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O ópio dos miúdos

Miguel Correia

 

É numa mistura de raiva e arrependimento que penso no fatídico dia em que eliminei a mensagem – que recebi de uma instituição qualquer – com um número de telefone para aconselhamento psicológico grátis (não faltarão médicos da especialidade, mas este era grátis!). Esta nova rotina diária veio alterar severamente a nossa sanidade mental. Não que fosse coisa muito importante, mas ainda estava dentro dos valores razoáveis. Porém, passar os dias confinado em casa, em regime de teletrabalho, acumulando funções de “baby-sitter” e empregada doméstica é, basicamente, algo que reduz a minha esperança média de vida. Urge desabafar com alguém antes que comece a sentir impulsos homicidas e tenha de ir para a rua furar o confinamento! Porque, no meio desta equação doméstica, a situação agrava-se quando a televisão fica retida – por motivos alheios à minha pessoa – no malfadado Canal Panda. Pensei que a questão das lavagens cerebrais tivesse ficado esquecida nos anos 90, durante o apogeu da Igreja Universal. Afinal o fenómeno está de volta…

Tirando partido do ritmo acelerado da vida dos adultos – e sua falta de paciência para aturar os caprichos de um pequeno ser – a tendência é sacar do telemóvel (ou qualquer coisa que tenha ecrã e ligação à Internet) e silenciar o petiz. Mesmo contrariando os conselhos dos pediatras e oftalmologistas. Perante o risco imediato de uma otite, a paz de espírito providenciada pelo YouTube é algo que vale a pena correr o risco. A malta responsável pelo Canal Panda viu um nicho de mercado inexplorado e tratou de arranjar umas músicas trolaró e – como uma desgraça nunca vem só – encontrou uns personagens a condizer. A mesma força que levou os milhares de fiéis ao Estádio do Belenenses para entregar dinheiro aos pastores, é usada para fixar o olhar dos putos (ou meninas) ao ecrã. Nem pestanejam. E o pior é que as músicas ecoam na nossa mente e, sem aviso prévio, damos por nós a cantar a música do quadrado, cowboy ou chaleira! Eu não disse? Aquilo é coisa para nos afetar psicologicamente sem darmos conta. Ainda há dias, perante um condutor aselha, dei por mim a abrir o vidro para soltar um insulto valente e bem masculino. Enchi o peito de ar e gritei: “Macaco Xingú”.

 

Foto: pesquisa Web

 

01mar21

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