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Ilda Figueiredo: “A crise pandémica veio tornar mais claras as profundas desigualdades que o Porto tem! Isso significa que ainda não foram resolvidos os problemas de fundo da cidade…”

O centenário do Partido Comunista Português (PCP); a sua importância na luta contra o fascismo e pela democracia que há 47 anos, a 25 de Abril, se conquistou e mudou a vida dos portugueses; assim como o destacado papel no trabalho autárquico, e, neste caso em particular, na Câmara Municipal do Porto, foram alguns, e só alguns, dos fortes motivos pelos quais convidamos a vereadora Ilda Figueiredo para uma conversa na edição de… Abril, do Etc e Tal.

Escrever sobre Ilda Figueiredo, que é como quem diz das poucas mulheres que cedo se destacou e se afirmou na vida política nacional, não pode resumir-se a poucas linhas, mas iremos falar, essencialmente, sobre a atualidade autárquica, e isto quando se avizinham importantes eleições, não só para a Câmara do Porto, mas também para a Assembleia Municipal e juntas de freguesia do concelho.

Há uns aninhos, mas a “fotografia” repete-se com frequência… (foto: pesquisa Web)

Ilda Figueiredo, natural de Troviscal (Oliveira do Bairro), onde nasceu há 72 anos, é licenciada em Economia pela respetiva Faculdade da Universidade do Porto, e cedo iniciou a sua atividade de sindicalista no setor têxtil – técnica superior sindical – na década de 1970, integrando a União de Sindicatos do Porto, da CGTP.

É, logo após o 25 de Abril de 1974, que se filia no PCP, fazendo, hoje, parte do Comité Central, isto depois de ter desenvolvido, em Aveiro, importantes ações na Juventude Operária Católica. Em 1979, estreou-se como deputada na Assembleia da República, onde ficou até 1991, desempenhando, paralelamente, e durante esse espaço de tempo, o papel de vereadora na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (1983-90), para, em 1994, se estrear no Porto, ao ser eleita para o executivo, destinando-lhe o pelouro da Saúde e Sanidade. Ilda Figueiredo pertenceu ainda ao Conselho de Administração dos SMAS. No segundo mandato, chegou, uma vez mais, a vereadora, mas não lhe foi atribuído qualquer pelouro, depois de desentendimento com o, então, presidente da Câmara do Porto, Fernando Gomes.

Abreviando um pouco a história de vida de Ilda Figueiredo na política, destaque para o facto de, em 1999, chegar, nas listas do PCP, ao Parlamento Europeu, tendo sido reeleita em 2004 e 2009.

Em 2013 – e eis mais um passo na sua vida ligada às autarquias –, foi, pela CDU, candidata à Câmara Municipal de Viana do Castelo, regressando ao Município do Porto, em 2017, onde se encontra, até hoje, como vereadora no executivo camarário, ainda que sem pelouro. A nossa entrevistada é ainda presidente da Direção Nacional do Comité Português para a Paz e Cooperação.

É a esta senhora que damos, de seguida, espaço neste jornal para expor as suas ideias; dar a conhecer realidades… dar-lhe, no fundo, algo que foi uma das mais importantes conquistas de Abril… liberdade de expressão, que, por aqui, se cumpre e defende, com rigor e credibilidade…

 

José Gonçalves                Carlos Amaro

(texto)                                     (fotos)

 

 Cem anos depois da fundação do PCP, e das provas dadas pelo partido na defesa da democracia durante a prolongada, dura e torturante luta antifascista, e também em pleno estado de direito democrático, pergunto-lhe e, aproveitando uma frase de um velho, entretanto falecido, amigo, e seu camarada de partido, se ainda é difícil ser-se comunista em Portugal?

Já foi mais difícil, principalmente no tempo do fascismo, em que se punha em causa, não só a liberdade, mas também a própria vida. Nessa altura era bem mais difícil, no entanto o PCP existiu mais de cinquenta anos, durante o fascismo, e resistiu e lutou e continua, cem anos depois, com grande orgulho.

Partido para no qual entrou logo após a Revolução do 25 de Abril.

Sim, eu entrei para o PCP depois do 25 de Abril de 1974, sendo certo que tinha contactos com algumas pessoas, mas sabemos como essa época era difícil, e, por isso, não era militante.

Fez parte do movimento da Juventude Operária Católica…

Sim, mas entrei para o PCP poucos dias depois do 25 de Abril, e até hoje… também já são uns anos. Mas, essa admiração por aqueles que lutaram, que resistiram, que estiveram presos – alguns tantos anos, sujeitos a torturas das mais diversas –, e foram os alicerces da democracia que se vive no nosso país, e ao comemorar cem anos, devemos registar e agradecer-lhes por terem sido esses alicerces da democracia que ainda hoje vivemos.

O 25 DE ABRIL É O RESULTADO DA LUTA DE MUITOS DEMOCRATAS, E ONDE OS COMUNISTAS ESTIVERAM SEMPRE NA LINHA DA FRENTE

O 25 de Abril foi uma data importante…

…o 25 de Abril é o resultado dessa luta; dessa luta que muitos democratas fizeram, e onde os comunistas estiveram sempre na primeira linha. E basta ser isento, e analisar a História, para ver quem foram os que mais sofreram, as pessoas que estiveram presas, foram mortas, incluindo naquilo que existiu em Portugal de mais duro. Não estou a falar só de Peniche, do Aljube, de Angra do Heroísmo, estou a falar mesmo do campo de concentração do Tarrafal, onde muitos morreram lá, ou ficaram doentes para o resto da vida. Portanto, foi uma luta muito dura. Mas, há que destacar todo o trabalho que PCP foi desenvolvendo, seja nas lutas operárias, incluindo no Porto contra a carestia, pelos direitos dos trabalhadores, pelos direitos das mulheres; houve aqui concentrações de estudantes…portanto, ao longo dos anos foram-se desenvolvendo as mais diversas lutas, incluindo a formação da CGTP, que é anterior ao 25 de Abril de 1974, e onde estiveram sindicatos aqui do Porto.

E esteve também muito ligada ao sindicalismo?!

Sim. E essas atividades contribuíram, naturalmente, com a posição que, depois, os militares de Abril também tomaram – porque já era insuportável continuar a manter uma guerra nas ex-colónias, com tantos portugueses a irem para lá e as famílias, por cá, a viverem em condições muito miseráveis –, para o 25 de Abril.

E, por mais estranho que possa parecer, isto aconteceu só há 47 anos… repito: “só há”…

Só há 47 anos, é verdade! Por isso, o PCP esteve 48 anos na clandestinidade. Alguns anos antes, ou seja antes da ditadura, esteve em liberdade, mas por pouco tempo. Depois, foram os 48 do fascismo, e, desde o 25 de Abril de 1974 até agora, que estamos em liberdade. Mas, mesmo em liberdade, continuando a luta para a consolidação do 25 de Abril, que começou por ser um golpe militar, mas, de imediato, se transformou numa revolução, porque o povo veio para a rua apoiá-lo, em Lisboa, mas também aqui no Porto. Eu estive aqui no Porto, porque era aqui que vivia, que trabalhava – dava aulas na escola comercial Oliveira Martins – e, por isso, vivi esses dias em inteira euforia. Os meus dois filhos mais velhos eram crianças nessa altura, e sei como vivemos com grande euforia essa liberdade, juntamente com o pai deles, incluindo os primeiros dias, isto ainda sem sabermos bem o que é que ainda ia acontecer. Deixei os filhos em Aveiro, em casa da minha mãe, e voltámos para o Porto para estar à vontade. Acho que, durante dois ou três dias, nem nos deitámos, até porque havia problemas com o meu marido: ele estava sem trabalho, porque tinham-lhe metido um processo por ter apoiado trabalhadores… aquela época era complicada

O 1.º de Maio de 1974, no Porto (foto: pesquisa web)

Por isso, há pouco, ter perguntado se ainda, era difícil ser-se comunista… porque ainda hoje, às vezes, colocam-se essas questões…

Nessa altura vivia-se uma situação complicada e de grande dúvida relativamente a tudo o que se ia  passar. Mas, mesmo assim, andámos a viver na rua a libertação dos presos da ex-PIDE, junto ao atual edifício onde está instalado o Museu Militar, e até, pelas ruas, à Avenida dos Aliados. Entretanto, as coisas foram-se consolidando. Fomos novamente a Aveiro buscar as crianças, e no 1.º de Maio rumámos todos, incluindo os meus filhos mais velhos, para a Avenida dos Aliados, com aquele mar de gente, onde já não cabia lá mais ninguém, e que se espalhou pelas ruas adjacentes. Nunca na minha vida verei, certamente, tanta gente como nesse 1.º de Maio de 1074, aqui no Porto. Quem o viveu não pode esquecer! Isso foi a prova de que o povo estava farto do fascismo e que o não queria mais. Queria a liberdade; queria a democracia; queria os seus direitos…

O PCP TEVE SEMPRE UMA POLÍTICA UNITÁRIA E DE CHAMAR AO TRABALHO OUTRAS PESSOAS, MESMO COM OPINIÕES DIFERENTES

Depois vieram, então, as eleições. Já agora uma pergunta: por que é que o Partido Comunista nunca concorreu sozinho? Foi sempre em coligação a todos os atos eleitorais. Foi a FEPU, depois a APU, agora a CDU…

Porque o PCP teve sempre uma política que não foi desenvolvida só  no pós-25 de Abril, foi anterior. No MUD juvenil, e em outras organizações que existiram e eram unitárias, sempre se considerou que era necessário que todos os democratas de boa vontade, interessados no progresso, na liberdade, fossem companheiros na luta, e por isso, o PCP, sempre teve uma política unitária e de chamar ao trabalho outras pessoas, mesmo com opiniões diferentes sobre este ou aquele aspeto, mas que convergiam na ação e nos objetivos fundamentais. O PCP teve sempre essa linha de trabalho.

Ainda relativamente ao 25 de Abril, e à consolidação da democracia, é bom não esquecer que tivemos um ano muito conturbado. Refiro-me aos anos de 1974 e de 75, com golpes e contragolpes… houve vários. É preciso ter isso em conta, não foi só no 25 de novembro. Houve várias tentativas, e houve tentativas de abandono de empresas por parte de muitos patrões. Estou a referir-me a isso porque me lembrei, agora, do que está a acontecer com a Cervejaria Galiza. Houve várias dessas tentativas, e aqui, no Porto. Na região, a indústria têxtil e vestuário tinha grande importância…

E, na altura, já estava ligada ao sindicalismo?!

Eu era professora na escola comercial Oliveira Martins e estava a acabar o curso de Economia, na Faculdade do Porto. Entretanto acabei-o, em junho de 1974. E, depois disso, com esses problemas todos, alguns trabalhadores, ligados à direção do Sindicato dos Trabalhadores têxteis do Porto e de Aveiro, pediram-me apoio, e foi o que comecei a fazer, mesmo mantendo-.me como professora, o que acabei por deixar e passar a trabalhar a tempo inteiro no sindicato. E isto porque era necessário, em muitos casos, demonstrar que as empresas eram viáveis e que não podiam fechar. Os patrões estavam a tentar fechá-las para provocar o desemprego; a falta de produção, etc. Portanto, era preciso defender a produção, o emprego, e demonstrar, aos governos da época, que as empresas tinham viabilidade. É nesse contexto que os dirigentes do sindicato têxtil me pediram apoio, porque tinha acabado o curso de Economia, e comecei, então, a trabalhar com eles. Quando se demonstrou que as empresas tinham viabilidade, chegou, então, a haver intervenções do Estado para evitar o encerramento das empresas

Nacionalizações?

Não foram nacionalizações. A indústria têxtil nunca foi nacionalizada, mas várias empresas foram intervencionadas pelo Estado, numa fase necessária, para garantir que elas continuassem a funcionar, em conjunto com os trabalhadores, e a pagar os salários, mantendo, desse modo, a produção. E houve várias empresas, aqui no Porto e na região. Onde hoje é o Mota Galiza, havia a “Jacinto”, que foi uma das empresas onde de verificou uma grande luta. Em Santo Tirso, na Abel Alves Figueiredo; na Uniteca, em Valongo, etc.. E assim se foi consolidando a democracia.

 “O NORTE FOI A REGIÃO DO PAÍS ONDE MAIS TARDE CHEGARAM AS DIFERENTES CONQUISTAS DO 25 DE ABRIL”

Falou em consolidação da democracia: consolidação essa, pergunto, que passa, e muito, pela realização das eleições autárquicas, independentemente da importância das legislativas?

Passa pelas primeiras eleições livres em Portugal, onde toda a gente pôde votar, incluindo as mulheres, e que foram realizadas a 25 de abril de 1975, para a Constituinte. Entretanto foi elaborada a Constituição da República Portuguesa, que foi promulgada a 2 de abril de 1976, vai fazer, agora, 45 anos. A partir daí, há, naturalmente, as outras eleições, de acordo com a Constituição que se começa a aplicar. Então, é que se realizam eleições autárquicas. Até a esse momento, ou seja, no período de transformação de um Estado fascista num Estado democrático, existiram, nessa fase de transição, comissões administrativas. Depois de concluído o processo constitucional, fazem-se, então, as eleições Legislativas – para a Assembleia da República -, e a seguir para as autarquias…

…onde o Partido Comunista consegue uma especial implantação no Sul – com destaque para o Alentejo –  e na Área Metropolitana de Lisboa – essencialmente na zona industrial -, enquanto que, por cá, pelo Norte, as coisas não foram as mesmas em termos, claro está, de implantação…

Sim. Sabemos que a situação a Norte nunca foi fácil para o Partido Comunista, e isso tem razões históricas. O Norte foi a região do país onde mais tarde chegaram as diferentes conquistas do 25 de Abril, incluindo a da Leitura e a da Educação. O analfabetismo era mais forte por aqui; assim como certas mentalidades na própria Igreja… e da população vítima da falta de formação, educação, etc. Havia também uma distribuição da riqueza muito desigual, com uma população muito pobre, muito carenciada e que foi vítima de muita coisa. A partir do meu próprio exemplo, costumo dizê-lo; quando era miúda e andava na Catequese, fartei-me de rezar pela conversão dos comunistas, e olhe, foi tanta a reza que me converti, é verdade! (risos). Mas, também é verdade, que havia na Igreja a Norte, algumas áreas progressistas, onde depois eu me enquadrei…

A JOC.

Foi… a Juventude Operária Católica que teve uma ação importante na formação de jovens. Primeiro, com uma mentalidade mais aberta, mas também com uma outra sensibilidade, porque vivíamos as situações de pobreza. Eu própria era filha de camponeses pobres, e sei bem, portanto, a situação de pobreza e de desigualdade que existia. Olhe, eu estudei como aluna voluntária, porque eu sempre trabalhei. Primeiro fui professora primária, e, sempre a trabalhar como tal, licenciei-me em economia, isto antes do 25 de Abril. Sei, assim, as dificuldades que tinha para conseguir estudar…

E, ainda por cima, o facto de ser mulher…

Eram mulheres e homens, eram todos! Tínhamos que fazer as provas trimestralmente para podermos ir a exame no fim do ano, enquanto os outros meus colegas, só tinham de fazer uma prova por ano. Era um sistema muito difícil. Éramos obrigados a frequentar as aulas práticas – não as teóricas -, e consegui fazê-lo porque os meus colegas, que eram sensíveis a esta situação e que sabiam que trabalhávamos, passavam-nos os apontamentos das aulas teóricas, e emprestavam-nos para a gente poder acompanhar os estudos. Foi assim, sempre a trabalhar, que me licenciei.

É IMPORTANTE OUVIR AS PESSOAS, FALAR COM ELAS E NÃO TOMAR DECISÕES, QUE TÊM A VER COM A SUA VIDA SEM AS OUVIR… SEM QUE ELAS PARTICIPEM NESSE PROCESSO!

E a trabalhar fê-lo em prol da comunidade, entre outras situações, o facto de ter sido vereadora na Câmara Municipal de Gaia, na de Viana do Castelo e na Câmara do Porto, por duas vezes…

Em Gaia, várias vezes.

Que experiência adquiriu com todo esse trabalho?

Que as pessoas que estão nos seus locais de habitação, são muitas vezes esquecidas pelos poderes autárquicos, e que é necessário ter um trabalho de proximidade muito grande… de ir ter com elas! E isto porque a burocracia é grande. Se, aqui no Norte, tivemos problemas de formação e de educação, do analfabetismo elevado quando surgiu o 25 de Abril, e que entretanto se foi ultrapassando, a verdade é que, hoje, as populações mais idosas têm muita dificuldade em lidar com a burocracia que, em geral, se instalou nas autarquias, e, designadamente, nos grandes centros. É, assim, necessário fazer uma gestão de proximidade!

Que vocês – PCP/CDU – fazem-no, periodicamente, aqui no Porto…

É importante ir ouvir as pessoas, falar com elas; e não tomar decisões que têm a ver com as suas vidas, sem as ouvir… sem que elas participem nesse processo. Infelizmente, essa prática não é muito seguida. Aqui há uns anos, um célebre ministro ainda quis, e conseguiu, reduzir o número de freguesias, e por muitas tentativas que o PCP e a CDU tenham feito para alterar a situação, a verdade é que ainda o não conseguimos, uma vez que o Partido Socialista tem deixado que se instale esta situação.

De visita à Praça da Corujeira…

Estamos a falar de mais de mil e cem juntas de freguesia agregadas…

Temos aqui exemplos na cidade. No Centro Histórico são quatro as freguesias, mas agregaram-nas com mais duas – Cedofeita e Santo Ildefonso. É a união de freguesias com maiores problemas na cidade. Isso também tem a ver com a pessoa que a assume. Mas, não será só isso, pois a existência dessa diversidade tão grande, dificulta uma gestão de proximidade. Ou, era exigível um trabalho intenso que não é feito.

No seu caso, por onde passou, tentou fazer sempre essa gestão de proximidade com as populações…

Acho que não preciso de o dizer. Quem me conhece sabe, e vocês são alguns dos que conhecem esse trabalho, e sabem-no porque têm andado algumas vezes acompanham as visitas que realizamos. Também não podem acompanhar todas elas, porque são muitas. Portanto, vocês, Etc e Tal, também sabem que fazemos esse trabalho. Este trabalho mais ninguém o faz, e, no entanto, ele é decisivo. Ouve-se como as pessoas se queixam; como queriam expor os seus problemas e não conseguem. Ouve-se como as pessoas «mandam para lá os papéis» – como eles dizem-, e ninguém lhes responde. Isto não pode ser! O poder autárquico não pode ser só para servir determinados interesses.

E o trabalho em Viana do Castelo foi interessante?

Sim, foi interessante. Mantive, e mantenho, uma ligação estreita a Viana do Castelo, sobretudo na área cultural, que acho muito importante. É claro que, entretanto, a pandemia veio atrasar tudo! Mas, eu organizei tertúlias sobre Cultura que se tornaram muito conhecidas na cidade. Há um ano que não se fazem, nem lá em Viana, nem em lado algum. Mesmo assim, conseguimos, em outubro passado, realizar um Concerto pela Paz, através de uma organização de que também faço parte, que é o Conselho Português para a Paz e Cooperação; e ainda uma exposição de artistas pela Paz… Naquele interregnozinho, entre os pingos da chuva, aproveitamos para fazer algo de importante em Viana do Castelo.

O PARLAMENTO EUROPEU TEVE INTERESSE, PORQUE ME PERMITIU CONHECER O TRABALHO DE UMA FORMA GLOBAL…

E como é que foi a sua experiencia no Parlamento Europeu, e logo sendo eurocética?

(risos) Gosto, realmente, mais do trabalho de proximidade… do contacto com as populações. Mas, mesmo lá, procurei fazê-lo, e essa também foi uma experiência interessante. Para mim, o Parlamento Europeu teve interesse, porque me permitiu conhecer o trabalho de uma forma global. Como se trabalha globalmente. Repare que antes já tinha sido deputada na Assembleia da República, durante doze anos…

Sim… sabemos!

E, portanto, já tinha a noção do trabalho parlamentar, aqui em Portugal, onde fazia o mesmo, não apenas para as freguesias do Porto, mas para o País. Ora, quando fui para o Parlamento Europeu coloquei a questão: «mas estou no Parlamento Europeu a fazer o quê? Estou a representar Portugal!» Fui, é verdade, solidária com toda a gente que lutou pelos trabalhadores; pela Agricultura, que teve graves problemas em diferentes países; pela pequena e média Indústria; pelo Ambiente, etc., tudo excelente, mas, em primeiro lugar estiveram sempre os portugueses, porque eu tinha sido por eles eleita, e, assim, tinha que defender Portugal! E, pronto, foi isso que procurei fazer. Como é que defendi Portugal, lá, no Parlamento Europeu? Aos fins-de-semana vinha sempre cá. Estava em Bruxelas o mínimo de tempo possível! Enquanto funcionava o Parlamento ficava por lá, nos dias que não funcionava, vinha para cá… vinha para Portugal e visitava o País. E fiz muitas visitas! Visitei os principais concelhos, incluindo as regiões autónomas… fiz sempre questão de desenvolver esse trabalho.

No parlamento Europeu (foto: pesquisa web)

Mas, por certo, que teve, em Bruxelas, importantes e interessantes, contactos e trocas de conhecimentos…

Naturalmente que, no Parlamento Europeu, conheci muita gente. Estive lá quase treze anos, portanto, conheci quase todos os políticos dessa Europa, mas não só da Europa, como também fora da Europa, porque eu fiz parte de diferentes delegações, entre as quais para a América Latina. Cheguei a fazer parte do Europarl durante vários anos, praticamente até me vir embora. O Europarl foi o parlamento que se constituiu nessa época, entre deputados europeus e outros de diferentes parlamentos da América Latina. Portanto, conheci bem a América Latina. E isto foi já naquela época de evolução para a democracia que correu a América Latina, desde a Venezuela, do Hugo Chavez, até ao Lula, no Brasil, passando pelo Evo Morales – aliás, eu conheci-o em Bruxelas, numa altura em que ele ainda era da sua organização camponesa, e foi visitar o grupo parlamentar do qual eu fazia parte, e fui eu que o levei a almoçar, ainda ele não sabia que ia ser presidente -, e como ele outros. O Lula da Silva conheci-o no Brasil, antes dele ser presidente… e outros. Conheci grandes líderes mundiais nessa fase. Foi uma fase importantíssima. Como a Palestina, com o Arafat, onde estive também pouco tempo antes dele morrer. Na Ásia, porque também fiz parte de uma delegação que incluía toda a parte árabe, e visitei quase todos os países. Só estou a contar todos estes pormenores, para se perceber que a minha a passagem pelo Parlamento Europeu, de quase treze anos, permitiu-me conhecer um bom bocado do mundo.

NÃO SEI SE SOU EUROCÉTICA, O QUE NÃO DEFENDO É UMA VISÃO CAPITALISTA DA INTEGRAÇÃO EUROPEIA

 Não esteve parada…

Depois também estive envolvida em grandes lutas, por exemplo, a luta contra a guerra no Iraque, antes de ela começar. Fiz parte de uma delegação de trinta deputados de diferentes países e de diferentes partidos que foi ao Iraque, aos Estados Unidos, à ONU, que foi a diferentes sítios sempre com o objetivo de evitar a guerra e tornar claro que não havia armas de destruição massiva, porque tínhamos estado no Iraque, e tínhamos falado com toda a gente, incluindo na ONU – como referi – com a organização e responsáveis do programa nuclear. E, no Parlamento Europeu, dissemo-lo claramente, que ninguém nos ouvia, não nos quiseram ouvir, e foi com grande escândalo que, mais tarde, ouvir o Durão Barroso – ele que tinha sido o mestre-de-cerimónias de Bush, a Blair e a Asnas na célebre Cimeira dos Açores, que acabou por declarar a invasão do Iraque – dizer que tinha sido enganado.

Nós tínhamos dito no Parlamento Europeu, e ele na altura era primeiro-ministro de Portugal, que não havia armas de destruição massiva no Iraque. Mas isto para dizer que em termos de política internacional é o mesmo o que em termos de política nacional, também se montam as grandes mentiras, se opera em função delas, e os povos são sacrificados e, só no fim, passados uns anos, é que descobrem que foram enganados, quando já não podem voltar atrás Participei, assim, em grandes lutas por essa Europa e por esse mundo fora, e isso orgulha-me! Foi o Parlamento Europeu que me deu essa possibilidade…

… mesmo sendo eurocética.

Eu não sei se sou eurocética, o que não acredito é numa integração capitalista na União Europeia. Agora, isso não quer dizer que não possa haver outras coisas, porque não tenho nada a visão que cada um fique ali isolado no seu canto. O que não defendo é uma visão capitalista da integração europeia, porque isso, já se provou, que só serve os interesses de alguns; e quando digo «de alguns», não estou a falar de alguns países, estou a falar de alguns grupos financeiros e económicos desses países, porque o povo sofre em todo o lados; os trabalhadores são explorados em todo o lado, seja aqui, seja na Alemanha, ou na França. É claro que por lá têm níveis de desenvolvimento mais elevados e, portanto, a situação é ligeiramente melhor, a nós, nem isso deixaram desenvolver o suficiente e, assim sendo, a situação é pior. Mas, também lá, há desigualdades!

O PORTO CONTINUA A TER PROBLEMAS SÉRIOS DE DESIGUALDADES EM TERMOS DE HABITAÇÃO

De regresso à Câmara do Porto. A cidade está melhor que há três anos e meio, quando assumiu o cargo de vereadora?

Com esta pandemia, não acho que esteja melhor. A crise pandémica veio tornar mais claras as profundas desigualdades que o Porto ainda tem. Isso significa que não foram resolvidos os problemas de fundo da cidade.

Mas, o Porto evoluiu, ou não, nestes últimos tempos?

As desigualdades estavam cá e eram muito profundas. Estavam mais atenuadas. Só que, com a crise pandémica estão a tornar-se, novamente, demasiado visíveis. O Porto continua, por exemplo, a ter problemas sérios de desigualdades em termos de Habitação…

Questão essa que é como que uma bandeira do PCP e da CDU!

Não é uma bandeira, o que nós dizemos é que as desigualdades são gritantes, e só não as vê quem não quer! Basta ir às zonas populares, e não apenas aos bairros sociais, ou seja: onde ainda há pessoas. Mas mesmo de zonas onde tiraram pessoas, como no Centro Histórico, que é uma desolação. Aliás, sente-se mais a desolação do que há quatro anos! Por quê? Porque as pessoas foram pressionadas a sair e houve uma grande duplicação dos Alojamentos Locais e dos hotéis para os turistas. Nós alertamos várias vezes, para não fazerem depender a cidade, e o seu desenvolvimento, apenas do turismo, ou baseado no turismo, é preciso diversificar, e isso não foi tido em conta porque estávamos naquele período da especulação imobiliária que a Câmara não quis travar. Nós debatemo-nos – e lembra-se, certamente, disso -, meses e meses, com uma proposta para condicionar o crescimento do Alojamento Local, e só, já quando em certas zonas e ruas, mais de cinquenta por cento da população tinha saído é que foi aceite. O centro da cidade,  até mete dó! Os serviços fechados; os restaurantes fechado! E a população, onde está? Muito pouquinha a que por lá se encontra…

E idosa…

Sim. Uma população mais idosa, por um lado; por outro, continuam a faltar muitos equipamentos coletivos, designadamente, desportivos, de ocupação de tempos livres, e isto pela cidade inteira.

Alguns foram reabilitados e há outros em obras…

Alguns, e poucos, para as carências que a cidade tem. Muito poucos.

HOUVE MÁ REABILITAÇÃO NOS BAIRROS SOCIAIS

Mas, o que é que me diz do facto da zona Oriental do Porto ter reaparecido no mapa…

…sim, reapareceu. Está em obras, portanto continuam a faltar equipamentos.

Há o Terminal Intermodal de Campanhã; o projeto para o antigo Matadouro Industrial…

… mas essa obra do Matadouro ainda não arrancou. Há três anos que estão previstas obras aí. Como está aprovado fazer-se obras no jardim da Corujeira – que nós trouxemos à Câmara e foi aprovado -, e ainda não arrancaram. O Terminal Intermodal vai agora terminar, sim. Está bem. Mas, ainda assim, é muito pouco! Este presidente tem oito anos de gestão da cidade… é muito pouca a obra!

Houve a reabilitação de bairros sociais.

Houve má reabilitação! Baste ir lá e ouvir os moradores, como tenho feito. Houve má reabilitação de bairros! Muitas vezes sem terem em conta a opinião dos moradores; muitas vezes, usando materiais de má qualidade…

Seja como for as obras do TIC, no Bolhão, no “Alexandre Herculano, são importes…

Sim. No Alexandre Herculano só começou a ser reabilitado quando já era impossível mante-lo sem reabilitação! já chovia por tudo quanto era sítio. Bastava ir lá como eu fui ver aquilo. Era impossível as coisas continuarem como estavam, e, mesmo assim, ainda não está pronto.

E o Mercado do Bolhão também é uma obra muito importante.

Claro! Quando cá estive, na Câmara, nos anos 90, já defendia que se fizesse a reabilitação do Bolhão como está agora a ser feita. Veja, só quantos anos passaram desde essa altura: trinta. E só agora é que vai terminar. Entretanto, a cidade foi criando outros grandes buracos, como aqui ao lado, na antiga Casa Forte. Pode dizer: «mas, isso é privado!”, sim, mas foi uma opção pública. Não minha, nem deste executivo, mas do anterior, que levou à situação que se conhece. A realidade é que a cidade cresceu demasiado em termos de hotéis, de Alojamento Local, com tudo muito concentrado. Admitia que, se tudo isso fosse distribuído pela cidade inteira, não fosse excessivo, mas a concentração aqui no centro…

No centro, englobando o Bonfim…

Algum Bonfim… pouquinho! Porque Campanhã quase não tem, Ramalde quase não tem… portanto, está a ver.

A CONSTRUÇÃO DE HABITAÇÃO PÚBLICA NA CIDADE DO PORTO É UMA QUESTÃO CENTRAL E COM RENDAS QUE SEJAM ACESSÍVEIS

E qual é a sua opinião sobre a Renda Acessível?

É preciso saber-se o que se entende por renda acessível?! Para mim, a renda acessível é uma renda que cada família possa pagar… que seja acessível a todas as famílias. Há as que têm pouco dinheiro; há as que têm algum dinheiro, e há as que têm bastante dinheiro, e não devem pagar todas o mesmo. Cada um deve pagar de acordo com o que recebe, que não ultrapasse, por exemplo, os vinte e cinco ou trinta por cento do seu rendimento familiar. Isso é que eu chamo de renda acessível. O que o Governo chama de renda acessível é outra coisa: é uma renda que só é acessível para quem tiver bastante dinheiro. Portanto, é preciso ter cuidado quando se fala em renda acessível. Não é a da renda acessível que eu defendo que o Governo fala, e não é disso que a Câmara está a tratar através da Porto Vivo – SRU. Não é dessa renda acessível! Essa renda é só para camadas sociais da média e média alta, porque o salário da maioria da população do Porto é muito baixo… é pouco acima do salário mínimo nacional.

Como é que se pode falar de uma renda acessível de 600, 700 ou 800 euros? Isso é uma renda acessível? Para quem? Para famílias cujos rendimentos rondam o salário mínimo nacional? Não é! E é por isso que a CDU insiste que a construção de Habitação Pública na cidade do Porto é uma questão central, e com rendas que sejam acessíveis de acordo com os rendimentos das famílias. Que não se multipliquem guetos! Que seja habitação pública de qualidade, exigindo do Governo – que agora diz-se disponível para financiar até cem por cento -, que não esteja a entregar isto a privados, política seguida pelo executivo camarário com o antigo bairro de São Vicente de Paulo. Bairro, onde as pessoas que lá viviam foram retiradas à pressa, pelo antigo presidente Rui Rio, e distribuídas por bairros da cidade. Agora, o presidente atual quer entregar aquilo a um grupo económico, que vai levar, não só aquele terreno – fica com metade -, mas mais quatro terrenos nas Antas, para habitação privada, e só entrega à Câmara cerca de 120 habitações, que não são para renda apoiada, ou seja destinada às famílias que lá estavam e que foram espalhadas por aí, e que estão contra isto, e com razão, e que têm e terão todo o apoio da CDU nessa luta.

A CÂMARA DO PORTO, APESAR DA CRISE QUE ESTAMOS A VIVER, TEM MUITO DINHEIRO E PODIA, DEVIA, REALIZAR POLÍTICAS DE PREVENÇÃO INTEGRADAS, COM MUITO MAIOR ATENÇÃO AO ASSOCIATIVISMO

E por falarmos em bairros sociais, volto a um tema recorrente neste jornal, e que diz respeito ao tráfico de drogas e à toxicodependência, que, em muito dos casos, é realizada à vista desarmada, como nos flagrantes casos do Viso, Francos e Pasteleira, entre outros. Qual a sua posição face a este flagelo?

A minha posição é que a nós temos tido sempre, ou seja: anteriores governos acabaram com o Instituto, o IDT, que fazia a prevenção e tratava dessas situações, e que assumiu várias formas na cidade. Acabaram com isso! A toxicodependência é uma doença que tem de ser tratada, e o Estado tem de assumir isso; e ser tratada de uma forma integrada. Mas, também há as medidas de prevenção que têm de ser tomadas. Como é que se tomam medidas de prevenção? Tendo habitação e equipamentos de qualidade, e políticas de integração, seja desportiva, seja cultural.

Droga no Lagarteiro (foto Pedro N. Silva)…

São precisas políticas inclusivas que falharam muito nesta cidade do Porto. Quase todas as semanas tenho andado a bater-me por isso, e mesmo assim fui conseguindo que, uma ou outra medida, fosse aprovada, mas nunca nesta visão integrada que a CDU tem, e teria, se fosse quem gerisses esta cidade. Acho que o Porto, com o dinheiro que tem, e porque tem muito dinheiro, a Câmara, apesar da crise que estamos a viver, tem muito dinheiro, podia, e devia, realizar políticas de prevenção deste tipo – integradas – com muito maior atenção ao associativismo, política a qual teve alguma coisa feita, devido à nossa determinação, só que isto não são políticas para dois dias! São políticas que têm de ser feitas ao longo dos anos, acompanhando as crianças, a juventude e por aí fora… São políticas que não rendem votos imediatos e, por isso, não facilitam o show-off de quem quer fazer política para dar nas vistas, e para ser eleito nessa base. Exigem-se políticas de sensibilização e de proximidade das populações no seu dia-a-dia, para a criação de melhores condições de vida, de permanente ocupação de tempos livres das crianças e dos jovens. E neste aspeto não estou só a culpar a autarquia, estou também a referir-me ao Governo, porque é necessário que as pessoas tenham salários dignos, e trabalho permanente, e não fiquem nesta situação de desemprego, de precariedade, porque depois as pessoas têm que sobreviver…

E pior ainda devido à pandemia.

Como já lhe disse, a pandemia veio tornar mais clara esta desigualdade, mas ela já estava cá, caso contrário não se notava.

O LAVAR DE MÃOS QUE O GOVERNO FEZ EM RELAÇÃO À STCP PODERÁ TER CONSEQUÊNCIAS, A MÉDIO PRAZO, EM CONCELHOS MAIS DÉBEIS

Em termos de transportes públicos e mobilidade, entre outros factos, vamos ter mais Metro; a STCP foi municipalizada…no seu entender, as coisas estão bem?

Não, não estão, porque vamos ter mais Metro mas só daqui por uns quantos anos; porque estiveram demasiados anos sem construir a rede que era necessária. Mesmo o que agora vão fazer vai durar uns anos, e não é tudo. Por exemplo: quando decidiram prolongar a Linha Rosa, que vai da Galiza até à Boavista, nós dissemos que era necessário ir até mais abaixo… até ao Campo Alegre e mais até lá ao fundo, onde estão cerca de dez mil pessoas naqueles bairros todos. Mas não quiseram, e portanto não vai. Admito que, com a STCP, aqui na cidade, isto possa melhorar um pouco, mas a STCP não pode ser vista só na cidade, tem de ser vista como um serviço público de seis concelhos onde existe, podendo até alargar a rede. E o lavar de mãos que o Governo fez em relação à STCP poderá ter consequências, a médio prazo, em outros concelhos mais débeis. Estou a falar d Valongo e de outros sítios. Portanto não está tudo bem! Melhorou o preço do transporte, depois de grande luta levada a cabo pelo PCP depois de, há uns anos, terem dito que éramos líricos quando defendíamos o transporte gratuitos para as crianças, para os jovens e para as pessoas idosas. E diziam que éramos líricos e não sei quê, mas, afinal, conseguiu-se… não tudo, mas já alguma coisa. Ainda é menos que na Área de Lisboa, mas já é alguma coisa. Há quatro anos, ainda diziam que eu era lírica, e hoje a coisa está em prática!

E quanto ao Ramal da Alfândega?

Nós temos vindo a defender que o Ramal de Alfândega seja utilizado para transporte público e passagem de peões. De peões já está a ser (risos) de transporte público ainda não. Esperemos que venha a ser a curto prazo! Parece que nós temos razão antes do tempo, mas se alguém não tiver razão antes do tempo não se constroem as soluções! Elas vão ter de se construídas com muita luta, e nós temos estado cá a fazê-la. Estamos e continuaremos a estar.

NA POLÍTICA DO AMBIENTE ALGUMA COISA POSITIVA FOI FEITA, NÃO SE FAZEM SÓ ASNEIRAS

E em relação à política do Ambiente. O Rio Tinto foi despoluído, mas, por exemplo temos a Ribeira da Granja que, pelos vistos e pelos cheiros, precisa do mesmo processo…

Vamos continuar a defender que ela seja despoluída. A Ribeira da Granja e outras. Nesse âmbito, alguma coisa positiva foi feita, não se fazem só asneiras.

Aliás, a CDU tem votado a favor de um número considerável de propostas

E tem lutado, acima de tudo, para que isso venha a ser apresentado, foi essa luta permanente que ajudou, conjuntamente com as populações, que alguma coisa tivesse sido decidida, e alguma coisa tem vindo a ser. Devagar, devagarinho…

Dá-me ideia que o senhor presidente da Câmara gosta muito de falar consigo…

Não sei, pergunte-lhe (risos). Tem dias… Mas em termos de ambiente as coisas poderiam, ainda assim, estar bem melhor, como acontece com o Parque da Cidade, o Jardim ferroviário da Boavista que deve ser criado onde para lá está prevista a construção de algo relacionado com o Corte Inglés; o Jardim da Corujeira que está a demorar muitos anos para que lá se faça uma intervenção; o Jardim da Lapa, onde está a ser construído um hotel, mas, no final, e porque os responsáveis pelo imóvel o querem, vai ser construído um jardim… às vezes é assim. Mas, por exemplo, acho que o Parque Oriental já devia ter sido aumentado. Falta muito ainda para se completar, e faltam equipamentos que temos várias vezes defendido. Está a tardar completar-se e incluir esses equipamentos, isto para falar de algumas zonas da cidade.

É NECESSÁRIO NÃO APENAS ALIMENTAR O ENTRETENIMENTO, MAS TAMBÉM AJUDAR A CRIAR; É NECESSÁRIO PRODUZIR, E PARA PRODUZIR É NECESSÁRIO TER CONDIÇÕES PARA O FAZER

Em termos culturais está tudo condicionado à pandemia…

Mas, uma coisa são as iniciativas de animação, e outra é a criação. Finalmente, vai reabrir a Biblioteca Popular de Pedro Ivo, no Marquês, e que esteve fechada muitos anos, tendo a CDU sempre se batido pela sua reabertura, agora é preciso que ela cresça, floresça e se multiplique, porque o incentivo à leitura é uma questão central para a edução de um povo e para a cultura popular. O incentivo à leitura com a multiplicação destes espaços que permitam a proximidade por essas freguesias, por esses bairros… isto exige uma política de cultura…

.. como com as associações de moradores que vão deixando de existir…

… e com coletividades etc. Quando eu cheguei, uma das «guerras» que fiz foi o apoio ao movimento associativo, porque sei que pode ser o suporte para uma cultura de raiz popular, que é quem está lá… junto das populações. Mas, a autarquia tem a obrigação de ajudar a multiplicar essa situação, não só através dos apoios, mas também da criação de mecanismos autónomos. Claro que se foi criando a Cultura em Expansão, um ou outro evento, um ou outro apoio, mas nós sempre dissemos que era necessário que isso se estendesse a toda a cidade, e não apenas a algumas freguesias, e que tivesse um caráter permanente, e não intermitente. Esta é a nossa diferença de visão. Porque é necessário, não apenas, alimentar o entretenimento, mas também ajudar a criar; é necessário produzir, e para produzir é necessário ter condições para o fazer.

TEMOS GENTE AÍ QUE TRABALHAVA PARA OS FESTIVAIS, PARA OS CONCERTOS, QUE ERAM TRABALHOS DE UM MODO GERAL PRECÁRIOS, À PEÇA, E FICOU TUDO NA MISÉRIA!

E é necessário, por certo, ter colaboradores para o fazer. Em Serralves há uma luta de colaboradores que estão numa estado lamentável a nível laboral, o mesmo acontecendo na Casa da Música que o nosso jornal tem vindo a acompanhar mais de perto…

… e como vocês sabem nós temos apoiado essas situações. Ainda hoje, vou apresentar um requerimento por causa desses jovens que fizeram um trabalho com o apoio da Câmara e que agora lhes terá sido usurpado… não sei muito bem, mas vou tentar esclarecer-me sobre o que se passa. Mas sei que, durante muito tempo, e isto também é culpa do Ministério da Cultura que alimentou este trabalho intermitente, ou seja um trabalho esporádico, precário e mal pago, que com a pandemia ficou mais claro o que isto era. Mas esses são dois casos. Entretanto, temos toda a gente aí que trabalhava para os festivais, para os concertos, que eram trabalhos, de um modo geral, precários, de um modo geral à peça e… ficou tudo na miséria! E está na miséria! E, só agora, é que o Ministério da Cultura está a trabalhar na elaboração de um Estatuto do Trabalhador da Cultura. Só agora está a trabalhar nisso. Mas quando é que isso tudo estará resolvido? Este é o problema. Problema que não é só da autarquia – que podia e devia ter feito mais -, mas éd também um problema nacional, de visão do País.

Relativamente à questão do Bom Sucesso, a CDU levantou uma série de questões…

…e que já tinha levantado na época. A maioria diz que entrega o Mercado à SONAE, e acabou! E como a maioria tem maioria… ainda que com a nossa posição contra e contestatária, a verdade é que o assunto não veio à Câmara para ser decidido. Eles só trazem aquilo que é mesmo obrigatório, mas nós já manifestamos a nossa oposição. O senhor presidente da Câmara diz que é assim, que temos opiniões diferentes. e pronto.

CABEÇA-DE-LISTA DA CDU NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS? VAMOS VER! A DECISÃO HÁ-DE SER TOMADA. AINDA NÃO SEI

E relativamente a essa maioria, a CDU, uma vez mais com a Ilda Figueiredo como cabeça-de-lista vai tentar contrariar aquilo que é hoje um facto nas próximas eleições autárquicas?

Vamos ver.

Mas, será a cabeça-de-lista da CDU?

Vamos ver. A decisão há-de ser tomada. Ainda não sei.

Estaria preparada e entusiasmada para isso?

Vamos ver.

Fiz-lhe uma pergunta mais pessoal…

Está bem. Sabe que eu só digo o que quero.

Exatamente.

Eu só digo isso para se evitar respostas. Não se afine…

Não, não afino. Diga-me, então, qual foi a melhor obra apresentada por Rui Moreira durante aquilo que conhece do mandato dele?

Não me lembro de nenhuma! (risos).

É COM ALGUMA PREOCUPAÇÃO QUE VEJO, AGORA, ALGUNS TIQUES DE RUI RIO NO TRABALHO FINAL DO ATUAL EXECUTIVO

E qual a grande conquista que a CDU teve, fazendo parte do executivo ainda que sem pelouro, três anos e meio?

A CDU tem pugnado por aquilo que já falei. O apoio ao associativismo… alguma coisa já se conseguiu. Não me satisfaz, mas foi o possível. Por uma maior descentralização e aposta no desporto. Na cultura da proximidade. Na reabertura da Biblioteca Popular de Pedro Ivo. No avanço em obras que andavam para aí paradas… e alguma ainda continuam, como a recuperação do ex-Matadouro Industrial…

Vai começar para o ano…

…Pois, mas ainda está parada. Ou da recuperação da Corujeira…

Falámos nas coletividades, mas entre a Câmara e as coletividades, surgem, por certo, as juntas de freguesia. Qual o papel delas no meio disto tudo? Também não têm a sua importância? Não têm, se calhar, é para poder fazer o que quer que seja de relevante…

Têm algum dinheiro. Algumas têm um trabalho diferente. Há umas que fizeram mais alguma coisa; outras fizeram pouco…

Mas é um trabalho importante…

Claro que é. E há alguma descentralização apesar de tudo. Nós defendemos que houvesse mais… mas houve alguma.

Quanto às sobras em curso, ou para arrancar, há pelo menos algo que não houve antes…

Que ainda foi pior, eu sei! Mas, é com alguma preocupação que vejo agora alguns tiques de Rui Rio no trabalho final do atual executivo, como este do ex-Bairro de São Vicente de Paulo, onde se está a repetir asneiras do anterior executivo, de vendas de património e da entrega a privados para a construção de habitação, e que já deu provas que não é bom para a cidade. Veja-se o Fundo do Aleixo, que continua por construir metade das casas que se comprometeu… nas Eirinhas não andou, como não andou o Bairro do Leal, e só agora é que vão ser entregues as 32 casas da Travessa de Salgueiros, tendo sido entregues umas poucas antes disso.

O que é que impede o normal desenvolvimento desses processos? Estão aprovados! O que é que impede as coisas de avançarem?

Não entendo. Por isso é que acho que é necessária uma gestão diferente, de gente mais empenhada, com outra capacidade de pôr tudo a andar ao serviço dos cidadãos e não apenas de grupos económicos e de interesses privados.

GERINGONÇA NO PORTO? DEIXE QUE O POVO DECIDA! AINDA BEM QUE HÁ ELEIÇÕES LIVRES E LUTÁMOS MUITO PARA QUE ISSO ACONTECESSE…

Uma “Geringonça”, aqui no Porto, funcionaria?

Não faço ideia. Não me pronuncio sobre coisas que não aconteceram; que não sabemos. Vamos ter eleições em outubro e deixe que o povo decida. O que funcionou aqui, no anterior mandato, foi uma «Geringonça» à direita entre o Rui Moreira e o Partido Socialista. Sabe bem que é verdade! E que acabou mal… também sabe! Por isso, deixe que o povo decida. O povo está aí para decidir. Ainda bem que há eleições livres. Lutámos muito para que isso acontecesse,… deixe que eles decidam, e depois estaremos cá.

TENHO A CONSCIÊNCIA DE QUE FIZ O MÁXIMO QUE PODIA

Está confiante num bom resultado da CDU?

Eu sou uma mulher otimista por natureza, mas também realista…

Dizem que as mulheres são assim na política.

(rsos) Tenho a consciência tranquila de que fiz o máximo que pude e me era possível para defender a cidade, os seus moradores, e sobretudo aqueles que mais precisavam de ser defendidos. Sejam os moradores, sejam também as camadas da população, de associações, de coletividades, de jovens, crianças, idoso, mulheres, pequenos empresários… tenho a consciência que fiz o máximo que podia. Não podia mais… não me deram mais votos, não tive mais força. Espero que nas próximas eleições, em setembro ou em outubro, que o povo do Porto decida e que a CDU possa ter mais força para ajudar mais, e apoiar mais uma política à esquerda de maior proximidade e de resposta aos problemas reais da cidade e ao seu desenvolvimento, mais harmonioso, mais equilibrado, mais inclusivo…

 

Entrevista realizada a 24 de março de 2021

 

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01abr21

 

 

 

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