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As Fontes e os Chafarizes do Bonfim (01) – Chafariz do Jardim de S. Lázaro

Maximina Girão Ribeiro

 

Escrever sobre as fontes e chafarizes representa recordar um tempo em que estes equipamentos comunitários foram fundamentais para a vida das populações, pois, o bem essencial que é a água, não chegava canalizada à casa das pessoas. Era preciso ir à fonte com um cântaro, um balde, ou outro utensílio que a transportasse e fazer o caminho várias vezes por dia, conforme a necessidade maior ou menor deste líquido. A água tinha de ser muito bem gerida para evitar o sacrifício das caminhadas com o peso da água, normalmente transportada à cabeça. Por isso, diz o ditado popular “Quem não poupa água e lenha, não poupa nada que tenha.”

Chafariz de S. Lázaro

Ora, desta vez, apresentaremos uma peça escultórica de inestimável valor que se encontra no jardim de S. Lázaro, o primeiro jardim público do Porto, cuja autoria do projecto é atribuída a João José Gomes, tido como o primeiro jardineiro municipal do Porto. Este jardim surgiu por iniciativa do Senhor D. Pedro IV, num local que era um campo, situado nos arrabaldes da cidade, onde existiu um hospital de lázaros (leprosos), cujo santo padroeiro, S. Lázaro, deu o nome a esta zona da cidade.

Assim, as obras para a criação do jardim decorreram entre 1830 e 1834 e, caso curioso, D. Pedro dedicou-o às senhoras da cidade, como “lenitivo às agruras e sacrifícios que passaram”, durante o tempo em que durou a guerra civil, conflito que opôs o Exército Liberal, comandado por D. Pedro, às tropas absolutistas, comandadas pelo seu irmão, o Infante D. Miguel.

Embora o jardim ainda não estivesse concluído foi inaugurado, oficialmente, com imponentes festejos, no dia 4 de Abril de 1834, por ser o aniversário natalício da rainha D. Maria II, filha dilecta de D. Pedro IV.

A peça de que vos falo, não é propriamente uma fonte, porque a água que a alimenta não é proveniente de uma nascente. Pode ser considerada um chafariz, dado que a água que chega às suas bicas vem encanada. Infelizmente, tudo indica que a água já há muito que não corre nas bicas, o que é de lamentar…

Antigo Convento de S. Domingos (desenho de Joaquim Vilanova)

A belíssima peça foi inserida no lado Norte, no correr do gradeamento que envolve o jardim, embelezando o espaço. Embora esta peça não pertencesse a este lugar, veio para o jardim, dada a extinção das ordens religiosas e o abandono dos conventos. Pois, esta peça fazia parte da sacristia da Igreja do Convento de São Domingos, que se localizava no Largo que tem ainda o mesmo nome. Trata-se de um lavabo ou lavatório de sacristia que, em 1838, por indicação do pintor João Baptista Ribeiro, foi colocado neste jardim, já não como lavabo, mas como um chafariz decorativo.

Pormenor do Chafariz de S. Lázaro – século XVIII

Esta bela peça tem uma combinação harmoniosa de materiais: o granito como pano de fundo e, neste material a aplicação de mármore rosa, branco e cinzento, além da ardósia preta apresentada em alguns dos elementos embutidos na composição, o que me parece ser um acrescento posterior, não pertencendo, portanto, ao lavatório original. Todo o conjunto escultórico é uma obra de decoração tipicamente barroca, onde se salienta um vegetalismo exuberante, a par do exagero e minúcia nos detalhes.

Ao olharmos de cima para baixo a peça em questão, observamos um frontão circular trabalhado, encimado por uma concha, sendo esta ladeada por dois pináculos, nas extremidades do conjunto.

Pormenor do vaso assente sobre grinalda de folhas de acanto
Folha de acanto estilizada

O chafariz possui duas bicas, lançando a água numa taça semicircular, que pousa numa coluna central profusamente decorada. Este conjunto é rematado superiormente, por um gracioso vaso de flores, trabalhado em mármore e limitado lateralmente por volutas e contra-volutas. Por cima deste vaso, encontra-se uma bem trabalhada concha, sobreposta por uma graciosa cartela. Este vaso assenta numa bem conseguida grinalda de folhas de acanto, cujo simbolismo arquitectónico representa o “triunfo sobre as dificuldades” que a vida apresenta.

Mais um pormenor do Chafariz de S. Lázaro

Junto deste chafariz encontram-se dois bancos, um de cada lado, convidando a um descanso ou a uma conversa amena. Os bancos/assentos eram um elemento muito constante junto das fontes, pois era à volta delas que se conversava, contando novidades, transmitindo notícias ou até namorando.

Os bancos ladeando o chafariz

No extremo de cada banco existem duas peanhas em granito, onde deveriam pousar, em cada uma, um jarrão em granito. Contudo só uma das peanhas é que apresenta um jarrão, facto que desequilibra o conjunto.

Estou convencida que ninguém ficará indiferente à beleza desta peça escultórica, pelo que valerá bem um passeio ao jardim romântico de S. Lázaro para apreciar, em pormenor, este belo exemplar que sobressai em todo o conjunto envolvente.

 

 

Nota: Sobre as Fontes e Chafarizes do Porto poderão consultar a obra “As Nossas Memórias – as Fontes do Porto“ (Volumes I e II), obra de que sou co-autora com Arminda Santos, Rui Clare e Luís Pacheco, uma colectânea onde encontrarão outras abordagens diferentes, sobre estes equipamentos públicos.

 

Obs – Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01mar21

 

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