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Os Liceus do Bonfim (2) – Liceu Rainha Santa Isabel

Maximina Girão Ribeiro

 

Além do Liceu Alexandre Herculano, masculino, a funcionar desde 1906/07, a freguesia do Bonfim teve, durante 52 anos, outro Liceu, este feminino, o Rainha Santa Isabel que fechou, definitivamente as suas portas, por determinação ministerial, em 31 de Agosto de 2003, sendo as alunas/os integrados no ex-Liceu Alexandre Herculano, ao tempo já denominado como Escola Secundária de Alexandre Herculano que é actualmente a sede do Agrupamento de Escolas Alexandre Herculano.

A história do Liceu Rainha Santa Isabel que posteriormente tomou o nome de Escola Secundária Rainha Santa Isabel, vem da primeira metade do séc. XX, quando, no ano lectivo de 1933/34, o Liceu portuense, Carolina Michaëlis, se desdobrou numa pequena Secção, constituída por um núcleo de professoras, alunas e funcionárias, que se instalaram na zona mais oriental da cidade, onde existia uma notória falta de um Liceu feminino. Esta Secção do Carolina Michaëlis esteve sempre instalada em imóveis antigos, mas desadaptados para o funcionamento de um estabelecimento de ensino, tendo ocupado edifícios respectivamente, na rua D. João IV (antiga Rua Heróis de Chaves, nº 710) e na rua de Santa Catarina, no nº 726.

Por fim, a Secção do Carolina mudou-se, a 1 de Novembro de 1938, para o velho palacete situado na esquina das ruas de António Carneiro e do Heroísmo.

Palacete que albergou o Rainha Santa Isabel. Desenho da autoria do escultor Antero Sousa

O edifício que albergou, durante muitos anos, a Secção do Carolina e depois o Liceu Rainha Santa Isabel era uma habitação apalaçada, construída na segunda metade do século XIX, que foi pertença da família do Comendador Francisco José de Barros Lima, homem que serviu a causa liberal, foi membro do Sinédrio e destacou-se na revolução de 24 de Agosto de 1820. Era fidalgo da Casa Real Portuguesa e membro da Junta Superior do Governo do Reino, representando a Classe Comercial, dado que era um rico negociante da praça portuense. O imóvel fazia parte de uma grande propriedade, com vastos terrenos de cultivo e um pequeno bosque. Essa grande quinta foi local estratégico nas lutas liberais. A casa e a propriedade estiveram na posse da mesma família até ao arrendamento que ao Estado fez o Conde de Campo Belo, Diogo Leite Pereira de Paiva Távora e Cernache, em 27 de Outubro de 1937.

E, neste edifício se manteve, por longos anos, primeiro a Secção do Carolina e depois, quando a Secção passou a Liceu, com uma população escolar de cerca de 400 alunas, 20 professoras, 5 empregadas e 2 funcionárias na Secretaria.

Do contrato de arrendamento destacamos alguns aspectos interessantes, como a importância da renda mensal que seria de dois mil e quinhentos escudos; o destino a dar ao imóvel que deveria ser para a instalação e funcionamento de uma Secção do Liceu Carolina Michaëlis; a obrigatoriedade de o senhorio (Estado) se comprometer a concluir a construção de um terceiro andar no ângulo das ruas de António Carneiro e do Heroísmo, parte essa que ia até ao começo da capela que se integra neste conjunto arquitectónico.

Só em 12 de Outubro de 1946, através do Decreto-lei (nº 35 905, publicado no Diário do Governo de 12 de Outubro de 1946) do Ministério da Educação Nacional (Direcção Geral do Ensino Liceal), refere que o «[…] acréscimo de frequência feminina que nos últimos anos se tem verificado […]» e o «[…] desenvolvimento que tem tomado a construção nas áreas de Lisboa e do Porto que são servidas, respectivamente, pela secção do Liceu Pedro Nunes [Lisboa] e pela secção do Liceu Carolina Michaëlis, trouxe a estas secções um aumento tal da população escolar que justifica a providência de se lhes dar vida própria, transformando-as em Liceus […]». Estas foram, portanto, as causas que levaram à transformação das Secções em Liceus e, neste caso, ao nascimento do Liceu Rainha Santa Isabel, destinado exclusivamente à frequência feminina.

Brasão da Rainha Santa Isabel

O casarão que, durante 52 anos, albergou as “Isabelinas” é constituído por um rés-do-chão e três andares, sendo o último um acrescento de enorme simplicidade que contrasta com os outros andares onde sobressaem as extensas e bem trabalhadas varandas corridas de ferro artístico. A fachada que se volta para a Rua do Heroísmo, é ainda constituída por uma capela, de decoração simples, sendo sua padroeira Nossa Senhora das Dores. O edifício contíguo é mais pequeno e tem um terceiro andar mais baixo do que o de gaveto com as duas ruas já citadas. Existe ainda um portão de ferro, ladeado de pilares de granito, que dá acesso a um amplo pátio onde, em tempos recuados, estacionariam as carruagens puxadas por cavalos. Aí se localiza também um outro edifício que teve a função de servir para cavalariças e que, mais tarde, foram adaptadas para salas de aulas.

Fachada do edifício onde se situa a capela

O edifício conservou, ao longo do tempo, uma dignidade apreciável, marcada pela traça original de inúmeros detalhes, como a escadaria da entrada, os tectos decorados com belos estuques, as portas de boa madeira trabalhada, algumas com puxadores de cristal e, ainda, uma sala que exibia lindos espelhos e candelabros dourados que deixavam imaginar festas elegantes, realizadas outrora, pelos antigos proprietários.

No entanto, o crescente aumento da população escolar, as deficientes condições do edifício e as continuadas carências a nível pedagógico (problemas muitas vezes citados em documentação do estabelecimento de ensino), conduziram à construção de um novo edifício para o Liceu da Rainha Santa Isabel, que foi inaugurado pelo Presidente da República, Almirante Américo Tomás, no ano lectivo de 1962/63. O edifício fora concebido para 700 alunas, mas logo no ano lectivo de 1964-65 o palacete voltou a ser, de novo, uma Secção do próprio Liceu Rainha Santa Isabel.

Inauguração do novo edifício do Liceu

Os dois edifícios funcionaram concomitantemente, até à desactivação do “velho” imóvel que passou a ser ocupado desde 1990, pela DREN (Direcção Regional de Educação do Norte) e, mais recentemente, pelo comando da Polícia de Segurança Pública.

Edifício do novo Liceu Rainha Santa Isabel (LRSI)

Só após a Revolução de Abril e no ano lectivo de 1975/76, o estabelecimento de ensino passou a ser misto e a sua denominação alterou-se para Escola Secundária Rainha Santa Isabel, com um quadro docente que integrava também professores do sexo masculino.

Este Liceu, tal como muitos outros, à época existentes, sobretudo entre os anos de 1930 e1960, regia-se pelo modelo de educação feminina liceal, preconizada pelo Estado Novo, cuja ideologia se apoiava em mecanismos de controlo social e de inculcação dos valores ideológicos que estavam na base desse regime fascista contando, para o efeito, com a criação. em 1936, da Mocidade Portuguesa (MP), da Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) e a Legião Portuguesa (L.P.), organismos que mantinham a subordinação de todo o ensino aos fins políticos do Estado Novo. Em 8 de Dezembro de 1937 foi criada a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) que teve uma intensa intervenção, sobretudo a nível das actividades circum-escolares.

A doutrinação ideológica e de controlo social, que caracterizaram as décadas dos anos 30 e 40 do século XX manifestam-se nas palavras que marcaram este tipo de ensino: “ordem”, “método”, “assiduidade”, “pontualidade”, “obrigatoriedade”, “responsabilidade”, …

O Liceu do Estado Novo foi pensado e definido para o sexo masculino. Relativamente ao ensino feminino, continuava a pensar-se que o lugar da mulher era o lar, por isso se incentivava o gosto pelas actividades da vida doméstica, a puericultura, os lavores femininos, actividades que pudessem habilitar as futuras mulheres, a desempenharem a sua “missão” principal – ser mãe, esposa e educadora da sua família. Nas aulas de Lavores faziam-se enxovais para crianças recém-nascidas de famílias carenciadas e montavam-se, depois, exposições de berços; praticava-se a solidariedade com os mais desfavorecidos e, pelo Natal, procedia-se à distribuição de géneros, de brinquedos e de roupas. Pela Páscoa, a MPF promovia a comunhão pascal que congregava um número elevado de alunas.

Época da Festa de Natal (1946) – Grupo de alunas do LRSI acompanha crianças pobres que recebem o Bodo de Natal composto por roupas e víveres

A vida das jovens desses tempos era muito controlada por preconceitos e imposição de regras muito rígidas e, como não existia co-educação, em Portugal, havia muitas proibições e muitas exigências comportamentais como, por exemplo, sair do Liceu e caminhar pelo passeio do lado do Rainha Santa, pois o passeio em frente era o dos rapazes do Alexandre Herculano e havia mesmo um polícia que desmotivava qualquer tentação de trocar de passeio, quer as meninas, quer os rapazes; as saias tinham que ser um palmo abaixo dos joelhos; era obrigatório usar soquettes brancos, tal como as batas brancas, com o monograma bordado com a cor correspondente ao ano de entrada no Liceu, o que quer dizer que se alguma aluna reprovava mantinha a cor inicial, facto que significava uma descriminação por se identificar logo as repetentes…

Na actualidade, essa grande ESCOLA, de grande exigência e rigor pedagógico, que foi o Liceu Rainha Santa Isabel, deixou de ter um nome e um espaço físico mas, mesmo sem nome, esta extinta instituição de ensino, manterá sempre a sua identidade, através daqueles que por lá passaram, partilharam vivências e emoções, guardando-as no cofre sagrado da memória, mas sabendo sempre, também, transmitir o legado que representou ser “Isabelina” ou “rainhas”, como ainda somos conhecidas, todas as que por lá passaram. Algo ficou em cada uma de nós que marcou e marcará a nossa vida. Existirá sempre um elo de união, que se pretende indestrutível, a envolver-nos num sentir e num pensar muito peculiar, sobretudo entre as gerações mais recuadas no tempo.

A instituição extinta, vive ainda nos nossos corações, através das memórias e, também, através de uma Associação criada há 20 anos, pela última reitora do Liceu, a Dr.ª Maria Aurora Pereira – é a “Associação de Antigas(os) Alunas(os) e Professoras(es) do Liceu/Escola Secundária Rainha Santa Isabel” que tem como objectivo principal preservar a memória da instituição e promover eventos culturais que envolvam as suas associadas e todas(os) que passaram pela instituição, criando e reforçando laços de união entre as várias gerações que frequentaram o Rainha Santa Isabel.

Hoje, a instituição de ensino que adoptou como designação o nome de uma Rainha aragonesa por nascimento, mas portuguesa pelo casamento com D. Dinis, a Rainha Santa, pelos seus feitos de bondade para com os que a sorte menos contemplava, mediadora de contendas reais, acolhedora dos filhos bastardos do rei, peregrina dos caminhos de Santiago de Compostela, essa instituição, o Liceu Rainha Santa Isabel, permanecerá na nossa memória e perdurará através desta Associação, como algo indestrutível, pois “Ficará o golpe de asa, a passar de mão em mão…”.

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Net

 

01fev21

 

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4 Comments

  1. Ivone da Conceição Cardoso Fereira

    Frequentei entre 73 e 80. Tenho muitas memórias e lamento ter perdido muitas amizades mas a vida é assim leva nos a opções e sítios diferentes…Os Professores eram exigentes e havia muitas regras! Bons tempos esses que passamos.

  2. Maria Filomena Louro

    Li com muito gosto. Passei sete anos da minha vida no Raínha, de 64 a 71.
    Criança, adolescente, claro que esses deviam ser os melhores anos da minha vida. A instituição que tinha por missão preparar-me para o futuro fez isso bem, mercê de professoras de quem guardo boa memória como profissionais. Essa é a parte boa. Do mais guardo uma memória penosa.
    Recentemente encontrei antigas colegas cuja companhia me consola por termos sido crianças juntas e por termos crescido e vivido vidas felizes nos sítios onde a vida nos levou. Lembro-me da sopa e do arroz colado meio escuro, que eu comia com muito gosto, e era diferente do que se comia em casa.
    Se me perguntarem se eu queria voltar a subir aquelas escadas para ir ao gabinete da famigerada vice reitora e ser submetida a inquéritos e difamações que ficaram na caderneta escolar, sem qualquer fundamento, isso NUNCA!

  3. Maria da Graça Saraiva de Sousa Ribeiro

    Tenho óptimas recordações do Liceu Rainha Santa Isabel, quer do edifício “velho” como do novo”. No edifício “velho” recordo bem o pátio, a capela, ao lado da sala de Canto Coral, as escadarias (as largas e as estreitas). Boas recordações! Também recordo com saudade a Sra Reitora Dra Maria Aurora Pereira.
    Tenho actualmente 63 anos.

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