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Y Ping Chow: “a Câmara do Porto devia ter, como já teve, um conselho para as comunidades imigrantes! Ficávamos todos a ganhar … e a Liga dos Chineses em Portugal apoiava a ideia de imediato!”

Hoje, já não é só conhecido por ser presidente da Liga dos Chineses em Portugal, fundada em 1997, mas também pelo facto de assumir o mais alto cargo do Conselho Executivo da recém-criada (tem sete meses) Câmara do Comércio Portugal China – Pequenas e Médias Empresas (CCPC-PME).

Y Ping Chow que, no fundo, e em termos práticos, é mais português que chinês – chegou ao Porto com sete anos de idade, em 1962, e da Invicta jamais saiu para residir em outro local -, é incansável no que concerne à defesa dos interesses da comunidade a que, a todos os títulos, pertence, e que em Portugal é composta por cerca de 35 mil chineses, com cerca de 12 mil a residir na região do Norte do país.

Com o avô a chegar ao Porto para se revelar, e relevar, num negócio de gravatas, e o pai a ser o primeiro a abrir um restaurante chinês no Porto, Y Ping Chow não teve como que escapar à tradição, dando um geracional seguimento aos negócios (restauração), nunca se esquecendo, porém, dos seus “patrícios” que, em número, crescente, residem em Portugal, e no Porto, em particular.

Numa interessante entrevista, o nosso convidado – que recebeu o “Etc e Tal” no seu belo restaurante, King Long, ao Largo Tito Fontes, no Porto -, aborda, em diversas vertentes, a questão da pandemia criada pela Covid-19; a importância do investimento chinês na região, assim como do português em terras chinesas, e demonstra ainda, evidente, preocupação, com algumas dificuldades que afetam a comunidade de que faz parte, entre as quais, a discriminação racial. Comunidade que tem em Varziela (Vila do Conde) o seu mais importante centro empresarial em terras lusas.

Y Ping Chow, por estas e por outras (que vão conhecer de seguida), defende que volte a funcionar na Câmara do Porto, o Conselho Municipal das Comunidades, criado pelo, então, vice-presidente da autarquia portuense, Paulo de Morais, e que, hoje, em seu entender, traria muitos benefícios para a cidade, dado o crescente número de comunidades imigrantes existentes no Porto e o seu “apetite” para o investimento.

 

José Gonçalves                 Francisco Teixeira

(texto)                                     (fotos)

 

Para iniciarmos esta nossa conversa, gostaria, para já, saber quantos chineses residem em Portugal, e no Porto, em concreto?

A nível nacional apontamos para 35 mil chineses, e no Norte – refiro-me às regiões de Coimbra para cima -, entre os 10 a 12 mil.

A maior parte da comunidade chinesa em Portugal está ligada à área do comércio?

Ao comércio e à prestação de serviços como trabalhadores. As nossas lojas e armazéns têm trabalhadores chineses e portugueses.

O início desta imigração, digamos que em maior percentagem, deu-se no século passado, mais concretamente na década de 80. Verdade?

Mais na década de 90… 2000. Foi na altura da legalização extraordinária. E depois deu um grande salto com a aprovação do Gold Visa.

De início, foi, por certo, a restauração o setor em que os chineses mais apostaram?!

Sim. Até à década de 80 do século passado. A partir daí, foram as revendas ainda que em pouca percentagem. Depois desenvolveu-se o setor comercial com a criação das lojas.

Mas, foi com restaurantes que os chineses iniciaram, por cá, as suas atividades…

…antes dos restaurantes, na época dos meus avós, dos anos 50 até aos 70, foram as fábricas de gravatas, das malas e dos tecidos etc. Daí surgiram os restaurantes, e dos restaurantes o comércio e de seguida a prestação de serviços, isto já com a segunda geração.

AS ENTIDADES OFICIAIS CHINESAS TÊM DADO APOIO NO ENVIO DE PRODUTOS DE PREVENÇÃO

A pandemia tem complicado, com certeza, a atividade profissional dos chineses, até que ponto?

Sim, porque, agora, as lojas estão obrigadas a fechar. Os restaurantes, a única coisa que podem fazer é o take away, mas com uma diminuição muito acentuada de clientes. A situação tem vindo a agravar-se e tem prejudicado muito o setor.

A Liga dos Chineses em Portugal, da qual é presidente, tem recebido reclamações?

Reclamações há sempre, mas como grande parte são empresários, não precisam de muitos apoios. Esses pedidos surgem, principalmente, por parte dos trabalhadores. As entidades oficiais chinesas têm dado apoios, que se podem traduzir na prestação de serviços médicos e o envio de produtos de prevenção, como máscaras e tudo o resto. E também têm dado algum dinheiro para ajudar os pequenos empresários e as pessoas que vivem dificuldades.

Já há gerações que se encontram por cá, que são mais portugueses que chineses, como o seu caso, por exemplo(risos)

Neste momento já se pode contar com quatro gerações de chineses em Portugal, Da segunda à terceira geração, já cá estão a viver e dedicam-se a uma profissão diferente da do comércio. A quarta geração é formada, essencialmente, por estudantes.

Quais as profissões escolhidas pelos chineses da segunda à terceira geração?

Geralmente depende dos estudos que eles desenvolveram. Há muitos médicos, advogados, economistas, gente pronta para desenvolver o turismo, com a criação de agências de viagens, assim como com a medicina tradicional chinesa.

Acaba de falar num aspeto interessante: o turismo. Há interesse por Portugal nesse sentido?

O turismo é muito bom, mas neste momento, com a crise…

..mas, antes da crise pandémica.

Antes da crise, vinham bastantes chineses visitar Portugal, mas, mesmo assim, em número muito reduzido, se o compararmos a destinos como Espanha, França ou Itália. Portugal tem ainda muito trabalho para fazer nesse sentido.

A CHINA TEM DADO MUITA IMPORTÂNCIA À RELAÇÃO DE AMIZADE COM PORTUGAL

Como é que, de momento, se encontram as relações entre a Portugal e a China?

As relações entre Portugal e a China estão muito bem, como acontece também da relação de Portugal com Macau. A China tem dado muita importância à relação de amizade com Portugal, isso já não acontece, por exemplo, com Hong Kong, porque têm os americanos e os ingleses a seu lado, e por isso é que se viram por lá aquelas manifestações contra o Governo chinês.

Portugal é um país a ter em conta nas relações da China com o exterior?

Sim. Acho inclusive que o Governo português pode aproveitar mais essa confiança, ainda que Portugal não tenha um peso tão grande quanto a França e a Itália, mas em termos de relações Portugal pode fazer mais coisas em prol desse desenvolvimento.

CRIÁMOS A CÂMARA DE COMÉRCIO PORTUGAL-CHINA PARA PODERMOS DESENVOLVER O NEGÓCIO DOS PEQUENOS E MÉDIOS EMPRESÁRIOS NA CHINA

E como é que está a funcionar a recém-criada Câmara do Comércio Portuga-China para pequenas e Médias Empresas, da qual foi fundador e é presidente do Conselho Executivo?

A Câmara do Comércio Portugal China (CCPC-PME) foi criada a pedido de muitos pequenos, médios e até microempresários, porque as minhas relações com os empresários é mais baseada nesse setor, ou seja, no setor comercial, isto embora exista uma Câmara de Comércio luso-chinesa há quarenta anos, mas os empresários não sentiram, até hoje, o seu efeito. Foi, assim, e tendo em conta essa realidade, que criámos uma Câmara de Comércio Portugal-China para podermos desenvolver o negócio dos pequenos e médios empresários na China, o mesmo acontecendo com pequenas e médias empresas chinesas que se queiram internacionalizar.

Neste momento, e com cerca de meia dúzia de meses de existência – o que é pouco tempo para uma associação se afirmar – podemos contar já com um trabalho feito pela Liga dos Chineses, o qual se traduz numa excelente relação com a China e os seus poderes locais. A CCPC-PME conta, na prática, com a participação de muitas entidades portuguesas locais, associações empresariais, universidades e comunidades intermunicipais, e depois muitas personalidades, também portuguesas, que gostariam de ter relações com a China.

Trata-se de uma ação de relacionamento direto com a China, através do trabalho de uma só associação, e sem morosas questões burocráticas?!

Nós, não queremos falar com o ministro. Nós queremos logo falar com o diretor do departamento de uma determinada cidade chinesa. É mais direto; mais interessante e é mais frutuoso.

EM PORTUGAL NÃO HÁ UMA DISCRIMINAÇÃO GERAL, MAS, HÁ DISCRIMINAÇÃO!

Para além da pandemia, quais são os principais problemas que a comunidade chinesa levanta junto da Liga?

Antes de tudo, é de referir que a comunidade chinesa está bem integrada na sociedade portuguesa, ainda que apareça sempre algum problema para se resolver. Dos problemas que nos chegam, aparece, de vez em quando, alguém a queixar-se de ter sido discriminado; há também casos que nos apresentam de conflito entre senhorio e arrendatário; como ainda problemas entre funcionários e conflitos entre fornecedores e clientes. É neste sentido – e destacando as questões de conflito ligadas ao setor comercial -, que a CCPC pode resolver algumas dessas situações, pois tem no seu seio muitos advogados, criando, para o efeito, o “Centro do Conflito” para ver se se consegue resolver esse tipo de problemas, que embora sejam pouco preocupantes são sempre aborrecidos.

Falou em “discriminação”… isso é grave!

Não é uma discriminação geral! É uma discriminação particular, pessoal, ou seja, dirigida a determinado chinês. Mas, há sempre discriminação, porque não posso dizer que todos os portugueses não tenham um sentido discriminatório. Há discriminação!

Voltando à Câmara do Comércio Portugal China. Com quantos associados conta?

A Câmara do Comércio Portugal-China, com sete meses de existência, tem cerca de cinquenta associados portugueses, e setenta e tal de chineses. Gostaria, entretanto, de ter mais associados portugueses que chineses. Tipo 60 por cento de portuguese e os restantes 40 de chineses. Como temos uma relação mais próxima com a China, e não vamos aceitar muitos associados porque ao pagarem as quotas querem apoios, e, neste momento, não temos capacidade de dar esses apoios a muita e diversa gente. Preferimos estarmos mais limitados, ter no fundo um leque de associados reduzido, e assim tentar criar mais facilmente oportunidades de negócios. Será mais fácil trabalhar assim.

TEMOS, NA CCPC, UM «CONSELHO ESTRATÉGICO» QUE É PRESIDIDO PELO CEO DO BANCO BISON, DE CAPITAL CHINÊS

Foto: pesquisa Web

Em termos culturais, ou seja, de iniciativas artísticas e respetivos intercâmbios entre os dois países, a situação pode considerar-se positiva?

A comunidade chinesa tem muitas associações culturais em Portugal. Tem associações locais, regionais e nacionais. A Câmara de Comércio Portugal-China tem também um departamento cultural que é dirigido pelo presidente de uma associação chinesa, e que serve para desenvolver as relações entre os dois países. Como esse, temos outros departamentos: o departamento jurídico, criado por sócios advogados, temos nove na CCPC; o departamento de comércio e turismo, e temos um setor de estudo de fundos de investimento, porque a CCPC tem dois órgãos centrais principais. Um, que é o Conselho de Administração, e tem o Conselho Estratégico que é um órgão que tem uma função de execução e estudo, que é presidido pelo CEO do Banco Bison, banco esse que é de capital chinês, e tem sede em Lisboa. Eu, sou presidente do Conselho Executivo…

… e está a gostar do trabalho que está a desenvolver?

Gostei sempre do trabalho associativo, porque além do trabalho que desenvolvo na CCPC, sou também, como sabe, presidente da Liga dos Chineses em Portugal, e também presidente da Câmara de Cooperação e Desenvolvimento Portugal-China, como ainda sou representante da comunidade chinesa no Alto Comissariado, no Conselho Consultivo do Imigrantes.

HÁ JOVENS CHINESES QUE FICAM POR CÁ E SÃO, NA MAIORIA, ESTUDANTES

É caso para dizer que você não pára! E não pára, pelos vistos, desde que ao Porto chegou, com sete anos de idade…

Verdade! (risos) Sou mais português que chinês!

Mas, vai com frequência à China?!

No ano passado, não fui nenhuma vez. Este ano, não sei se vou, mas em 2019 fui lá três vezes, em 2018, quatro vezes. Uma média de três a quatro vezes por ano…

Mantém sempre a ligação ao seu país natal.

Ah! Também já fui conselheiro político da província de Zhejiang.

Os jovens que chegam cá, a maioria para estudar, com que ideia ficam do nosso país, depois de regressarem à China?

Há jovens que ficam por cá, e são, na maioria, estudantes. Por acaso, nesse setor, temos poucos contactos. Mas, há algumas associações estudantis formadas por chineses, nós é que não temos com elas grandes contactos. Poderá ser, num futuro próximo, importante arranjarmos algum estudante que tenha interesse de formar um departamento para esse setor de atividade. Essa é, sem dúvida, uma ideia interessante! A juventude é muito importante…

VARZIELA É O CENTRO COMERCIAL MAIS IMPORTANTE DA COMUNIDADE CHINESA RADICADA EM PORTUGAL

Armazéns e lojas chinesas em Varziela – pesquisa Web

No que a empresas diz respeito, Varziela, no concelho de Vila do Conde, é, praticamente, a capital dos chineses em Portugal?!

Varziela é o centro comercial mais importante da comunidade chinesa radicada em Portugal, embora existam vários focos de grupos de empresas chinesas em outros pontos de Portugal, como em Lisboa, ou no Porto Alto (freguesia de Samora Correia, concelho de Benavente), mas, o mais importante, ainda assim, é Varziela.

E que tipo de produtos lá se encontram armazenados para venda?

São os produtos de moda e de utensílios. Existem, em Varziela, duzentas e tal empresas sediadas em armazéns que vendem sapatos, cintos, malas, bijuterias, roupas, etc. E, depois, também há supermercado de produtos chineses destinados, essencialmente, à nossa comunidade; agência de viagens; agente alfandegário; escolas; cabeleireiros; massagista; e templos budistas e de cristianismo…

E deve também ter alguém relacionado e formado em medicina chinesa?

Também tem.

É uma celulazinha de Pequim em Portugal?

Não! Já é uma aldeia chinesa…

Por que razão foram parar a Varziela?

Foram para Varziela, porque, na altura – anos 90 do século passado –, ou seja, antes de entrarem os chineses, Varziela era uma zona industrial morta. Apareceu lá, então, o primeiro chinês, que criou o seu primeiro negócio com um armazém, porque a renda era barata. A partir daí começaram a aparecer mais chineses. Por exemplo, os chineses que tinham armazéns na Rua Cimo de Vila, e na Rua Chã, aqui no Porto, passaram todos para lá… para Varziela. Lá há melhores acessos, tem melhor estacionamento, a renda é muito mais barata, e há mais facilidade para encontrar grandes espaços.

E vai lá muita gente às compras?

Sim. Por exemplo, para roupa há lá muitos armazéns. Até vem mesmo muitos clientes de Espanha, mais concretamente, da Galiza. Varziela é o centro de revenda dos produtos de Portugal inteiro e da Galiza. Lá também há várias associações chinesas, e há, automaticamente, associados da CCPC.

ESTAMOS A ASSINAR PROTOCOLOS COM A COMUNIDADE INTERMUNICIPAL PORTUGUESA (…) COM ISSO, NÃO VAMOS DAR DINHEIRO ÀS CÂMARAS MUNICIPAIS, VAMOS, ISSO SIM, PROCURAR NEGÓCIOS PARA SEREM DESENVOLVIDOS CONJUNTAMENTE

Quais são os objetivos, a curto ou a médio prazo, que gostaria de ver concretizados?

A CCPC tem sete meses. Neste momento preparamo-nos para assinar protocolos com a comunidade intermunicipal portuguesa. Já assinámos com Baixo Tejo, vamos assinar com a região do Oeste, estamos a tratar com a Beira e a Serra da Estrela, e depois será Trás-os-Montes. Depois de assinarmos os protocolos, temos de fazer alguma coisa, pelo que, durante este ano, vamos criar um gabinete de trabalho destinado à comunidade intermunicipal, de modo a podermos saber, exatamente, o que é que preciso? Como é que nos podemos relacionar? Porque nós, falando claramente, não vamos dar dinheiro às câmaras municipais, vamos, isso sim, procurar negócios para serem desenvolvidos conjuntamente com as região, as quais não têm, atualmente, acesso às empresas chinesas, e não têm capacidade de atraia investimento se não tiverem um bom projeto e um bom programa, e é isso que estamos a fazer.

Temos ainda, protocolos com universidades, como com a de Coimbra, e com a do Porto. A nossa intenção de criar esses protocolos com universidades, prende-se com o facto de, por exemplo, elas necessitarem de residências para os universitários. Assim sendo, e pensando nos nossos associados,  com um fundo, são capazes de investir nessas residências estudantis. Isso irá beneficiar as universidades, assim como os nossos associados. Há também empresas que podem trazer estudantes chineses para essas universidades. Estamos a tentar criar um negócio para este dois tipos de associados: o associado investidor imobiliário, e o associado prestador de serviços aos estudantes. Estamos também a desenvolver negócios, por exemplo, para os advogados através do nosso gabinete para os Conflitos, que podem vir a ter clientes chineses, e os clientes chineses podem beneficiar da confiança e do trabalho da CCPC, com preços mais baratos.

E… há mais?!

Estamos ainda a tentar criar uma empresa de representações para vender produtos para a China. Os nossos associados têm empresas que querem vender produtos para a China, e através da nossa Câmara, podem chegar, facilmente, ao contacto com empresas chinesas que querem vender produtos portugueses. E, ao mesmo tempo, vamos tentar formar uma empresa de representação dos produtos chineses que, com o nosso representante, neste momento, já está diversificado em quinze províncias chinesas, que é como quem diz, em «trinta Portugal». Portanto, podemos ter aí uma representação oficial e vender esses produtos às empresas chinesas.

QUEREMOS QUE A CCPC SEJA RECONHECIDA PELO GOVERNO PORTUGUÊS E VENHA A TER O ESTATUTO DE UTILIDADE PÚBLICA

As autoridades chinesas como encaram este desenvolvimento?

Aquando da inauguração da CCPC recebemos a felicitação da Embaixada da China e do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, isso quer dizer que temos o reconhecimento e acham que a nossa instituição é necessária. Recentemente, fui nomeado como se fosse um embaixador de uma cidade chinesa, que tem quatro milhões de habitantes, para poder levar os produtos portugueses. Um tipo de start up a desenvolver naquela região. Temos muito boas relações com a China! Precisamos, contudo, de ter os apoios das entidades portuguesas, e quando me refiro a «apoios», refiro-me a apoios concretos. É o reconhecimento da CCPC como se fosse de utilidade pública, embora que ainda não tenhamos capacidade para pedir esse estatuto, mas é um passo que queremos dar.

A CÂMARA DE COMÉRCIO INDÚSTRIA LUSO-CHINESA POUCO FAZ, EM CONCRETO, PELAS EMPRESAS PORTUGUESAS…

Poderão ser, assim, um veículo privilegiado nas relações Portugal-China?

Gostaria de ser, mas para isso teremos de trabalhar muito. Também temos que ter a confiança dos empresários, por isso, como disse, não queremos muitos sócios; e isto para, com menos sócios, lhes poder arranjar negócios.

Como que a criação de um núcleo forte…

É nisso que Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa falha! O que eles fazem são muitas conferências; fazem um jantar final muito bonito; vão participando nas viagens do Presidente da República e do primeiro-ministro… têm notoriedade, mas nada mais do que isso. De resto, pouco fazem de concreto pelas empresas portuguesas. Nós não vamos participar nessas viagens do Presidente da República, o que queremos é que o Governo português reconheça a importância da CCPC; reconheça o nosso trabalho e poder apoiar dentro dos possíveis as nossas ações. Não vamos querer apoios traduzidos em dinheiro. Não! Queremos, isso sim, facilidades de contacto. Por exemplo: quando surgir um projeto… um programa, podermos ter mais facilidade de contactar as entidades oficiais, e não estar a pedir audiências para, na melhor das hipóteses, só daqui a um ano sermos recebidos. Isso não resolve os problemas.

E a Liga dos Chineses em Portugal?

A liga tem uma função diferente. A Liga dá credibilidade à comunidade chinesa; zela pela sua boa integração; defende-a quando alguém for alvo de discriminação e tenta, assim, apoiar os chineses que se encontrem em dificuldade. Agora, tanto quanto à Liga como à CCPC, queremos juntar, misturar, empresários portugueses e chineses embora se registem dificuldades, a começar pela língua, pelo pensamento e pela confiança, porque, neste momento, ainda há pouca confiança entre o empresário chinês membro da CCPC e o empresário português também ele membro da CCPC. Podem chegar a contactos através da minha pessoa, mas não se conhecem, e, assim, não estão misturados. Era bom que se misturassem… que se conhecessem diretamente e não precisassem de mim como intermediário.

A LÍNGUA PORTUGUESA ESTÁ BEM DESENVOLVIDA NAS UNIVERSIDADES CHINESAS

Falou na barreira da língua, mas, pelo que sei, há cada vez mais pessoas interessadas em aprender mandarim.

É verdade. Aprendendo mandarim podem abrir-se muitas portas. Abrir portas comerciais e de relações internacionais. A cultura chinesa é milenar, e quem a estudar pode aprender muito.

E há interesse dos chineses na língua portuguesa, que também é falado por milhões?

A língua portuguesa está bem desenvolvida nas Universidades chinesas, tendo em conta não só Portugal, mas, essencialmente, a importância das relações com, por exemplo, o Brasil e Angola.

HOJE EM DIA, NO PORTO, O NÚMERO DE RESTAURANTES CHINESES NÃO ULTRAPASSA A MEIA-DÚZIA

E a gastronomia, que também é cultura, está menos representada no Porto, já que diminuiu, a olhos vistos, o número de restaurantes chineses, e isto, já antes da pandemia.

Diminuiu, realmente, o número de restaurantes por exigências feitas pela ASAE. Essa diminuição deve-se também ao custo das refeições e à média do número de clientes, a qual estava por baixo de valor sustentável. Grande parte dos restaurantes que fecharam eram geridos por famílias: o marido trabalha na cozinha, a mulher serve à mesa. Se o negócio começar bem, não haverá problema. Agora, se começar mal, não há hipótese.

O primeiro restaurante chinês no Porto, foi o da Rua de Passos Manuel, ou o que se encontra junto à ponte Luiz I.?

Foi o junto à ponte. O da rua de Passos Manuel foi o terceiro. Este, onde nos encontramos, foi o segundo.

E, hoje em dia, quantos restaurantes chineses temos na cidade do Porto?

Não deve ultrapassar a meia-dúzia.

Mas, perderam clientela por que razão? Isto, repito, ainda antes dos problemas e condicionalismos criados pela Covid…

Nós, no Porto, trabalhamos com pessoas com uma média de idades de 40 a 50 anos. Os pais vieram, trouxeram os filhos. Os filhos cresceram e continuam a vir e trazem os seus filhos. Portanto, há uma continuidade de gerações a ter em conta. Agora, a verdade é que há menos turistas, e isso também conta. Portanto, trabalhamos sempre com muitos turistas e, consequentemente, com uma camada de clientes mais nova…

Os preços continuam a ser acessíveis?

Posso dizer que neste restaurante de primeira, o preço é de terceira.

AS NOSSAS LOJAS NÃO TÊM, AO CONTRÁRIO DO QUE MUITOS PENSAM, O APOIO DO GOVERNO CHINÊS PARA A VENDA DOS SEUS PRODUTOS.

Foto: pesquisa Web

Depois abriram, então, as lojas de comércio que foi uma verdadeira atração devido aos preços, mas houve sempre algumas reparos quanto à qualidade dos produtos…

As lojas foram atração, mas também deram uma imagem um pouco errada devido, como disse, ao facto de os preços dos produtos serem muito baratos, o que levou as pessoas a pensar que os mesmos não prestavam. E não era, nem é, verdade! Por exemplo, um português que vai comprar produtos a um armazém, vai comprar, imaginemos, 100 e pagam logo 100, e depois tem de os vender a 200 para poder ter lucro. O chinês que vai a esse armazém comprar 100 traz 130 e como não tem de pagar imediatamente, só tem, assim, de se preocupar em vender depressa esse produto, para pagar 100 e ficar com 30. Isto é uma diferença muito grande, e os portugueses não a compreendem. Atenção que as lojas chinesas, ao contrário do que muita gente pensa, não têm o apoio do Governo chinês para vender os seus produtos. O Governo chinês também não dá nada a ninguém! (risos) Bem, neste momento está a apoiar as pessoas em dificuldade devido à Covid, assim como acontece com o Governo português.

SEGUNDO RECENTES ESTUDOS, O VÍRUS TERÁ APARECIDO EM FRANÇA OU NOS ESTADOS UNIDOS, MUITO ANTES DE TER SURGIDO NA NOSSA PROVÍNCIA DE WUHAN… SÓ QUE NA CHINA TEVE MAIS DIVULGAÇÃO

Wuhan – cidade (foto: pesquisa web)

E já que falamos na Covid, a verdade é que quando se trata este assunto, a China é chamada à coação, pelo facto de lá ter aparecido e se ter propagado o vírus, ainda que isso ainda não esteja, devidamente, comprovado, isso tem afetado a reação dos portugueses para tudo quanto é chinês?

Não tem afetado muito, a não ser a pessoas de pouco conhecimento. Os americanos têm uma influência muito grande sobre Portugal. Aliás, eles querem, através da Embaixada, forçar Portugal a expulsar o Huawey. Os americanos, com a sua máquina de propaganda, foram insistentemente dizendo que o vírus era chinês, pelo que originou algum ceticismo em alguns portugueses. Para os americanos, quando acontece algo de especial, a culpa é sempre dos chineses! Quanto ao novo coronavírus, antes do que aconteceu em Wuhan – que a China divulgou no mês de janeiro de 2020 – sabe-se, com as investigações que têm sido desenvolvidas por parte da OMS, que o vírus já tinha surgido na França, na América ou em outro lado, muito antes… já em setembro, ou outubro de 2019. Mas, como Wuhan concentra mais gente houve uma maior divulgação quanto ao surgimento do novo coronavírus. Quantas pessoas tiveram sintomas em Wuhan? Não passou de 100 mil. E a província de Wuhan tem 10 milhões de habitantes, e muita gente desconhece isso. Recorde-se que o Governo chinês fechou de imediato a cidade e a província ao exterior. Fechou… mesmo! Não houve protestos, porque toda a gente aceita a orientação…

… que remédio!

Aqui, em Portugal, não! Se não usar máscara paga mil euros; as pessoas não têm mil euros, enfim..”

Os regimes são diferentes. Lá o rigor é maior…

Tem de ser! Com tanta gente; com tanta diversidade. De província para província há diferenças muito grandes. Há línguas diferentes, culturas diferentes…

O mandarim é só a língua oficial da China.

Exatamente, é a língua oficial, mas cada região tem a sua língua, ou seja, dialetos.

A MAIOR PARTE DOS IMIGRANTES CHINESES EM PORTUGAL SÃO DA PROVÍNCIA DE ZHEJIANG

Os chineses que imigram para Portugal vêm, principalmente de que província da China?

Foi da província de Zhejiang que vieram os primeiros chineses, mesmo antes da legalização extraordinária e de maior fluxo imigrante. Atualmente, ainda devem ser os imigrantes desta província que chegam em maior número a Portugal, talvez entre 30 a 35 por cento dos imigrantes chineses. Zhejiang é uma província no litoral e de lá partiram os primeiros imigrantes para Portugal. Em outras províncias chinesas o rumo foi para outros países da Europa. Os meu pais, por exemplo, tem trazido muita gente da aldeia para aqui. De Zhejijan para Portugal. Os novos imigrantes não têm família, podem ter irmãos etc. mas ainda não têm família formada.

E são esses os chineses que o contactam…

Sim. Além de gostar do trabalho associativo, sinto uma obrigação para com a comunidade a que, no fundo, pertenço. Obrigação essa que advém do facto de ser um dos chineses mais antigos em Portugal. Sou um chinês que estou cá, e dos, da minha idade, que fala melhor a língua portuguesa.

“ERA IMPORTANTE VOLTAR A TER, NA CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO, O CONSELHO DE IMIGRANTES…”

E como também conhece muitas pessoas, essas pessoas, por uma questão de segurança; de apoio, de si se abeiram…

Sim.

E por falar de apoio, falamos em informação que pode também chegar através dos jornais, da comunicação social…

Em Lisboa, há uma empresa especializada nisso e estão a trabalhar connosco.

E qual é a vossa relação com a Câmara Municipal do Porto?

Temos relações com o presidente, Rui Moreira. Na altura em que o presidente era Rui Rio, e o vice-presidente era o doutor Paulo de Morais, ele, o vice-presidente, criou um conselho dos imigrantes dentro da Câmara. Se os imigrantes forem, por assim dizer, bem aproveitados e bem tratados, eles serão uma força muito importante em prol do desenvolvimento. Nesse conselho participavam, então, associações ucranianas, cabo-verdianas, brasileiras, chinesas, etc. Era uma boa ideia que a Câmara do Porto voltasse a ter, como já teve, um conselho municipal para as comunidades imigrantes. Ficávamos todos a ganha! E a Liga dos Chineses em Portugal apoiava a ideia de imediato. Penso que se essas associações forem bem apoiadas podem trazer muito investimento para a região. Agora, não há esse conselho! Tenho a certeza que além da nossa Liga também as outras associações de imigrantes apoiarão esse conselho. O Porto pode, assim, ficar, oficialmente, mais multicultural e pode atrair muitos mais turistas e investidores. O que é que as associações necessitam? Essas associações necessitam de ter uma maior estrutura. Se conseguirem ter, como por exemplo, uma Loja dos Imigrantes a funcionar como a Loja do Cidadão, eles para lá irão dar a conhecer e desenvolver a sua cultura e os seus mais diversos contactos. Isso era muito interessante…

 

01mar21

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