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Hospital Anjo d’Ovar mantem-se desativado quando a pressão de doentes Covid-19 está a fragilizar a capacidade das redes hospitalares

Perante cenários dramáticos vividos em algumas redes hospitalares, cuja pressão de doentes Covid-19 tem deixado fragilizada a sua capacidade de resposta, tanto em número de camas, cuidados intensivos, como de profissionais de saúde disponíveis para enfrentar a terceira fase da pandemia, que obrigou a medidas de emergência e confinamento mais rigorosas.

 

José Lopes

(texto)

 

Manter desativado o então hospital de campanha Anjo d’Ovar, perante as dificuldades das unidades hospitalares entre a região Norte e Centro, é uma decisão politica que tem sido motivo de críticas, que já obrigaram o presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, a vir esclarecer que, “é o Governo da Nação que tem que gerir e liderar toda esta crise que tem, notoriamente, um carácter Nacional e não Local. Se nos for pedida colaboração, cá estaremos para ajudar a implementar novamente o Nosso Anjo d’Ovar”.

Entre os argumento do autarca de Ovar, para justificar ainda não ter sido tomada a decisão de voltar a instalar o Anjo d’Ovar, afirma que, “os Nossos Hospitais estão em rutura. Já não conseguem, infelizmente, dar resposta a todas as solicitações em termos Nacionais”. Por isso, e lembrando as “condições muito severas” a que Ovar esteve sujeito na primeira vaga, “ a Câmara Municipal de Ovar teve, na altura, a iniciativa de liderar muitos processos em substituição do Governo, colocando sempre em primeiro lugar a Saúde das Nossas Pessoas.” Realçando a implementação do Hospital de Campanha, “em tempo recorde, em articulação com o Hospital Francisco Zagalo e com o ACES Baixo Vouga”. Em que, como afirma, “a Camara Municipal de Ovar investiu dezenas de milhares de euros em Assistentes Operacionais, infraestruturas, camas articuladas, monitores e consumíveis”.

Justifica ainda o autarca, “fizemos tudo o que esteve ao Nosso alcance!”, chegando a considerar em resposta aos críticos que não compreendem o facto de o Anjos d’Ovar se manter desativado, que, “o vírus, nessa altura, era bem mais letal que o atual, pois tivemos na primeira vaga 45 óbitos em 750 infetados (6%) e, na segunda e terceira vaga, estamos (17 janeiro) perto dos 3000 casos e temos 20 óbitos (0,66%)”. Salvador Malheiro, ainda afirmaria na sua página do facebook (26 de janeiro), a propósito da notícia em que a ministra da Saúde, Marta Temido, chegou a admitir que Portugal poderá enviar doentes covid-19 para o estrangeiro, que, “a situação é de facto muito grave.

O nosso Sistema Nacional de Saúde vive momentos de gravidade extrema”. No entanto, no que toca à incompreensão de alguns munícipes que se manifestam nas redes sociais, por exemplo, o autarca que recorria frequentemente no seu léxico a frases, como: “… quando vencermos esta guerra contra o vírus, quiçá antes de muitos… estaremos prontos para ajudar os nossos vizinhos e todo o nosso Portugal” (22/03/20), ou “queremos salvar Ovar e o País” (24/03/20) e mesmo, “Vamos Salvar Portugal” (25/03/20). Limita-se a dizer agora, que, “é o Governo da Nação que tem que gerir e liderar toda esta crise que tem, notoriamente, um carácter Nacional e não local”. Por isso conclui, “se nos for pedida colaboração, cá estaremos para ajudar a implementar novamente o Nosso Anjo d’Ovar”. Mas insiste, “tem que haver um sinal do Governo”.

No entanto, e apesar das garantias dadas pelo presidente do Município de Ovar, há quem questione sobre que destino foi dado ao equipamento hospitalar do Anjo d’Ovar, nomeadamente as camas. Já que sem pôr em causa a importância da solidariedade na partilha de tais equipamentos na região, no atual momento critico. Com a crise pandémica a fazer rebentar pelas costuras os hospitais, tem sido difícil compreender, que ao contrário das medidas musculadas no inicio da pandemia em Ovar, que levaram à montagem deste hospital em 18 de março de 2020, não se coloque agora no terreno meios preventivos e que deem alguma sensação de segurança, através de respostas como foi o exemplo de um Centro de Vigilância Ativa, instalado na Pousada de Juventude de Ovar, ou o Hospital de Campanha Anjo d’Ovar, como extensão do Hospital de Ovar, que então, esteve equipado com material clinico, como 38 camas, todas com oxigénio, um raio X portátil e duas salas de emergência para casos críticos, estando a área de enfermagem no centro da Arena Dolce Vita, para ter um campo de visão mais eficiente dos doentes, que chegaram a ali estarem internados. Ovar estava sujeito a um “estado de calamidade” e uma “cerca sanitária” decretada a 18 de março, vindo a ser levantada a 18 de abril.

Ao contrário dos argumentos do autarca, baseado nos números de casos na altura, para justificar o investimento no Hospital de Campanha Anjo d’Ovar que foi mesmo inaugurado com a presença do Bispo do Porto, D. Manuel Linda a 8 de abril e posteriormente veio a receber a visita de governantes, como o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Primeiro-Ministro António Costa e Ministra da Saúde Marta Temido, entre vários outros governantes e entidades representadas. Tal aposta numa estrutura hospitalar devidamente equipada, nunca foi consensual e prevaleceu mesmo alguma polémica sobre o tipo de investimento assumido pelo Município, antecipando-se ao Governo e ao Ministério da Saúde. Mas quando o país dá sinais de inquietação sobre a capacidade dos meios hospitalares disponíveis, há quem sugira que era altura de fazer parte da solução, colocando ao dispor das autoridades e dos portugueses os equipamentos, em que se investiram centenas de milhares de euros.

Já da parte do Hospital Dr. Francisco Zagalo de Ovar, a resposta passou pelo aumento de mais 20 camas disponíveis para receber doentes não covid-19, passando das 16 camas de Medicina Interna, para o dobro da sua capacidade de internamento, num total de 36 camas, reativando novamente a enfermaria criada no ginásio da Medicina Física e de Reabilitação, que, segundo comunicado desta unidade hospitalar, a atividade da Reabilitação “foi transferida para os Bombeiros de Ovar”. Uma resposta ao “apelo da ARS Centro e dos hospitais de referência”, que obrigou a “suspender toda a atividade cirúrgica e alocarmos as camas à Medicina Interna”.

Quando diariamente são transmitidas imagens recheadas de dramatismo sobre o estado de fragilidade vivido em vários hospitais centrais do país, sem capacidade de resposta perante a fase de grande pressão de doentes covid-19. Recorrer a imagens de um Hospital de Campanha como o Anjo d’Ovar que existiu na fase inicial da pandemia, com toda a sua força e capacidade operacional, que não chegou verdadeiramente a ser testada ou rentabilizada. Felizmente por não ter sido necessário recorrer na primeira fase da pandemia. São quase imagens surrealistas num tempo de pandemia e saturação dos serviços de saúde, mas também irónicas, quando, apesar de ter sido palco politico de encontro dos governantes do país, se mantem desativado nesta região.

 

Fotos: Facebook-Salvador Malheiro

 

01fev21

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