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Do, da, de

Joaquim Castro

 

 

 

Acho muito estranho, que titulares de cargos públicos, incluindo membros do Governo e deputados da Assembleia da República, usem o do, da, de, inadequadamente na construção de frases. Em alguns casos, referindo organismos ou instituições. Por exemplo, tenho ouvido o primeiro-ministro, António Costa, referir Orçamento “de” (mal) Estado, em vez de Orçamento “do” (bem) Estado. Outro caso, Direção-Geral “de” (mal) Saúde, em lugar de Direção-Geral “da” (bem) Saúde. Neste e em outros casos, será que nos documentos oficiais estes erros prevalecem? Penso que não, pois acredito que, no Diário da República, venha referido Orçamento “do” Estado e Direção-Geral “da” Saúde. Parece-me que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem o cuidado de pronunciar bem nestes dois casos, dados como exemplos. Mais estranho ainda, é ouvir falar em Hospital Garcia “da” (mal) Orta, em vez de Hospital Garcia “de” (bem) Orta. Por um bocado, ainda vai parecer que é o Garcia da Horta, com couves e outras hortaliças!

TUDO AO MOLHO…

Quem assista a telejornais está sujeito ou sujeita a ouvir os maiores atentados à Língua Portuguesa. Ou seja, quase todos os que passam por aquela caixinha, desde jornalistas, políticos, cientistas, comentadores, costumam contribuir para um português, cada vez mais deteriorado. Então, se estivermos atentos a certos programas diários das estações de televisão, também das estações de rádio, não fica mal servido de ouvir pontapés na gramática. E os programas de domingo, que, recentemente, recrutaram alguns cantores e algumas cantoras, para fazerem de apresentadores e de apresentadoras, o caso ainda é mais grave. É que um bom cantor, uma boa fadista, pode não ter perfil para apresentador ou apresentadora. Até custa vê-los a tropeçar uns nos outros, a tomar a palavra, sem ordem e sem critério. As telenovelas são outro caso perdido, tais são os atropelos à nossa Língua. Mas, quem nos acode? Nem os provedores!.

PAIRAR NA ÁGUA?

Em 6 de fevereiro de 2021, fui surpreendido no decorrer de um programa da SIC, sobre a Natureza, emitido aos domingos, quando um famoso narrador começou a descrever uma cena subaquática: “um polvo abissal paira sobre um monte de detritos”, referindo-se à imobilidade de um polvo das profundezas do oceano. Nunca tinha sabido que um animal pode pairar na água, dado que pairar significa sustentar-se no ar, com as asas estendidas, sem movimento aparente, como fazem alguma aves de rapina, à procura de presas para se alimentarem. Pairar também pode ter um significado figurado, como neste caso, que pesquisei na Internet: “O ex-bastonário da Ordem dos Advogados, José Júdice, alertou para o facto da decisão do Supremo Tribunal de declarar nulas as escutas a Sócrates e Vara ir “ficar a pairar como sendo protecção ao Governo”. Diário Económico, 12.11.2009. Ou como neste caso: “Ao contrário das outras mulheres, que já foram presidentes na América Central, Laura Chinchilla subiu  na política por mérito próprio. Não tem a pairar sobre si a sombra conjugal…”. Diário de Notícias, 13.02.2010.

SECAS IRRITANTES

Uma deputada do PAN apareceu na RTP3 para falar dos números da Pandemia e do possível confinamento. Durante os poucos minutos em que falou, com sofreguidão, fartou-se de utilizar a já famosa expressão, pelo uso, “aquilo que”. Aquilo que, acima; aquilo que, abaixo; aquilo que, frito; aquilo que, cozido. Uma intervenção televisiva, que me levou mais a ouvir e a adivinhar, quando sairia uma outra vez, a expressão “aquilo que”. Quanto ao conteúdo da conversa, se existiu, ele foi abafado pela frase feita “aquilo que”, com que a deputada brindou quem a ouvia. Quando não se sabe dizer mais nada, diz-se “aquilo que”! Ora, antes de esta deputada falar para as televisões, a ministra da Saúde, Marta Temido, já tinha dado um show de “aquilo que”, em que ela, a ministra, é especialista, quando apanha um microfone pela frente. Por mim, liguei o televisor na hora errada, nunca pensando levar com tal receita. E o pior, é que o mal alastra, pelos papagaios televisivos e radiofónicos.

METER VENENO NA CABEÇA!

No programa “Casa Feliz”, que a SIC transmite de manhã, se segunda a sexta-feira, apareceu um rodapé, uma legenda, que me deixou a pensar: “ METEU VENENO PARA MATAR FORMIGAS NA CABEÇA DE CRIANÇAS PARA COMBATER PIOLHOS”. Esta parte do programa é conduzida por Hernâni Carvalho, que dirige a rubrica criminal do programa. Então, alguém pode meter veneno na cabeça de crianças? Como? Por um buraco feito na cabeça das crianças? Que coisa mais descabida! Lembro-me de, num artigo anterior, ter falado de um expressão, segundo a qual estudantes de uma escola de um país asiático, foram obrigados a meter umas caixas cúbicas nas cabeças, para não copiarem os testes dos seus colegas de estudo. Mas, na verdade, o que se via nas imagens era as cabeças dos alunos metidas em caixas, só podendo ver para a frente. Ou seja, não eram as caixas metidas na cabeça, mas sim a cabeça metida nas caixas!

CONTATAR

Um porta-voz de médicos reformados, em declarações a uma estação de televisão, referiu: “Maioria dos médicos está a “contatar” as autoridades de saúde para fazer voluntariado, mas estão a enfrentar obstáculos legais”. Aqui, a questão em análise diz respeito à palavra “contatar”, dado que no português falado em Portugal, deve ser “contactar”, como era e como é. Não houve alteração com o Novo Acordo Ortográfico, de 1990. Este caso é idêntico a “fato”, no Brasil, que em Portugal se escreve e pronuncia “facto”. Aparentemente, o novo Acordo Ortográfico, de 1990, trouxe mais dúvidas do que certezas, criando muita confusão. Entre essas confusões, até já li, num comunicado de um partido político, a referência a “seção” local desse partido, quando o que deveria ter sido escrito era “secção”.

PALAVRA PARA IMPRESSIONAR!

Resiliência é uma palavra que está na moda, mas é de presumir que muita gente não saiba bem o que é. Esta palavra tem sido muito utilizada nos últimos tempos, associada ao Plano de Recuperação e Resiliência – Recuperar Portugal 2021-2026. Segundo o Léxico – Dicionário de Português Online , é um nome feminino e tem os seguintes significados:  Capacidade de recuperação ou restabelecimento de um ser vivo perante um agente perturbador, uma situação adversa ou um obstáculo; resistência, força; estoicismo: a resiliência das crianças é impressionante; (Mecânica) propriedade que um material possui que lhe permite resistir ao choque; (Física) habilidade que um corpo tem de recuperar a sua forma original após ficar deformado ou sofrer uma colisão. Por tudo isto, considero que muitos portugueses ainda não descortinaram o significado da palavra “resiliência”, que o primeiro-ministro, que tão mal trata a Língua Portuguesa, gosta de utilizar.

LEITE DE CAMELO

No programa da Antena 1, “Um português no Mundo”, apresentado por Alice Vilaça, um português a viver no Dubai referiu as diferenças entre a vida naquele país e em Portugal. Depois de falar na boa gastronomia portuguesa, o entrevistado salientou que tinha o hábito de tomar café com leite de camelo, ao pequeno-almoço. Mas, leite de camelo? Parece que esta designação – leite de camelo -, não soa muito bem, atendendo, até, às subtilezas da Língua Portuguesa! Ora, o feminino de camelo é camela, que, realmente, produz leite, que o camelo não produz. Tal como camelo, outros animais permitem os dois géneros: gato, gata; pato, pata; burro, burra; etc. Ninguém diria leite de boi ou de burro, para evitar más interpretações. Ainda assim, leite de camelo é uma designação corrente do leite de camela, que segundo a minha pesquisa, é melhor que o leite de vaca, e bom para tratar alguns tipos de diabetes.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa Web

 

01mar21

 

 

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