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As Fontes e Chafarizes do Bonfim – (2) – O Chafariz da Biblioteca Pública Municipal do Porto

Maximina Girão Ribeiro

 

Quem circula na zona de S. Lázaro depara-se com um edifício grandioso que se localiza entre a avenida Rodrigues de Freitas, a rua de D. João IV e a rua Morgado Mateus. A fachada principal, corresponde à segunda metade do século XVIII e fica virada para o Jardim de S. Lázaro.

Edifício da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP)

Trata-se de um imóvel que se destaca pela sua sobriedade e uma total depuração arquitectónica e decorativa. Estamos perante o edifício que alberga, desde 1842, a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP), fundada em 1833 por ordem de D. Pedro IV recebendo, na altura, o nome de Real Biblioteca Pública da Cidade do Porto. Este edifício foi construído para ser um convento e, curiosamente, foi o último convento que se construiu na cidade do Porto.

Parte superior do edifício da BPMP

A história deste convento remonta ao ano de 1778 quando, por alvará da rainha D. Maria I é dada autorização aos Religiosos Menores Reformados da Província da Imaculada Conceição, também conhecidos por Capuchos da Província da Conceição para fundarem um hospício, a fim de servir de recolhimento para velhos e doentes.

Em 1783, estes Frades Menores Reformados de São Francisco deram início à obra de construção de um convento dedicado a Santo António. Assim, nasce o Convento de Santo António da Cidade, fundado pelos religiosos franciscanos e construído numa propriedade já com algumas casas e capela, no campo de São Lázaro.

Escrevia o Padre Agostinho Rebelo da Costa, em 1788, que este convento poderia vir a ser um dos maiores conventos da cidade. Contudo, as obras prolongaram-se por longas décadas e, em 1834, ano do decreto que estabelecia a Extinção das Ordens Religiosas Regulares Masculinas, o edifício em causa, ainda não estava totalmente concluído.

Convento de Santo António da Cidade, em 1833 (desenho de J. Vilanova)

Os religiosos que já habitavam uma parte do edifício, tiveram que abandonar o convento e, depois de 1834, a história do imóvel é essencialmente a história da Biblioteca Pública Municipal do Porto que, nestas instalações, funciona até aos nossos dias.

Do antigo convento resta apenas o edifício, uma vez que a igreja foi demolida.

Nesta temática que estamos a desenvolver, realçamos o Chafariz que se encontra na BPMP e se localiza no claustro do piso térreo. Posicionado no centro do claustro, ostenta a data de 1789 e destaca-se pela sua monumentalidade, aliada a um gracioso talhe da pedra. Este chafariz não é originário deste convento, pois foi deslocado do convento feminino de Santa Clara, no Porto.

Chafariz da Biblioteca Pública Municipal do Porto

O Chafariz assenta numa base de fino recorte, constituído por formas arredondadas em semicírculos e formas pontiagudas. O tanque com água replica as mesmas formas que se encontram na base assente no chão, apresentando como decoração pequenas almofadas recortadas nas formas geométricas do tanque.

No centro do tanque existe um plinto onde pousa uma espécie de bolbo de grande dimensão, ornamentado com folhas longas de acanto. É nesta peça que está colocada uma taça com carrancas que, vista de acima, apresenta os mesmos recortes da base e do próprio tanque.

Desta taça que jorra água no tanque, através de quatro carrancas, plasticamente bem trabalhadas e localizadas, cada uma, nas partes arredondadas. Segue-se uma coluna trabalhada com motivos vegetalistas, que sustenta igualmente um conjunto de carrancas que vertem água para a taça. O conjunto termina com um pináculo arredondado que sai de uma espécie de corola.

A peça aqui sucintamente descrita, cuja feição artística é relevante, teve também uma função utilitária.

Pormenor parte superior do chafariz

Geralmente, a água dos conventos era privada, destinando-se à utilização dos frades. Mas, o fornecimento ao público de uma parte da água, pela grande necessidade de abastecimento à população circundante, permitiu que muitos dos chafarizes particulares, nomeadamente os que se localizavam nos conventos, como este, servissem igualmente para uso público.

O chafariz em causa enriquece o espaço em que se insere, criando um diálogo harmonioso com os janelões de fino recorte, na parte superior e, na parte inferior, limitados por varandins com balaústres.

A água, como bem essencial, não deve ser desperdiçada, muito menos no passado em que este bem precioso era difícil de obter, devido à falta deste líquido nas habitações. Registo um pensamento do poeta brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967):

“Água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba.”

 

Nota Sobre as Fontes e Chafarizes do Porto poderão consultar a obra “As Nossas Memórias – as Fontes do Porto“ (Volumes I e II), trabalho de que sou co-autora com Arminda Santos, Rui Clare e Luís Pacheco, uma colectânea onde encontrarão outras abordagens diferentes, sobre estes equipamentos públicos.

 

Obs – Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Web

 

01abr21

 

 

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