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A primeira “Town Hall” de Biden

Maria Manuela Aguiar

 

1-  O Presidente Joe Biden, que, aos 78 anos, foi, nos EUA, o mais velho a tomar posse nesse cargo e se revelou, em pouco mais de um mês, o mais rápido a tomar medidas governativas, participou, há dias, na sua primeira “Town Hall”, transmitida pela CNN para o mundo.

Para quem não sabe exatamente o que isto é – como eu não sabia, antes de me converter em telespetadora constante da CNN – começo por dizer que não é o que parece. Também se pode designar, mais explicitamente, por “town hall meeting”, mas o sentido americano dessa realidade continuará a escapar-nos se traduzirmos por “reunião de Câmara”. Não é isso… Por curiosidade, pesquisei no “google” a pluralidade de sentidos de “Town Hall”. Os mais comuns são Câmara Municipal – ou Prefeitura, no  Brasil – salão da Câmara, Assembleia, serviços camarários. Mas logo outros significados nos levam para longe da sede do Município, ao englobar qualquer reunião para discutir assuntos importantes, que pode ter um determinado círculo de participação, por exemplo, o interior de uma empresa, de uma instituição, ou constituir um conselho, um meio de comunicação e formação interna, ou alargar-se ao exterior, a públicos, que se quer sondar, atrair, convencer, informar.

Nos EUA, tem um significado mais preciso e inequívoco: é uma reunião interna ou pública, em que um dirigente, um responsável político responde a questões, que livremente lhe são postas. É sinónimo de diálogo democrático, lembra, porventura, a sua origem na “civitas”, porém, o lugar concreto da “Town Hall /reunião”, há muito, perdeu a sua ligação umbilical com a cidade. Tanto pode realizar-se num salão municipal, como num auditório universitário, no ginásio de um liceu, num teatro, num hotel. Aquelas a que tenho assistido, na CNN, são, naturalmente, vistas não só nesse auditório, ao vivo, mas por milhões no ecrã da televisão, em muitas partes do planeta. As personalidades mais poderosas e influentes são ali interrogadas pelo cidadão comum, em perguntas quase sempre oportunas, que nós próprios gostaríamos de colocar em agenda. Um exercício democrático que se converteu num dos meus programas televisivos preferidos, talvez porque não seja um modelo familiar na nossa cultura.

2 – Em Portugal, há, claro, aproximações a este “happening”, as mais interessantes das quais se terão conseguido com as “presidências abertas” do Doutor Mário Soares. Também se poderão considerar, nesta categoria de “sucedâneos”, as “sessões de esclarecimento”, que estiveram em voga no período pós revolução, mas que, com o decurso do tempo, se foram rarefazendo, como se o diálogo sobre políticas ou medidas concretas, (apenas pensadas, já  em execução ou executadas), à medida que avançava a democracia, se tornasse  mais e mais supérfluo. Em sua substituição, aumentaram conferências de imprensa, por vezes, sem período de perguntas e respostas, entrevistas de jornalistas, mais ou menos independentes, debates entre políticos (que sobem em flecha quando se aproximam eleições), mesas redondas de comentadores, muitas e semanais, ou uma mistura destas modalidades, em fórmula original de um programa de rádio ou televisão.

Os governantes preferem responder, não diretamente ao povo, mas aos seus representantes eleitos, os deputados. E respondem o menos possível. Dá bem a noção do estado da nossa democracia, e do nosso parlamento, a decisão conjunta do partido no poder e do maior partido da oposição, de diminuir enormemente, a periodicidade desse tipo de sessão parlamentar (decisão que só tem paralelo noutra bizarra aliança dos mesmos dois partidos para limitar, abusivamente, a concorrência de listas de independentes a Câmaras e Juntas de Freguesia).

A nível autárquico, a situação não é muito diferente –  os executivos são, periodicamente, questionados pelos eleitos nas assembleias municipais, mas os cidadãos dispõem de limitadas  oportunidades de lhes fazer perguntas. Em Espinho, isso acontece num período antes da ordem do dia, com exigência de inscrição prévia, e, nos anos em que assisti, por dever de ofício, a assembleias, posso asseverar que não aconteceu muito, e o impacto foi assaz diminuto.

Sessões públicas com membros do Executivo, como oradores? Só em comícios de campanha, para propaganda. É para o que servem, de igual modo, quase invariavelmente, as entrevistas de jornais, rádios ou televisões, (se no concelho as houver). Contraditório? É na Assembleia, e por obrigatoriedade. Referendos? Nem pensar… O único de que, de momento, me recordo foi uma corajosa iniciativa de João Soares, em Lisboa (a família Soares, talvez não por acaso, aparece nas exceções à regra, que, neste domínio me ocorrem…). O referendo era sobre a construção de uma espécie de funicular para acesso ao castelo de São Jorge. Foi derrotada, naturalmente, pelo sufrágio popular. Eu, se, naquele tempo, fosse munícipe em Lisboa, também teria votado contra, mas com todo o apreço pelo gesto do Presidente de Câmara. Com outro qualquer, lá estava, hoje, o funicular…

3 – O espírito de “town hall” – de diálogo aberto e basista, com tempos precisos de pergunta e resposta, impostos por um moderador – nada tem a ver, também, com populares convívios em festivos ajuntamentos, “selfies”, conversas de rua, sorrisos e abraços (pré pandemia), que mais parecem rituais de campanha eleitoral, fora de época. Nada contra – acho até estimável e divertido, mas não é a mesma coisa que um debate sério e direto.

Foi este tipo de debate que Joe Biden e a CNN nos ofereceram, na semana passada, a partir de Milwaukee. Ao satisfazer indagações dos  presentes no auditório – todos a distância recomendável, uns dos outros, e de máscara –  ele respondia às perguntas de um mundo, onde as preocupações andam globalizadas.

Para quando a normalização da vida? Talvez no Natal, talvez para o ano, por esta altura… mas os especialistas não têm certezas.

E as vacinas? Triplicaram as aplicações, na América pós Trump (nome que evitou mencionar). E é no ato de vacinação, mais do que na quantidade de vacinas, que reside o obstáculo maior. Estão a recorrer a médicos e enfermeiros reformados, à Guarda Nacional, ao Exército e, sobretudo, às farmácias, como postos de vacinação de proximidade.

Reabertura das escolas? Sim, começando pelos primeiros anos (que socializam menos fora das aulas), e só depois de planificar a divisão de turmas, em grupos mais pequenos, e de assegurar o transporte em perfeitas condições sanitárias.

A vacinação dos professores de classes em funcionamento efetivo, como grupo de risco? Está em estudo (se fosse em Portugal, alta era a probabilidade que toda a corporação fosse vacinada “à boleia” dos que efetivamente trabalham – é o que se tem visto em serviços e instituições várias, em detrimento dos velhos, que são, de facto, os mais ameaçados pelo vírus).

Apoios à economia? Sim, e em força. “Now is the time to be spending”, segundo Biden  – na Europa da Senhora von der Leyen, tarda a “bazuca”, e tardam as vacinas.

Este novo (ainda que velho na idade) Presidente revela-se um comunicador nato e uma simpatia! Momento alto da reunião foi a conversa com uma menina de oito anos. A mãe, explicando que a filha andava assustada com a pandemia, quis saber: “Para quando a vacinação das crianças?”. Biden respondeu diretamente à criança, como um avô fala à neta, tranquilizando-a com informação científica, em linguagem acessível.(“não precisas de vacina, pertences ao grupo de menor risco, estás segura”).

Não disse coisas extraordinárias, mostrou-se, sim, um ser humano extraordinário. Conseguiu, a meu ver, o que queria: falar claramente, partilhar, sem euforia nem temores, o estado atual do seu conhecimento sobre assuntos do maior relevo. Com ele, tudo pareceu simples, mas talvez não seja, a avaliar pelo discurso de tantos outros políticos. A esmagadora maioria.

 

Fotos: pesquisa Web

 

01mar21

 

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