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Perfume e Poesia…

Carmen Navarro

 

O perfume e a poesia estão associados, tanto podem ser só olfativos com se manifestarem por outros sentidos, no entanto quase sempre ligados ao amor à sedução e mesmo ao erotismo.

A poesia é mais antiga do que a própria escrita, era feita para memorizar facilmente textos para serem levados oralmente para outras paragens. Portanto é mais antiga do que os perfumes, e já se manifestava para declarar amor e seduzir…

A poesia sempre se manifestou usando diversos temas. É graças aos sentidos que comunicamos com o mundo exterior. O olfato transporta-nos para um mundo de emoções associadas a memórias que se fixam na memória pelas fragrâncias. Já a poesia também se fixa na memória, mas pela mente, pelo sentir de cada um, são fragrâncias distintas que tanto podem criar repulsa como sedução.

O perfume dos sonhos…
É único.
O perfume da saudade…
Queima.
O perfume de um
momento feliz,
é inesquecível.
O perfume da loucura
é privilégio
de alguns.
O perfume dos teus beijos.
como será?…
O perfume
do teu corpo
gostava de guardar
num frasquinho
de cristal.
O perfume que me
acompanha sempre,
é o perfume
das coisas inúteis,
mas aquele perfume
que desejo
é o perfume
dos teus beijos…

C.Navarro

As primeiras referências ao perfume remontam às antigas civilizações do Próximo Oriente, especialmente ao Egito. Foram encontrados pequenos vasos com perfume de alabastro num período referente ao terceiro milénio antes de Cristo.

Na antiguidade o culto do perfume estava relacionado com a religião, os mortos e para os deuses.

Cleópatra era uma fervorosa utilizadora de perfumes que os usava com arte de sedução perfumando também os espaços a ela dedicados. O profundo conhecimento das flores mais aromáticas permitiu criar fragrâncias embriagadoras que flutuavam por todo o palácio. As mulheres que rodeavam a Rainha usavam argolas ocas, cheias de perfume, e as suas roupas e a água do banho eram igualmente perfumadas. Os homens usavam no corpo óleos de fragrâncias inebriantes.

Era um ato de Amor o homem oferecer perfume à sua amada.

Como foi sempre um ato de amor oferecer poesia para seduzir a amada.

Já o primeiro perfume com formula própria só se conhece a partir de 1370 criado para a Rainha Elisabeth, da Hungria. Era uma concentração de óleos essências, conhecido como “l’eau de la reine de Hongrie”.

Paris foi o berço do perfume e da sua indústria a partir do século XIX sempre ligado à moda, os grandes Costureiros criaram perfumes maravilhosos que são um prazer usar.

Os aromas dão um toque de charme na vida.

Muitos perfumes assim como poesia têm a expressão do sentimento do amor. Tanto as palavras como os aromas criam memórias e eternizam momentos que tanto podem ser em um pequeno frasquinho, ou numa folha de papel, como espalhados na natureza, tocam-nos sempre na alma, só porque Poesia é diferente de poema. A Poesia como o perfume é o que nos traz emoção. A poesia como um perfume traz sempre uma assinatura pessoal.

Vários poemas falam de amor. O poema, é o seu sentimento expressado em belas palavras, palavras que tocam a alma. Poesia é diferente de poema. O poema é a forma em que está escrito e a poesia é o que dá a emoção ao texto.

Hoje só trazemos poemas que falam de Perfume…

 

Nem o Perfume dos Cravos…

 

Nem o perfume dos cravos,

Nem a cor das violetas,

Nem o brilho das estrelas,

Nem o sonhar dos poetas,

 

Pode igualar a beleza

Da primorosa flor,

Que abre na tua boca

O teu riso encantador.

 

Florbela Espanca

 

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, em 8 de dezembro de 1894. Foi batizada como Flor Bela Lobo, e que opta por se auto nomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca, teve uma vida tumultuosa, que a autora soube transformar em poesia de grande qualidade. Acabou por se suicidar a 8 de dezembro 1930, em Matosinhos.

O Perfume

 

O que sou eu? – O Perfume,

Dizem os homens. – Serei.

Mas o que sou nem eu sei…

Sou uma sombra de lume!

 

Rasgo a aragem como um gume

De espada: Subi. Voei.

Onde passava, deixei

A essência que me resume.

 

Liberdade, eu me cativo:

Numa renda, um nada, eu vivo

Vida de Sonho e Verdade!

 

Passam os dias, e em vão!

– Eu sou a Recordação;

Sou mais, ainda: a Saudade.

 

António Correia de Oliveira

in “Antologia Poética”

António Corrêa d’Oliveira nasceu em São Pedro do Sul, em 30 de julho de 1878. Começou a publicar no final do século XIX. Foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura em 1933, seguindo -se mais quinze nomeações. Faleceu em 1960 em Belinho, Antas, Esposende.

Voz e Aroma

 

A brisa vaga no prado,

Perfume nem voz não tem;

Quem canta é o ramo agitado,

O aroma é da flor que vem.

 

A mim, tornem-me essas flores

Que uma a uma vi murchar,

Restituam-me os verdores

Aos ramos que eu vi secar…

 

E em torrentes de harmonia

Minha alma se exalará,

Esta alma que muda e fria

Nem sabe se existe já.

 

Almeida Garrett

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto, em 4 de fevereiro de 1799. Foi escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de Estado honorário português. Grande impulsionador do teatro em Portugal, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática. Faleceu em Lisboa, em 9 de dezembro de 1854.

A margem

 

Ando feita de crisântemos

luz, banhos de ouro

e perfumes franceses.

Nota-se assim que falo

que um outro eu me substituiu.

Sou agora quase feita de

anúncio de tv,

cara de porcelana e alma

de fermento.

 

Sonhei.

 

Os demónios da boca seca

fizeram-me levantar da cama e

suspensa por um fio de vida

redimi-me à margem solta

de um suspiro que ainda

falta.

 

Desfez-se-me o fermento e

a alma, encolhida,

coube-me perfeitamente na

fronha da almofada.

 

Cláudia R. Sampaio

Cláudia R. Sampaio nasceu em Lisboa em 1981. Estreou-se na escrita para o Teatro. É poeta e pintora, foi guionista de televisão e cinema. Presentemente dedica-se às Artes Visuais. Vive em Lisboa.

Perfume Exótico

 

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,

Respiro o doce odor do teu colo abrasante,

Vejo desenrolar paisagem deslumbrante

Na auréola de luz d’um triste sol de outono;

 

Um éden terreal, uma indolente ilha

Com plantas tropicais e frutos saborosos;

Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,

E mulher’s cujo olhar honesto, maravilha.

 

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;

Vejo um porto ideal cheio de caravelas

Vindas de percorrer países estrangeiros;

 

E o perfume subtil do verde tamarindo,

Que circula no ar e que eu vou exaurindo,

Vem juntar-se em minh’alma à voz dos marinheiros.

 

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”

Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821. Foi um poeta boémio e dandy, teórico da Arte francesa. Foi um dos percursores do simbolismo e fundador da Modernidade em Poesia, juntamente com Walt Whitman. Foi profundamente grande influenciador nas Artes Plásticas do século XIX, com a sua obra teórica. Faleceu em Paris a 31 de agosto de 1867.

Destas poesias fica o perfume das palavras que nos embriagam…

Queria ser o perfume raro, aquela essência que a poesia tem que sempre nos perfuma. Na primavera os perfumes andam no ar, o vento os carrega para a poesia os descrever…

 

Boas Leituras!…

 

 

Fotos: pesquisa Web

01abr21

 

 

 

 

 

 

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