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O coronel CASTRO CARNEIRO (capitão de Abril) e os relatos vividos, no terreno, naquele que foi o Dia da Liberdade. “No Porto foi, relativamente, fácil fazer o 25 de Abril!”

Reeditamos nesta edição, uma entrevista com o coronel Castro Carneiro, “capitão de Abril”, publicada na edição de dezembro de 2020. Vamos recuar no tempo, mas numa viajem que não é tão longa quanto isso, já que 47 anos em História é um espaço relativamente curto e, como tal, ainda suscetível a comentários e reações, a estudos ainda por fazer, que, contudo, na entrevista que se segue, se esbatem com os factos, os factos revelados e relevados pelo coronel Castro Carneiro.

O jornal Etc e Tal, com esta entrevista, marca presença no contributo que dá para o avivar de certas memórias esquecidas por esquecimento, ou estrategicamente esquecidas por outros motivos. A palavra, então, ao coronel Castro Carneiro, hoje com 75 anos de muitas histórias reais e que o fazem, por isso, ser uma pessoa muito especial..

 

Quando é que as coisas se começam a encaminhar no concreto, para que o 25 de Abril fosse uma realidade?

“No dia 01 de Setembro de 1973, tinha terminado a minha 2.ª comissão no M´Pozo e encontrava-me em Luanda a tratar da comissão liquidatária da minha companhia para poder regressar a Portugal.

Depois de jantar fui até ao centro de Luanda tomar um café à Versalhes, onde era habitual juntarem-se sempre bastantes militares. Um dos meus instrutores na Academia Militar, ainda capitão como eu, embora bastante mais antigo, veio ter com o grupo em que eu estava integrado e informou-nos da reunião que ia acontecer na Companhia de Comando e Serviços (CCS/QG/RMA) do Quartel-general da Região Militar de Angola. Todos o acompanhamos a essa reunião de onde saiu um requerimento dirigido ao Presidente do Conselho de Ministros de Portugal com 94 assinaturas, se as contei bem. Numa situação normal, todos deveríamos ter sido punidos por não termos respeitado as vias hierárquicas como era nossa obrigação. Mas, não. O governo português já estava a ‘cair de podre’…”

… não reagiu?!

“Não podia. Se a memória me não falha, em 18 de Julho tinha havido uma reunião semelhante na Guiné e em 9 de Setembro foi a reunião do Monte Sobral aqui em Portugal. Com tantos capitães unidos pelo mesmo propósito o que que eles iriam fazer? Prendiam-nos?

Mais tarde quiseram comprar-nos com dinheiro! Nunca foi esse o caminho para os militares!”

O Estado, no fundo, já estava à espera que fosse acontecer algo…

“Tinha de ser. No fundo acabamos por resolver um problema ao Marcelo Caetano já que em Fevereiro de 1974, depois de ler o livro do Spínola, Portugal e o Futuro, confessa: “ao fechar o livro tinha compreendido que o golpe de Estado militar, cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável”; dias depois chama Costa Gomes e Spínola e convida-os a tomarem o poder, o que ambos recusaram. Anteriormente ainda em 1973 tinha estabelecido contactos com os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné na tentativa de resolver o problema colonial…”

SE TIVER QUE INDICAR UM DIA PARA O INÍCIO DO MOVIMENTO, INDICAREI O DIA 09 DE SETEMBRO DE 1973

Portanto, ele como que deixou andar a coisa…

“Sim, penso que nenhum dos presentes na CCS/QG/RMA, se afligiu muito por assinar coletivamente o requerimento. O que é que ele poderia fazer? No máximo deixar-nos lá ficar. Se assim tivesse acontecido penso que teríamos chegado ao 25 de Abril, antes do que chegamos…”

Enviam essa carta; não há reação à mesma, e então quando é que começa o movimento?

“Como referi as reuniões começam em Portugal e no Ultramar em dias diferentes embora muito próximos. Se tiver que indicar um dia para o início do movimento, indicarei o dia 09 de Setembro de 1973, dia da reunião de Évora. Essa foi a 1.ª reunião em Portugal.”

Entretanto, o então, capitão Castro Carneiro, regressa à Metrópole?!

“Vim em Setembro de 1973, devo ter-me apresentado no CICA 1 em Outubro e a partir daí foram as reuniões que se conhecem…”

Depois o “tiro de partida” foi dado no dia 24 de Abril?

“No dia 24 de Abril eu distribuí, com o Alferes Pego, a Ordem de Operações às Unidades de Lamego, Vila Real e Bragança; foi realizada em casa do Major Albuquerque uma reunião para o entregar aos oficiais do Movimento da Guarnição Militar do Porto; outro oficial do CICA 1, penso que o Major Borges, foi entregar a Ordem de Operações às Unidade da Póvoa do Varzim, Braga e Viana do Castelo.

NO PORTO FOI, RELATIVAMENTE, FÁCIL FAZER O 25 DE ABRIL…

E que mais faz nesse período? Antes, ou durante toda a atitude desenvolvida? Facto que me levou – e por iniciativa própria – a considerar o coronel como o “Salgueiro Maia do Porto”, embora saiba que não gosta muito dessa comparação, salvaguardando, obvia e compreensivelmente, o papel e desempenho que o seu amigo e camarada teve em Lisboa…

“Como lhe referi no comentário que fiz à minha própria entrevista considero-me apenas e só mais um dos capitães que em muitos pontos deste país fizeram ‘o que a história lhes predisse. Muitos no Norte terão feito mais do que eu e eu conheço alguns, e então por todo o país nem se fala, e também conheço alguns. Falo do Norte e não só do Porto, porque no Porto estiveram vários capitães do Norte que para aqui trouxeram, por exemplo, os militares que levei comigo aos TLP, que eram de Lamego.”

… fazer no terreno, por vezes, as coisas bem são diferentes que as delineadas …

“…O que acontece nas operações militares, e também acontece assim na vida, é que nem sempre aquilo que se planeia se consegue executar da maneira que se planeou. A isso chamamos a Conduta da Operação e essa depende da ‘habilidade’ de quem a executa sabendo que a responsabilidade também lhe será atribuída.”

No Porto, o 25 de Abril foi, relativamente, mais fácil de se concretizar, do que em Lisboa?!

“Aqui no Porto sim… foi relativamente fácil. Houve um ou outro momento de alguma tensão, nomeadamente quando nos vimos sem comunicações com o Quartel-general, onde estava o Posto de Comando Principal.”

NO 25 DE ABRIL, O GRAVE PROBLEMA, NO PORTO, FOI A FALTA DE COMUNICAÇÕES

Não havia telemóveis! (risos)

“Não havia telemóveis e nem sequer telefones para se poder entrar em contacto com o Posto de Comando Principal no QG/RMN. Quando quis comunicar com o Posto de Comando de Alternativa (CICA) o que tinha sucedido na Avenida dos Aliados – incidente com a PSP – tive de ir a uma barbearia situada na esquina da Rua de Ceuta com a Avenida dos Aliados, pedir para o fazer. Tenho ideia que não perceberam nada do que é que eu andava ali a fazer, mas foram extremamente atenciosos.

Nas Ordens de Operações é sempre indicado, entre outras coisas, o Posto de Comando (PC) Principal e o Posto de Comando de Alternativa; aqui no Porto o PC Principal era no QG/RMN onde se encontrava o Major Corvacho comandante por nós eleito e o PC de Alternativa era no CICA onde se encontrava o Tente Coronel Simões, comandante do CICA 1. Foi com o Tenente Coronel Simões que falei.”

A falta de comunicações foi, então, o mais grave problema registado no Porto?!

“Diria que sim. Foi ela que determinou algumas alterações importantes ao Plano de Operações gizado aqui para o Porto. A Companhia de Lamego sob o comando do Capitão Fonseca deveria cercar a PIDE mas quando chegou ao Campo 24 de Agosto cerca das 07H00 do dia 25, tenta contactar o Corvacho e não consegue. Telefona então para o CICA e o Tenente Coronel Simões considerando a proximidade do quartel da GNR e a ausência de notícias do QG/RMN entende que deveria ter na Unidade uma força que lhe permitisse intervir onde fosse necessário e manda o Fonseca apresentar-se no CICA. Foi com elementos dessa força que eu fui restabelecer as comunicações aos TLP e ao Rádio Clube Português”.

“A outra alteração importante ao nosso Plano de Operações não tem a ver com comunicações, mas com imponderáveis que não são previsíveis. Estou a falar do que aconteceu ao Capitão Lopes Gomes 2.º comandante da PSP do Porto e que tem a ver com a situação com que me confrontei quando fui repor as comunicações aos TLP. O Capitão Lopes Gomes tinha tomado parte em muitas das reuniões efetuadas no CICA e tinha por missão garantir que a PSP/Porto não viria para a rua causar problemas e, portanto, não seria preciso qualquer força militar para a impedir de sair.

Aconteceu que vem a falecer, com um ataque cardíaco, oito dias antes do 25 de Abril. Portanto ficamos sem ninguém na PSP. Como é sabido quando cheguei ao cimo da rua de Ceuta para ir aos TLP, uma força da polícia que estava a tentar dispersar as pessoas que já se estavam a juntar na Avenida dos Aliados é corrida à pedrada pelos manifestantes”.

 

As forças libertadoras, junto ao edifício da PIDE (hoje, Museu Militar), no Largo Soares dos Reis /Rua do Heroísmo (Arquivo “Jornal de Notícias)
Ao centro: a antifascista e prisioneira política, Virgínia Moura, um nome incontornável do PCP, em festa na portuense Praça da República (foto Arquivo “Jornal de Notícias)

Acho que toda a gente reconhece os seus méritos no meio disto tudo, não?

“Acho que os meus méritos não foram assim tão importantes. Eu fui só o ‘capitão mais moderno’ do CICA 1, unidade que comandou as operações aqui no Porto enquanto as comunicações não foram restabelecidas e que tinha a força necessária para me possibilitar fazer o que fiz.”

 

Entrevista conduzida por José Gonçalves

Fotos de Carlos Amaro

Toda a entrevista pode ser lida na edição de dezembro de 2020 deste jornal.

 

01abr21

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