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A ditadura do ódio

Ana Costa de Almeida

 

“Que sorte para os ditadores que os homens não pensem” (Adolf Hitler). A segregação e a crueldade, assumidas e instigadas por Hitler, mediante um discurso e ressentimentos populistas, que, para dizer o mínimo, eram e são impróprios de quem se arrogue deter ínfimo sentido do que seja uma sociedade civilizada, apenas encontraram acolhimento porque num contexto de crise e de sentimentos de insatisfação por que atravessava a Alemanha no pós 1.ª Guerra Mundial, de que o ditador se soube aproveitar para a sua própria ascensão.

Foi numa Alemanha humilhada e com uma economia sob estrangulamento, com indemnizações a pagar aos países vencedores, perda de colónias e território, que Hitler conseguiu uma adesão em massa a um discurso de nacionalismo exacerbado, com uma aberrante componente racial, discriminatória e xenófoba.

Fazendo uso dos problemas económicos e dos sentimentos de revolta e de frustração vivenciados na Alemanha, logrou fazer vingar a irracionalidade, incutindo que se buscasse culpa em outrem, do que fez os judeus principais alvos, porque detinham poder económico. Sobrelevando a “raça ariana” (com características físicas que nem ao próprio ditador assistiam), considerava os judeus uma “raça degenerada” e, por sua vez, os latinos uma “raça em vias de degeneração”.

Induzindo muitos dos que se ressentiam do Estado e das dificuldades por que a Alemanha passava a aderir àquele seu raciocínio e a um discurso de manifesta, e mesmo assumida, crueldade, para Hitler “Só pode ter orgulho uma nação quando, na mesma, não há nenhuma classe de que seja preciso se envergonhar”.

É certo que nem todos sucumbiram ao discurso populista, irracional e de ódio do ditador, mas, como reconhecia Benito Mussolini, é “mais fácil convencer uma grande massa do que uma só pessoa”. E muitos foram os que, fraquejando face aos problemas que os afectavam em tempo de crise, não tiveram discernimento para se demarcarem da multidão que cedia à orientação para culpabilizar e discriminar outrem.

As consequências da segregação, da discriminação e da xenofobia fomentadas e incutidas por Hitler numa Alemanha fragilizada e em crise foram gravíssimas, hediondas, com a prática de crimes contra a Humanidade, insusceptíveis de cair no esquecimento.

Pese embora a História esteja bem presente e deva servir de alerta, os contextos de recessão e de crise continuam a ser pretextos e cenários apetecíveis para pretensos ditadores e discursos populistas, em manifesto aproveitamento das fragilidades, fraquezas e sentimento de revolta, ou mesmo desespero, decorrentes dos problemas que, naqueles contextos, são vivenciados pela população.

Discursos de ódio, fomentando segregação e a culpabilização de outrem, a que alguns tendem a ceder, desatentos ao vazio de ideias (e de exequibilidade) por detrás do que se reconduz a uma retórica pautada por desrespeito pelos mais elementares princípios em que assenta uma sociedade civilizada, em pleno século XXI. E pensando aqueles que são levados por tais discursos que não serão eles, alguma vez, os novos alvos de discriminação e da ditadura de ódio com que agora pactuam…

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Net

01fev21    

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 Comments

  1. Ana Costa de Almeida

    Caro Senhor Firmino Maria Silva, muito obrigada pelo seu interesse e pelas suas palavras. Também eu gostei de o ‘ler’. Bem-haja!

  2. Firmino Maria Silva

    Estimada senhora, plenamente de acordo com o que escreveu. Hitler foi mais preciso, quando afirmou:
    – A amnésia das grandes massas humanas é proporcional ao su tamanho.
    Temos entre nós uma situação em movimento uniformemente acelerado, que vai no mesmo sentido; e se alguém conheceu esse passado já um pouco distante, todavia tão próximo a ponto de chegar de um momento para o outro, muitos nem sequer o conheceram, como também não dão ouvidos a quem lhes chama a atenção. Como é o seu artigo.
    Gostei de ler.

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