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Um Ano para (Não) esquecer!

Ricardo Guerra

 

31 de dezembro. A data borbulha nos nossos corações como o êxtase agridoce do champanhe. Terminou 2020: o ano da maldição. Por fim…! E todos ansiamos ver no novo dia as palavras mágicas que nos levam de novo à normalidade… No entanto, é passagem de ano e as trevas da noite não ardem em fogo-de-artifício, não há luzes, não há cor, não há a loucura boémia das festas… Nas ruas e nas casas e nos bares não dança o riso louco da alegria… As pedras da calçada clamam, cobertas de certeza: foi cancelado o Ano Novo.

Bem, os festejos foram cancelados… Mas o ano não. No dia 31 de dezembro, como sempre sucede, o sol mergulhou no horizonte, as nuvens deram lugar à lua e às estrelas, voou o vento do tempo… E, como sempre sucede, a manhã de dia 1 de janeiro nasceu, por entre o breu, com o ar fresco e cálido e renovado de um novo ano. O tempo é um conceito humano e o Ano Novo apenas um símbolo: um símbolo de reflexão sobre o passado e de previsão do futuro. E se o porvir é ainda incerto, como uma ave ansiosa sem ninho onde poisar, o passado é um lar acolhedor de onde conhecemos cada traço — e sobre os quais devemos ponderar.

É certo que este ano foi insólito para todos. Contudo, creio que é nas situações atípicas, que nos retiram da nossa zona de conforto, que se revela quem somos. Tal como em todos os mais penosos períodos da nossa História, o ser humano foi “despido”… Numa poltrona invisível, de cetro na mão e coroa de espinhos a adornar o couro cabeludo, este vírus destruiu tudo o que não somos. Os artifícios da imagem, os insidiosos desejos do parecer… e deixou-nos nus, feitos apenas de nós mesmos.

A Covid colocou a descoberto o pior da humanidade. Nas últimas semanas, vários “Ignorantes Pela Verdade” pavonearam a sua “liberdade” e orgulho nas ruas, numa manifestação cega contra a realidade. A sombra da solidão e os flagelos do trabalho precário e do desemprego agravaram-se. Revelou-se a incompetência de um governo que não soube encarar de forma justa o desespero dos setores da cultura e da restauração, abordando-o como a um drink ao fim de tarde. Acentuaram-se os problemas de organização do SNS, sobrecarregado com doentes que terá de ver morrer, pois todas as unidades se dedicam única e exclusivamente à doença do momento… Ainda que sem condições para tal.

Porém, nos telejornais, por entre as estatísticas do Terror e os testemunhos do Medo, revela-se também o melhor da humanidade. Os cidadãos, ordeiros, prenderam-se por vontade em recolheres obrigatórios ao fim de semana, à vida por vídeo-conferência, ao distanciamento e aos banhos diários de álcool-gel… Os médicos, os enfermeiros, os polícias e os bombeiros são os heróis sem capa que todos (com toda a razão) glorificámos pela sua incansável luta contra o némesis do século XXI… A pandemia da generosidade e da caridade também contagiou a nossa sociedade, infetando tanto o coração de anónimos como o de grandes empresas… E, como não podia deixar de ser, os cientistas desenvolveram vacinas com a celeridade e determinação de quem sabe que ali mora a salvação para o apocalipse…!!!

Talvez nunca mais vivamos um ano como este… Contudo, creio que por entre a escuridão de 2020 mora a luz de uma lição. O vírus domou os ponteiros, abrandou o tempo e ensinou-nos o poder da compaixão e de pelejar pelo agora. Além disso, desvendou pontes para um campo de minas que aguardavam o momento certo para explodir.

Logo, não podemos voltar a ser quem éramos antes da Covid. Porquê? Thomas Kuhn defendia que a verdadeira revolução científica ocorre no momento em que é alterado o paradigma: ou seja, os pilares que sustentam todo o pensamento científico de uma época. Assim, também o ser humano só pode evoluir se alterar a sua perspetiva sobre o mundo em que vive, desvendar o baú de novos problemas e encontrar a chave dourada das suas soluções. E este vírus forneceu-nos todas as ferramentas para essa caça ao tesouro.

Então, caro leitor…? Vamos agarrar o futuro com unhas e dentes?

 

Feliz 2021 a todos!

 

 

01jan21

 

 

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