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1941/2021 – Memórias da tragédia dos fragateiros, em Lisboa, que enlutou Ovar

Quando passam 80 anos do naufrágio em que morreram 21 fragateiros apanhados no meio de grande tempestade no estuário do Tejo (Mar da Palha) no dia 15 de fevereiro de 1941. Tragédia que enlutou várias famílias de Ovar, como terra de fragateiros, em que neste dia fatídico perderam a vida 7 filhos de Ovar. Um dos sobreviventes que deixou muitas memórias contadas à família e amigos sobre este dramático dia, em que se abateu sobre a cidade de Lisboa uma violenta tempestade, foi o Arrais Fragateiro José Ferreira da Silva, natural de Ovar, recentemente falecido, que já não prestou homenagem nos 80 anos da tragédia dos fragateiros, aos seus camaradas mortos e resgatados da morte, como sempre fez em vida.

Em memória deste acontecimento trágico recupera-mos apontamentos do testemunho do Arrais José Ferreira da Silva, publicados na imprensa local, então a propósito da passagem dos 65 anos do naufrágio. Trabalho que o autor do presente texto publicou no extinto Jornal de Ovar (16/02/2006) em colaboração com Gil Figueiredo, familiar do Arrais Fragateiro. Tema a que o jornal quinzenário João Semana deu o título, “Há 65 anos: Tragédia no Tejo enlutou Ovar” (15/02/2006) e o semanário Praça Pública assinalou dando como titulo, “Há 65 anos Fragateiros de Ovar morrem nas águas do Tejo” (15/02/2006).

“Jornal de Ovar”, 16-02-2006

Tal como o fez 65 anos depois da tragédia dos fragateiros em Lisboa, o Arrais vareiro José Ferreira da Silva em memória dos seus camaradas mortos e resgatados da morte, se ainda fosse vivo, voltaria agora na passagem dos 80 anos a recordar memórias daquele dia 15 de fevereiro de 1941. Por isso, também em sua memória, aqui deixamos as suas próprias recordações, espelhadas num trabalho com o título “65 anos depois arrais vareiro recorda tragédia dos fragateiros em Lisboa”.

jornal “O Fragateiro”, 28-02-1941

Como escreveu na época o jornal “O Fragateiro”, que considerou tal tragédia como “horas pavorosas, momentos sombrios de horror e transes de aflitiva tragédia”, e “a maior hecatombe de todos os tempos na classe dos fragateiros”. O trabalho publicado no Jornal de Ovar, começava por destacar que, “As fragatas, sem força motriz que as fortalecesse contra a indomável violência do vento, soprando numa velocidade nunca vista entre nós, carregadas ou vazias eram meros joguetes que as ondas corsárias e alterosas balouçavam ao sabor dos seus nefastos e tenebrosos caprichos. (…) Restava apenas a essas desprovidas embarcações o heroísmo dos seus tripulantes em tão trágico embate. E este heroísmo não faltou”. Assim escrevia o jornal “O Fragateiro” de 28/02/1941, órgão do sindicato nacional dos fragateiros, que teve como presidente, na época, o vareiro António Silva Santa “Camarão” de Assões, filho de Manuel Soares Santa e Maria Joana Rodrigues d’Almeida, um dos fragateiros salvo na tempestade, que era familiar do conhecido pugilista Santa Camarão, também ele moço de fragata. Salvos foram ainda, João Maria Pereira Sona (Ovar), António Gomes Ramilo (Ovar) e o arrais que 65 anos depois nos recorda a tragédia, José Ferreira da Silva (Ponte Nova), na altura com 28 anos de idade.

Jornal “João Semana”, 15-02-2006
Jornal “Praça Pública”, 15-02-2006

Entre alguns dos momentos dramáticos vividos no centro do ciclone daquele ano no dia 15 de fevereiro, que “ceifou a vida a duas dezenas de homens desta classe profissional nas águas do Tejo”, vem há memória, “uma catástrofe, que enlutou também várias famílias em Ovar, como terra que foi de fragateiros, que em Lisboa trabalhavam a bordo das típicas embarcações, que faziam o transporte de diferentes mercadorias nas águas habitualmente calmas do rio Tejo, como era o caso da cortiça. Foi, curiosamente, agarrado a um fardo de cortiça durante longas horas que se salvou um outro vareiro, o António de O. P. Canário. Um dos sobreviventes que mais tarde viria a abandonar a vida de fragateiro, empregando-se na então Rabor”.

Como já em 2006 se afirmava, “recordar o fatídico dia 15 de fevereiro de 1941 não é fácil, mas foi esse esforço de memória que nos fez José Ferreira da Silva, residente na Ponte Nova, como o único arrais de fragata de Ovar ainda vivo (entretanto falecido). Naquela manhã, tal como o jornal “O Fragateiro” relata, o quadro era arrepiante e hórrido dos vagalhões encrespados, zurzindo e açoutando as frágeis embarcações (…) derrubando-as no torvelinho do furacão ou cuspindo-as a grandes distâncias nas margens do rio em que a praia se estende; gravara-se-nos para sempre no nosso espirito os lances de aflição dos nossos camaradas na ânsia de salvamento, e esse pandemónio inenarrável que a ampla bacia do Tejo apresentou durante algumas horas”.

Foi uma madrugada de sobressaltos, e um cenário de horrores que o arrais José Ferreira da Silva começou por lembrar e que surpreendeu as tripulações que dormiam nas fragatas atracadas ao Cais de Alcântara. Tudo aconteceu por volta das 3 horas da manhã, quando se dá um forte temporal. “Algumas embarcações partem as amarras e entram em choque com as outras fragatas, pondo em perigo todos os tripulantes. (…) Mesmo homens do mar como eram, habituados a ventos e ondulações difíceis”. “Nunca tínhamos passado por tamanho temporal”, afirmou então o Arrais, lembrando que “o medo apoderou-se de todos nós”.

Perante a prolongada fúria do temporal, José da Silva recorda-se de terem chegado desesperadamente à conclusão que “era impossível sairmos dali com os nossos próprios meios. Não havia vela que resistisse e a embarcação não se conservava à tona de água”. A salvação deste vareiro e da tripulação da fragata em que trabalhava, assim como de outras idênticas frágeis embarcações que foram postas a salvo na Doca de Alcântara, ficou a dever-se ao Comando do Porto de Lisboa, “que mandou em nosso auxílio um rebocador”.

Refeitos do perigo por que os tinham feito passar os ventos travessos (designação na linguagem de fragateiro sobre os ventos vindos de noroeste), a verdadeira realidade da tragédia que se tinha abatido sobre tantas outras tripulações, que naquela época davam vida e alma ao Tejo, só mais tarde se vêm a perceber. “Ao início da manhã corriam rumores de que muitas fragatas se tinham afundado e que havia cinco mortos”.

Mas o número foi aumentando e ao meio-dia já eram nove, vindo esta tragédia a cifrar-se em 21 mortos”. Muitos destes homens, como lembra José da Silva, “eram filhos de Ovar” e neste regresso a memórias há muito guardadas sobre a sua vida nas fragatas, diz (disse então) recordar todos com muita saudade. “Tínhamos uma vida muito em comum, pois vivíamos dentro da fragata, ali dormíamos, fazíamos as nossas refeições e trabalhávamos, estava-mos longe das nossas famílias e aquela era a nossa família”.

Entre os vareiros que morreram neste temporal, que naquele dia 15 de fevereiro enfureceu as águas do Tejo, o sobrevivente José da Silva relembrou então o seu mais próximo amigo da terra, Francisco de Pinho Alho, “um rapaz do Brejo, da minha geração, que fez um percurso igual ao meu. Fomos com 15 anos para Lisboa para a vida de fragateiro. Aos 20 anos fomos para Tancos, para a vida militar”. Terminado o serviço militar, ambos voltaram às fragatas, ainda que para embarcações separadas e de diferentes patrões.

Poucos dias antes da tragédia, “o Francisco comprou em Lisboa uma gabardina, que tinha guardado no porão da fragata, que acabou vítima da tempestade, começando a afundar-se, sendo a tripulação salva por uma lancha que veio em seu socorro”, contava o arrais. No entanto, o seu amigo Francisco, “lembrando-se da gabardina que tanto lhe custou a comprar e medindo mal os perigos em que estava metido, resolve ir ao porão no sentido de salvar a gabardina para não mais vir à tona da água”, no preciso momento em que a fragata se afundou, indo Francisco Alho aparecer uns dias mais tarde ao largo do Montijo.

Deste dia 15 de fevereiro de 1941 e das horas pavorosas vividas nas turbulentas águas do Tejo, constaram ainda entre os fragateiros de Ovar mortos nesta tragédia, nomes como: Manuel Maria Tavares (apareceu no Seixal); Américo Pereira Cunha e Costa; António Augusto Rodrigues Faneco (apareceu em Alcochete); Manuel da Silva Paiva; Américo Gomes e João Cunha.

Arrais Fragateiro José Ferreira da Silva (foto: João Elvas)

A estas memórias do Arrais José Ferreira da Silva, o familiar Gil Figueiredo, acrescentaria recentemente no facebook, que o fragateiro, António de Oliveira Pinto Canário, filho de Ovar, lugar do Lamarão, foi dado como morto, mas sobreviveu desta tragédia há 80 anos. Acrescenta nesta curiosidade, que, “com a fragata carregada de cortiça sai de Braço de Prata com destino ao Seixal. Como o tempo não estava de feição à navegação, resolve o arrais fundear em frente do Alfeite. Esperava por tempo bom que lhe permitisse seguir o seu destino, quando é apanhado pelo temporal, pondo a fragata á deriva vindo a afundar-se junto ao Samouco. Como a carga era de cortiça, os quatro tripulantes agarraram-se aos fardos, mas dois deles perante a grande fúria das águas, não resistiram, não tiveram forças e morreram. Salvou-se dois tripulantes, o fragateiro de Ovar (Canário), que dado como morto andou dois dias à deriva no mar da palha. Conseguiu ser resgatado em estado, com muitos ferimentos, pelo rebocador do Porto do mar.

Manuel Maria Lopes da Silva (Cachimbô)

Por ultimo, neste trabalho sobre os fragateiros, é difícil resistir a deixar aqui também uma recordação em memória do pai do autor deste texto, Manuel Maria Lopes da Silva “Cachimbó” que, ainda jovem foi “moço” de fragateiro em Lisboa nos anos 40, convivendo e partilhando a vivência de fragateiros em tripulações das embarcações de diferentes companhias, ainda com o trágico ano de 1941 muito fresco e marcante na memória, particularmente dos seus conterrâneos que nas águas do Tejo continuavam como uma comunidade vareira a procurar a razão de terem saído da sua terra, deixando para trás a família, à procura de trabalho como fragateiros.

 

Texto: José Lopes

Fotos: Almada Virtual Museum (Blogger)

 

01mar21

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