Menu Fechar

Ruth Escobar, a Mulher do Porto (que não é nome de rua…)

Maria Manuel Aguiar

 

 

“Ruth Escobar”, pintura de Júlio Pomar – óleo sobre tela – , de 1987

  1 – Numa das minhas rondas pré-pandemia pelos alfarrabistas, fiz um pequeno achado – um interessante livro sobre a toponímia feminina do Porto, da autoria do historiador César Santos Silva, com um prefácio de Joel Cleto. A edição é de meados de 2012, não muito recente, mas receio que mantenha, no que respeita à gritante desigualdade de género neste domínio, toda a atualidade. Não parece ser tema de que as (e os) feministas façam bandeira, e de que os autarcas, poder eminentemente masculino, tenham consciência.

O Autor apresenta 146 topónimos femininos, no Porto. mas entre eles, com boa vontade e simpatia, somando dezenas e dezenas dos mil e um nomes da Nossa Senhora, um bom número de Santas, a começar por Santa Catarina, cuja existência continua envolta numa nebulosa,  e algumas, poucas, rainhas e princesas, entre outras ruas que pertencem, gramaticalmente, ao género feminino, mas não designam mulheres individuais. E, em alguns casos, nem se sabe, ao certo, o que designam…

Se nos concentramos nas celebridades dos últimos dois séculos, o número desce, dramaticamente, para apenas 33… Entre estas, antes de 1974, apenas seis:  Florinha da Abrigada, a Sãozinha (1948), Felicidade Browne (1949), Guilhermina Suggia, (1951), Aurélia de Sousa (1954), Cecília Meireles (1971) e  Amália Luazes (1973). Carolina Michaelis já dava nome ao liceu, porém, só teve direito à sua rua em 2001.

A partir de 1974, mais 27 senhoras ilustres receberam essa honra, sendo, maioritariamente, nascidas ou residentes na cidade.  A percentagem de estrangeiras (7, no total) é relativamente elevada, e maior seria se incluíssemos santas e rainhas. Entre as nacionais não portuenses se encontram – e muito justamente – figuras como Natália Correia, Maria Lamas, Sarah Afonso ou Vieira da Silva.  Olhando os domínios em que se distinguiram, concluiremos que predominam a escrita, a música (de Suggia às nossas grandes pianistas), o professorado (universitário, sobretudo) e as Artes plásticas, algumas acumulando a excelência no campo artístico ou académico com a intervenção cívica e política.

Mais raras são as mecenas (duas), as santas populares (duas) e aquela outra que alcançou a fama como modista (a Candidinha).  Na área do Desporto, abundam campeãs do mundo, de Aurora Cunha a Fernanda Ribeiro,  só Rosa Mota mereceu destaque, e não numa pequena via citadina, mas num grandioso pavilhão polivalente

A década mais fausta  ao reconhecimentos dos méritos femininos na toponímia foi a de noventa, (com um pico em 1991/1992), seguida dos primeiros anos do novo século – 2000/2006.

Note-se que houve mulheres que foram, assim, homenageadas pelo poder municipal pouco após o falecimento, caso de Virgínia de Moura, Helena Sá e Costa, ou Sophia e outras que esperaram mais de um século para alcançarem o seu lugar na toponímia – por exemplo, Ana Plácido e a feminista e republicana Albertina Paraíso, de quem, felizmente, se lembraram, tardiamente embora, nas comemorações de 2010.

Não há, neste seleto círculo, uma só portuense da Diáspora. Há mulheres que vieram do estrangeiro ou que lá, transitoriamente estudaram ou viveram. O que não há é emigrantes não retornadas, pelo menos do Porto… longe da vista, longe do coração!  A exceção que confirma a regra, a pintora Maria Helena Vieira da Silva, é lisboeta e, ao mesmo tempo, parisiense, o que lhe confere um grau particular de visibilidade e prestígio. La France!…

Longe, verdadeiramente longe, fica o Brasil, para onde foi Maria Ruth do Santos, a menina de Campanhã, que morava na Rua do Bonjardim e se transformou, em São Paulo, na tão brilhante e mediática Ruth Escobar.

2  –  Após a morte de Ruth, em 5 de outubro de 2017 – uma perda evocada em todo o Brasil, com eco em Nova Iorque, nas Nações Unidas –   fez-se sobre ela, no país de origem, um estranho silêncio. Na sua terra, só uma associação, da qual sou fundadora, a Associação Mulher Migrante, lhe prestou a homenagem possível durante um colóquio sobre relações luso-brasileiras.

Alguns meses depois, influenciada pela leitura do livro de César Santos Silva, que tivera apoio institucional da autarquia, tomei a iniciativa de me dirigir à Comissão de Toponímia da Câmara Municipal do Porto, lembrando a personalidade desta portuense, a sua ligação afetiva à cidade onde passou os primeiros dezasseis anos de vida e o extraordinário percurso que a tornou a portuguesa da sua geração mais conhecida e admirada no Brasil, como atriz, produtora teatral, mulher de Cultura e ativista dos Direitos Humanos.

Uma imigrante singular, admirada pela inteligência, pela audácia e pelo modernismo, uma mulher que nunca receou desafiar os poderes constituídos, em ditadura, nem enfrentar grandes polémicas. Aos compatriotas impressionava o orgulho com que se afirmava portuguesa e portuense. A sua autobiografia, publicada em 1987, começa assim: “Lembro-me do trajeto invariável de todos os dias: da Rua do Bonjardim subo a João das Regras, atravesso a Praça da República, desço a Rua dos Mártires da Liberdade, e entro na Praça Coronel Pacheco – onde ficava o Liceu Carolina Michaelis”. Liceu, onde descobriu a vocação teatral, representando, um a um, todos os Diabos, dos Autos de Gil Vicente.

Esse primeiro capítulo do livro “Maria Ruth” é, todo ele, dedicado à vivência na cidade, aos passeios ao Palácio de Cristal, ou à Foz, às sessões de cinema no Rivoli, às festas populares de São João. As boas recordações da adolescência são, sobretudo, desses ambientes com que se identifica. Como confessa: “só consigo lembrar os barulhos de fora, da rua, da cidade, dos outros. De dentro de casa, do dia a dia, nada…” . Até que, um dia, partiu à aventura: “quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente”. E, de facto, foi cumprindo os seus sonhos de jovem imigrante, a ritmo vertiginoso.

Aos 18 anos, editava uma revista “Ala Arriba” e, na qualidade de jornalista (amadora), corria o mundo, entrevistava uma longa lista de líderes famosos como Foster Dulles, Kruschev ou Nasser, via as suas reportagens serem disputadas por revistas como a “Life”, e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, Entre os seus 20 e 30 anos, impôs-se como empresária e produtora de teatro e, depois, como atriz talentosa.

No Teatro a que deu o nome, (já não Maria Ruth dos Santos, mas Ruth Escobar, apelido do segundo marido, o poeta, dramaturgo e filósofo Carlos Escobar), levou à cena tanto os prediletos autos Vicentinos como peças contemporâneas. Em 1963, criou o Teatro Nacional Popular, itinerante, que chegava às periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, com espetáculos de grande  qualidade (Martins Pera, Suassuna…) em palco improvisado num velho autocarro.

O seu terceiro marido, o arquiteto Wladimir Cardoso, viria a ser o cenógrafo de peças de enorme êxito artístico, como “Cemitério de automóveis” de Arrabal, com montagem do argentino Vitor Garcia e encenação da própria Ruth: uma dupla que, em 1969, com “O balcão” de Jean Genet, venceria todos os prémios do ano, no Brasil.
A partir de 1964, ainda jovem, na casa dos 30 anos, durante a ditadura, converteu o seu teatro em fórum de luta pela liberdade, resistindo a ameaças, interrogatórios, prisões, e ataques de comandos paramilitares. E, nessa década, trouxe Portugal, vencendo obstáculos postos pela “Censura”, alguns dos seus maiores sucessos, “Missa leiga” e “Cemitério de automóveis”.

Em 1974, organizou o 1.º Festival Internacional de Teatro de S. Paulo, levando ao Brasil as melhores companhias do mundo e contribuindo para um movimento renovador das Artes dramáticas brasileiras, que prosseguiu com o 2.º Festival, em 1976. Em Portugal, por influência das “três Marias”, com quem conviveu, acrescentou o feminismo às suas causas, e, no Brasil, voltou a fazer história, como pioneira no terreno da política, tornando-se a primeira mulher eleita e reeleita deputada à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, pois teve sempre só uma nacionalidade, a portuguesa).

Foi também a primeira Presidente do “Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres” e, durante anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres  Depois de quase uma década nos palcos políticos nacionais e internacionais, regressou, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como intérprete, empresária e promotora de festivais internacionais, em novos moldes, mais abrangentes de outras artes. A sua herança teatral, enraizada no Gil Vicente da juventude, e no vanguardismo em que projetou a sua criatividade, ao longo de décadas, mudou a face do moderno teatro brasileiro! A sua última grande produção seria uma encenação de  “Os Lusíadas”, que estreou em São Paulo e trouxe a Portugal.
.Em vida, Ruth Escobar recebeu as maiores condecorações brasileiras, a “Legião de Honra” da França, e a “Ordem do Infante D Henrique” de Portugal.

A sua morte, em 2017, foi notícia impactante no Brasil, onde fica vivo  seu legado de intelectual vanguardista, que revolucionou o teatro nacional e de feminista portuguesa, que abriu caminho à intervenção política das mulheres brasileiras.

Percorro os nomes femininos da toponímia portuense e julgo que Ruth acrescentaria a essa lista tão reduzida, quanto significativa, a mais-valia da sua singularidade.

Ruth Escobar – foto de 1999

3 – Estas considerações sobre Ruth Escobar são puramente objetivas, poderia tecê-las sobre alguém com quem nunca me tivesse cruzado, alguém, porventura, de um tempo passado ou de uma geografia desconhecida. Mas, num plano mais subjetivo, vou contar como a vi pela primeira vez, em São Paulo.

Não consigo precisar a data, mas, sendo, então, deputada da emigração, entre uma saída e um regresso à Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, terá acontecido entre fins de 1981 e meados de 1983. Recordo que a minha visita foi organizada por um Cônsul-Geral muitíssimo simpático, que, por fim, me convidou para uma receção, na sua residência, com uma dezena de participantes, entre os quais Ruth, a deputada, que fazia furor. Na mesa redonda, o protocolo colocou-nos lado a lado e a sintonia foi imediata. A conversa começou e continuou centrada no Porto, no nosso Porto…

Ela era uns anos mais velha do que eu, mas o país, nesses anos, não mudara, em nada… nem o liceu, nem as mentalidades, os costumes, a vida das adolescentes – que voltamos a ser, nas rememorações desse jantar, rindo e extravasando genuína e juvenil alegria. No dia seguinte, o Cônsul contou-me que ficara muito surpreendido ao constatar que Ruth e eu éramos amigas de infância. Acho que, de novo, muito o surpreendi, ao dizer-lhe que não, que tinha conhecido a famosa Escobar naquela noite…

Pouco depois, segundo encontro inesquecível, também em São Paulo, com Natália Correia. Natália e Ruth! A corrente passava entre ambas – qual delas a mais heterodoxa, a mais fulgurante, a mais carismática… Ruth, tal como Natália, parecia viver, sempre, vertiginosamente e em festa, cada momento, cada ideia, cada projeto…Bem gostaria de as ver, um dia, reunidas na toponímia do Porto.

 

 

Fotos: pesquisa Web

 

01abr21

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.