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“Árvore da Biblioteca de Ovar” (com tantas histórias para contar) foi classificada “de interesse público”

O edifício em que funciona a Biblioteca Municipal de Ovar (BMO), inaugurada em maio de 1997, um projeto do arquiteto João Rapagão, a que se veio a juntar mais tarde a construção do Centro de Artes de Ovar (CAO), tem na sua envolvente paisagística, uma árvore, Erytrina Crista-Galli, nome comum “Feijoeiro-da-Índia”, uma espécie originária da América do Sul, pouco frequente no nosso país, que, ao longo de duas décadas, tem encontrado na paisagem verde em que foi semeada (1997), entre livros e toda a oferta cultural que se vive naqueles equipamentos públicos no Parque Senhora da Graça, a força e a pujança, para renascer de momentos, como os que sucumbiu, quebrando com excesso de peso. Capítulos de tantas histórias para contar da “Árvore da Biblioteca”, que foi recentemente classificada como “de interesse Público no Diário da Republica a 2 de Março.

O processo de candidatura iniciado em 2017 pela Associação Amigos do Cáster, cujos argumentos para a preservação deste exemplar, de nome comum “Feijoeiro-da-Índia”, foram baseados na informação recolhida junto da Diretora da Biblioteca Municipal de Ovar, Ângela Castro e Raquel Lopes, Bióloga da Universidade de Aveiro e investigadora sobre árvores monumentais portuguesas. Foi entretanto reconhecido ao ser publicada em Diário da República a decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) que a classificou como árvore de interesse público.

Foto de José Luís Monteiro

Foram ainda justificados atributos deste exemplar, como os que são realçados na nota em que a Associação Amigos do Cáster manifesta a sua satisfação pela classificação de interesse público, como, “as grandes dimensões da árvore, a sua bonita floração, a singularidade da sua forma, o facto de ser uma espécie pouco comum no nosso país e a característica de uma pernada da “arvore mãe” ter caído, enraizado no solo e dado origem a novo exemplar (…)”, que justificaram a decisão da classificação pelo ICNF, que, é também, “uma responsabilidade acrescida para todos, que devemos zelar pela sua proteção e conservação”, é ainda afirmado.

Segundo testemunhos da Diretora da Biblioteca Municipal de Ovar, Ângela Castro, expostos na candidatura sobre a “Árvore da Biblioteca” Erytrina Crista-Gali, que acompanha desde a inauguração da BMO a 3 de Maio de 1997, em que, “para aqui veio, pequena, num vaso. Leigos na matéria, não antevíamos, então, a beleza desta escolha da Arquiteta Paisagista responsável. Tombada, esteve na iminência de ser cortada como várias outras árvores caídas nessa noite mas, em boa hora, foi-lhe dada uma nova oportunidade e o resultado esta? a? vista, aliás, a sua beleza e originalidade decorrem, também, da curvatura acrescentada pela tormenta que, na Primavera/Verão, a transforma num imenso guarda-sol verde, salpicado de vermelho, tão apreciado por miúdos e graúdos e muito fotografado por quantos nos visitam, porque árvores como a nossa não se encontram em todo o lado”.

A Associação Amigos do Cáster reconhece ainda a colaboração da Bióloga da Universidade de Aveiro, Raquel Lopes, destacando como “um incentivo muito importante para efetuarmos esta candidatura”, com os contributos desta investigadora “sobre árvores monumentais portuguesas, que considerou esta árvore um bonito exemplar e com características dignas para se poder classificar como exemplar de interesse público”.

Entre os capítulos da história invulgar desta árvore, com a forma peculiar que hoje apresenta este exemplar de Feijoeiro-da-Índia, foi ainda referido “o último acidente natural que sofreu, a quebra de um dos seus ramos, devido à tempestade ocorrida a 20 de Maio de 2017 que se fez sentir em Ovar com ventos muito fortes, a Erytrina crista-galli não só conseguiu sobreviver, como o ramo arrancado pelo vento e mantido no local, na proximidade da árvore-mãe, para onde caiu, ganhou rebentos novos e dele nasceu um ramo que cresceu, originando uma pequena árvore “filha” por um processo de multiplicação vegetativa que não é frequente verificar em árvores”.

Estes foram elementos justificativos da candidatura, que, segundo parecer na altura do ICNF, pela “importância determinante na valorização estética do espaço envolvente e dos elementos naturais e arquitetónicos e pelo insólito, deve ser assegurada a classificação de interesse público deste exemplar”, considerando o referido exemplar “em vias de classificação, beneficiando de uma zona geral de proteção de 20 metros, nos termos da legislação de suporte ao estatuto de Árvore de Interesse Público”, como consta em Diário da República.

Carinhosamente tratada por “a nossa Galli” a “Árvore da Biblioteca” ou ainda a “das sete vidas”, que merece aliás uma “ficha técnica/cientifica” na BMO, permitindo saber tudo sobre esta árvore, que se tornou também personagem de uma história contada pela escritora nascida em Ovar, Almira Soares, em que a certa altura escreve no seu sítio online “Scriptorium”: “Não sou muito alta nem muito gorda e tenho uma forte inclinação por aquilo que me rodeia. Vivo quase deitada sobre a terra. Acidentes de percurso, de que mais à frente vos darei conta, fizeram com que o meu tronco principal, antes tão aprumado, ficasse numa posição quase paralela ao chão. Mas não me queixo. Deste modo, fiquei mais próxima das crianças e dos olhos dos que passam por mim ou param à minha beira. Não sou uma árvore que foge para o céu; sou uma árvore que quase abraça a terra e as pessoas. As minhas flores são tão vermelhas que até parece que a minha seiva, corada da alegria de fruir o sol, ficou da cor do sangue vivo!(…)”. A história termina com um “Viva a Biblioteca que tem uma Árvore, eu! E olhem que eu existo mesmo e a minha história é verdadeira. Se quiserem, podem cá vir visitar-me. Terei muito gosto em vos receber”.

Para assinalar tal classificação “de interesse Público”, mesmo em tempos de pandemia, só faltou mesmo a “Arvore da Biblioteca” se ter “vestido” com toda a sua bonita floração, contrastando com o cenário que nesta época final de inverno a deixou “despida” da beleza que a carateriza. Mas a primavera está aí.

 

Texto: José Lopes

Fotos: José Lopes e Facebook/Ângela Castro

 

01abr21

 

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