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Gestão da memória moderna

António Pedro Dores

 

A oposição aos neo-nazi-fascismos não deve justificar a desqualificação do valor das críticas que são usadas, com sucesso, à maneira deles. Quando os pequenos negócios são fechados e mais do que anos de trabalho – esses já ninguém os tira – o que entra em crise são identidades pessoais e sociais, orgulhos profissionais e empresariais naquilo que se conseguiu estabelecer, nomeadamente modos de vida imaginados estáveis com as respectivas famílias.

Não admira que os médicos de saúde mental refiram existir uma pandemia negligenciada de que têm conhecimento. Para essa pandemia não há preocupações dos estados nem da UE. Querem resolver isto com dinheiro a fundo perdido, enquanto não é possível voltar ao “normal”. A respostas das pessoas atingidas é que o dinheiro não está a chegar e quando chega não é suficiente. Mas tais respostas estão equivocadas: numa sociedade que se caracteriza por exigir de todos e cada um que seja capaz de definir uma personalidade profissional em função da utilidade que possa reclamar para outros, a destruição em massa de pequenos nichos de modernidade conseguida com o esforço de quem acreditou estar a cumprir uma missão social, tornar-se útil para a sociedade e para a sua família, não se repara com dinheiro ou subsídios.

O uso neo-nazi-fascistas dos subsídios gastos com populações estigmatizadas cresceu e continuará a crescer como fénix no húmus criado pelo fecho da economia (que teve um primeiro acto a partir de 2010 e se tornou radical com a pandemia). A ideologia do empreendedorismo reclama que o mérito inovador e pragmático será recompensado pelos concursos público-privados de produção de exemplos heróicos e pelo enriquecimento respectivo. Nos meses recentes os empreendedores monopolistas, da Big Pharma e da Big Tech, são os únicos empreendedores ganhadores, esmagando a concorrência de forma inapelável.

Os neo-nazi-fascistas dizem que a culpa deste estado de coisas é dos grupos étnicos, das mulheres que abandonam os seus homens, da humilhação sentida pela masculinidade ferida nas guerras pela sobrevivência, como nos tempos coloniais. Nos tempos coloniais, alegando proteger as “nossas” mulheres, parecia legítimo – e era mesmo legal, nas colónias como no continente – matar quando os homens descobriam adultério. Não era preciso provar: bastava os homens imaginar o adultério. Pretexto tão banalizado que foi muito usado para manter os libertos, com o fim da escravatura, escravizados na prática. Nos EUA, para ter os serviços de um negro, bastava acusá-lo de mau comportamento, obter uma multa de um juiz e levá-lo consigo para trabalhar até que pagasse a multa. Quando apetecia matar pretos, linchá-los pendurados das árvores, o mau comportamento alegado era frequentemente terem abusado ou simplesmente olhado para as “nossas” mulheres.

Hoje, as mulheres ganharam o direito à escolha e os libertos conquistaram direitos civis. A memória de como se vive o ódio contra o fracasso, o logro, o engano, sem os reconhecer, atribuindo a culpa do que está a acontecer a terceiros – os mais frágeis de entre nós – persiste. É explorada politicamente pelos neo-nazi-fascistas. Eles oferecem uma forma de evitar o confronto connosco próprios: a nossa responsabilidade pessoal por termos colaborado com um regime imperial de exploração da Terra que, apesar dos resultados catastróficos – ecológicos, financeiros, sanitários, miséria, guerra – se mantém na condução dos estados e da comunidade internacional como um grande avião sem ninguém no cockpit.

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Web

01abr21

 

 

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