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Associação “Amigos Improváveis” comemora um ano de atividade solidária e… quer continuar na rua! É lá que ajudam quem nela, sem-abrigo, sobrevive, e quem nela reside sem nada para comer

“Servimos 120 a 150 refeições individuais todas as semanas. Para além das refeições damos também um kit básico, com uma sande, um pacote de bolachas, um iogurte e uma peça de fruta. Para além disto, ainda damos 70 a 80 cestas básicas, que são compostas por massa, arroz, açúcar, farinha, leite, atum, salsichas, e também temos algumas dessas cestas destinadas a quem tem crianças”.

As palavras são de José Castilho, responsável pela associação “Amigos Improváveis”, que comemorou, no passado dia 18 de março, um ano de existência, e que, na portuense e central Praça da Batalha, todas as quintas-feiras, e juntamente com 31 colaboradores, está ali para apoiar quem necessita e cada vez são mais os que por lá aparecem.

 

José Gonçalves               Roberto L. Fernando

(texto)                                      (fotos)

 

A pandemia criada pela Covid-19 levou Castilho e a esposa a formarem a “Amigos Improváveis”, iniciando o seu “trabalho solidário”, lá para os lados do Viso, aquando da primeira vaga.

“Eu e a minha esposa decidimos criar esta associação, na primeira vaga da pandemia. Em casa, começámos a fazer cestas básicas para famílias que as iam lá buscar. Moramos perto do Bairro do Viso, em Ramalde, e sabíamos de algumas situações muito complicadas em termos sociais na zona. Só que começamos a ver que a verdadeira necessidade não estava somente nessas famílias, mas também, e mais, na rua. Ou seja, os sem-abrigo é que precisavam realmente da nossa ajuda. E, assim, passámos de casa para a rua”.

Passaram para a rua, e bem, se bem que – como lerão mais à frente – esse ato não seja lá muito do agrado da Câmara Municipal do Porto. Mas, vamos já lá..

Entretanto, e para revelar relevando o crescimento da “Amigos Improváveis”, conta José Castilho que “quando começamos éramos quatro pessoas – eu, a minha esposa, uma cunhada minha, e uma amiga – e dávamos à volta de 70 kits. Na altura só dávamos kits e roupa. Passados três a quatro meses começámos a dar refeições. O número de voluntários começou a aumentar e a chegar ajudas, que anteriormente não tínhamos. A ação contemplava uma média de sete dezenas de pessoas”.

O tempo foi passando, a crise agravando-se e, com ela, o desespero de famílias, muitas delas com todos os seus elementos no desemprego.

“As pessoas que estão aqui não são todas sem-abrigo. Há também as que tinham emprego, trabalhavam na restauração, por exemplo, e que, de momento, estão em casa, sem fonte de rendimento, e vêm aqui buscar a cesta básica para terem alguma coisa para comer em casa”, a nova realidade que José Castilho conta com preocupação, pois o número de “dependentes” continua a aumentar.

VEM CÁ MUITOS ESTUDANTES E NÃO SÓ PORTUGUESES

E a verdade dos factos constata-se todas as quintas-feiras, a partir das 20h30, bem junto ao Cinema Batalha, ou no sopé da Igreja de Santo Ildefonso. Vêm às centenas e “sem complexos, esperam pela sua vez para serem servidos”, mas, e porque a vergonha condiciona sempre os menos audazes, há os pouco ou nunca habituados a estas andanças. ”Tem acontecidos alguns casos, em que nós estamos a fazer o que temos que fazer, e reparamos que há pessoas que estão um pouco arredadas, a olhar… Vamos ter com elas e perguntamos se precisa de alguma coisa; e às vezes dizem ter vergonha e que, na verdade, precisavam de comida, tipo uma cesta básica. O número deste tipo de pessoas tem vindo a aumentar de semana para semana”.

E entre o número de pessoas que tem vindo a crescer, há, segundo José Castilho, “muita juventude. Temos muitos estudantes, não só portugueses… ou seja, muitos estrangeiros que estão cá a estudar. Temos também muita gente que veio para cá, para trabalhar, e com isto da pandemia, tiveram de parar, ficaram sem emprego e nem documentos têm, principalmente as pessoas ligadas à construção civil”.

Estes factos, estas realidades nuas, cruas e duras que afetam a sociedade, tem uma resposta corajosa de José Castilho e esposa, assim como dos colaboradores-voluntários que dão corpo à associação “Amigos Improváveis”. Improvável parece também vir a ser uma ideia da Câmara Municipal do porto em retirar estes voluntários humanistas das ruas do centro da Invicta.

De acordo com José Castilho, “há umas semanas tivemos um senhor da Câmara do Porto, salvo erro de nome Hugo, que veio falar connosco. Não nos veio convidar, ele veio dizer, simplesmente, que como a Câmara tinha três restaurantes solidários, aqui, nesta zona da Praça da Batalha, que nós não podíamos estar aqui. Ou íamos para os restaurantes ajudar a servir as refeições feitas por outros – só refeições quentes – ou, caso contrário, não dava para continuar na “rua2. Questionei-o quanto ao futuro a dar às cestas básicas, kits e roupa que nós oferecemos. Ele foi perentório: lá, são só as refeições. Nesses restaurantes solidários, a Câmara fornece a alimentação – acho muito bem, porque faz o papel dela -, eles despois confecionam, para, a seguir, nós servimo-las. Se fossem fazer isso perderíamos a essência desta associação, ou seja ajudar os invisíveis para a sociedade., como são os sem-abrigo, a quem damos também palavras de apoio moral…”, que são, sem dúvida, importantes.

E importante é também a opinião de José Castilho ainda em relação à situação colocada pela autarquia, já que ele acha “que a Câmara, antes de tomar esta atitude, devia ter juntado todas as associações, que como nós estão na rua a dar apoio a quem precisa. É que nós estamos no terreno e sabemos como se processam as coisas, pelo que deviam perguntar a nossa opinião sobre o assunto que pensam tomar. No fundo, saber o que é que nós achávamos! Mas, não:

A CÂMARA TAMBÉM PODE ATUAR EM OUTRAS ZONAS DA CIDADE E QUE ESTÃO ESCONDIDAS. NÃO SÃO ZONAS TURÍSTICAS MAS TAMBÉM TÊM PESSOAS NECESSITADAS

Em dia de (primeiro) aniversário, não se esperava prenda destas da edilidade, seja como for, a verdade, é que “a Câmara não nos voltou a contactar. Foi esse senhor Hugo que falou connosco, e mais ninguém! Depois disse que o pároco do Marquês iria entrar em contacto connosco, mas até ao momento, nada!”, revela o líder da “Amigos Improváveis” que salienta ainda o facto – também a nós relatado por um sem-abrigo – que “as pessoas que vão aos restaurantes dizem não sentir-se à vontade; que a comida não é bem confecionada, mas isso, atenção, são eles que o dizem, não sou eu que o estou a dizer. Nunca comi comida de lá. E se a casa, que é um dos restaurantes que serve, se eles gostassem de lá comer, não tinha tanta gente a vir aqui buscar alimentos”.

José Castilho diz não saber se “a intenção da Câmara, no caso de irmos para a Pasteleira, é tirar-nos daqui porque parece mal estar no centro da cidade e esconder os sem-abrigo, e os sem-abrigo vão atrás de nós; se é só para tratar dos muitos sem-abrigo no Bairro da Pasteleira, não entendo. E eles dizem que já têm as zonas mapeadas, mas não nos foi dada outra razão plausível. Se a zona da Pasteleira é crítica – que é certamente – então, eles que atuem lá, porque o podem e devem fazer! Eles só querem atuar no centro Histórico – compreendo perfeitamente – mas eles também podem atuar em outras zonas da cidade que têm mais necessidades que as pessoas que se encontram no Centro Histórico, e estão muito mais escondidas. Não são zonas turísticas, mas também têm pessoas necessitadas”.

E atenção ao facto de o trabalho da “Amigos Improváveis” não se circunscrever à Praça da Batalha, já que “quando saímos daqui, damos sempre uma volta para ajudar mais pessoas. Vamos ao jardim do Carregal; por detrás do Parque Itália, vamos à Marechal Gomes da Costa, e acabamos no Bairro do Viso porque passamos por casa e temos lá pessoas que por nós esperam. Portanto fazemos esse percurso”, revela José Castilho.

Quanto ao futuro da jovem associação, ele passa, segundo José Castilho por “se manter na rua. Aqui ou em qualquer outro lugar. Vamos batalhar para que isso continue a ser uma realidade. Gostaríamos de ficar aqui, porque, como referi, é aqui que estamos desde início. É uma zona central, e vem gente de muito lado buscar comida. Queremos também alargar a nossa oferta… ir para outras zonas, mas temos de dar um passo de cada vez., Se a Câmara do Porto nos deixar continuar aqui, melhor ainda!”

 

01abr21

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1 Comment

  1. maria santos

    Bom dia. Vi uma reportagem s/ a Vossa Associação e ando á procura de um sitio onde possa dar os meus préstimos e ao ler esta informação fiquei com algum interesse em conhecer-vos, se assim o desejarem. O contacto pode ser feito através do mail. Com os cumprimentos Maria Santos

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