”. Ainda assim, convém olhar para este escrito: “São os pequenos detalhes que eu observo, aqueles que quase ninguém se importa, aqueles que quase ninguém vê, aqueles que quase ninguém ouve, aqueles que quase ninguém faz, são esses detalhes que fazem a diferença, são esses detalhes que mudam totalmente o rumo de uma História, são esses detalhes que mais gente precisa ver. A autora é Daniela Rambo, que cuidou do pensamento, mas não cuidou da escrita. Mas há muitos pensadores que usam a expressão “pequenos detalhes”.

DESMIS E DESMI

Qual será o termo certo: desmistificar ou desmitificar? Ora, inúmeras palavras da Língua Portuguesa têm sons parecidos, mas têm significado e origem diferentes. Muitas delas também têm um significado muito parecido, o que aumenta a confusão, na hora de escolher uma ou outra. Por exemplo, as palavras des-mis-ti-fi-car e des-mi-ti-fi-car têm pronúncia e significados muito semelhantes. Qual escolher? Afinal, a única diferença é que uma só tem mais um “S”, desmistificar. Para escolher uma ou outra, conhecer a origem e significado de cada uma é essencial para não se hesitar: desmistificar ou desmitificar? Desmistificar refere-se à perda de contexto místico, misterioso ou enganoso de alguma coisa ou de alguma pessoa.

Já a palavra desmitificar está intimamente relacionada com mitos e lendas, tendo como origem a palavra “mito”. Desmitificar significa retirar o mito ou a ideia de lenda de uma história, por exemplo, retirando a imagem de lenda de uma pessoa ou personagem.

Não sendo benfiquista, ainda assim considero uma delícia este texto de Bagão Félix, um ilustre benfiquista. Aqui vai um extracto de uma publicação deste antigo ministro: “É difícil exprimir por palavras o que significa a mística benfiquista. Porque, como dizia Antoine de Saint-Exupéry, o essencial só se vê bem (e diz) com o coração. Mística é uma ligação quase uterina de coração e espírito. Tão inspiradora como gratificante. Tão anímica quanto vitamínica. Tão esplendorosa na vida como misteriosa na origem. O Sport Lisboa e Benfica é uma trindade laica e ecuménica: Sport Lisboa e Benfica! E pluribus unum. O todo maior do que as partes e cada parte não se dissolvendo no todo. O seu espírito fundacional, a sua história e os seus sucessos conduziram a um Sport mantido em formatado britânico, mas tão português e eclético quanto saboroso, a uma Lisboa que rapidamente criou raízes em todo o Portugal e se espraia pelo mundo fora e a um Benfica que representa um símbolo sem igual na pátria lusa!”. E por aí fora…

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa Web

 

01jan21

 

 

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