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Escandaleira

António Pedro Dores

 

Motivos de escândalo não faltam. Para não falar da guerra, da doença mental, da degradação ambiental, o motivo do escândalo poderia ser um primeiro-ministro andar a vender a personalidade ou as escolas terem que ficar abertas para as crianças mais pobres poderem beneficiar de uma refeição quente ou haver muitos doentes de cancro que não foram atendidos pelo serviço nacional de saúde em contracorrente ao confinamento. Mas não: a escandaleira foi um juiz dizer o que lhe pareceu ser de dizer perante um caso que lhe apresentaram, confirmando o que já se sabia: nos casos de corrupção, as provas não existem.

Vamos por partes. Um ex-primeiro ministro, dizem as minhas fontes, arrecadou 170-180 milhões de euros na sua vida política. Foi acusado publicamente, enquanto exercia o cargo, de ser corrupto por companheiros de partido, como João Cravinho. Falcatruou um curso superior de engenharia – caso que ocupou a oposição mais aguerrida – obrigando o seu próprio governo a fechar a universidade que nisso colaborou, por ser prática corrente. Manteve o partido do poder do seu lado e os da oposição a dizer que isso eram problemas de personalidade e nada tinham a ver com política. A direita exultava e votava nele, para que continuasse a sua política de ostracização e humilhação dos funcionários públicos, de médicos, professores, juristas, todos menos os engenheiros. Exultou sobretudo quando o governo de Sócrates, a pretexto de alavancar o investimento, amnistiou a fuga de capitais e facilitou as lavagens de dinheiro, permitindo o seu repatriamento, de que beneficiou muita gente, incluindo o próprio primeiro-ministro. Quando o Passos Coelho teve luz verde para substituir o governo, para dizer alguma coisa de diferente do que já era a política seguida, teve de dizer que queria ir para além de Sócrates, para além da troika.

Por esses anos, uma cantora deu nas vistas por cantar na rua “Acordai!”, como aprendeu com Lopes Graça. Sem resultados conhecidos. Até hoje.

A presidência da Comissão Europeia foi ocupada por um senhor com nome de esquentador acusado de organizar a fuga aos impostos no seu país e na União Europeia. Os poderes instituídos não viram nisso razão suficiente para ponderar nem a substância nem o mau aspecto. A Europol informa que mesmo os polícias mais experimentados ficam impressionados com a facilidade com que figuras com poder institucional aceitam colaborar com o mundo do crime, sendo que nos países mais ricos a diferença é que o valor da venda de personalidade tem uma cotação mais alta. Manuela Ferreira Leite, depois de ter desistido de suspender a democracia e da tese de as pessoas com mais de 70 anos deveriam deixar de ter acesso ao serviço nacional de saúde, explicou, seguindo as mensagens mediáticas de Bill Gates, que o problema do país não são os ricos, mas a falta de ricos. Houve quem lhes respondesse que 1% mais ricos emitem o dobro do CO2 da metade da população mais pobre.

Sócrates, fiel às políticas de direita, seguindo práticas banalizadas na Europa, terá contribuído pessoalmente para aumentar o número de ricos, cobrando, talvez, como cobram os políticos dos países ricos. O país dividiu-se e divide-se perante a figura. Reúne-se em unidade para se escandalizar ao lado, a pretexto de um acórdão de instrução, que tem a vantagem de parecer que ainda se faz política em Portugal, depois de meses de estado de emergência.

Para a direita, os submarinos nunca existiram. Para a esquerda, a Casa Pia foi uma conspiração. Para a direita e a esquerda, por estes dias, são os juízes os únicos que dão machadadas na justiça. Nem os partidos, nem os jornalistas, nem os comentadores, conhecem como funciona a Europa e o país. Paulo Morais nunca lhes explicou devagarinho os nomes e moradas de variadíssimos golpes de que tem conhecimento. Continua a ser processado como criminoso, a testar a sua resiliência e a vulnerabilidade dos tribunais. Usam o crime de difamação para produzir aquilo que a comissão de censura fazia no regime fascista. Inibir a circulação de informação estrutural. Isso não é notícia. Nem as perseguições de que é alvo, nem a abertura da justiça a cumprir esses propósitos persecutórios à sombra das leis contra a difamação, nem as decisões judiciais que sucessivamente lhe são dirigidas são discutidas. Os denunciantes sofrem e, por isso, a esmagadora maioria cala. A coragem de falar não é recompensada nem tem efeitos práticos: basicamente, tudo fica na mesma. O quarto poder, se alguma vez existiu a respeito da justiça, hoje mais parece propaganda.

Mas agora, prometem alguns comentadores e pedem os jornalistas, alguma coisa tem de mudar. Nada na comunicação social: tudo no sistema judicial. Vozoaria mais influenciável escreve um manifesto, imediatamente subscrito por milhares de pessoas, para que expulsem os juízes que não decidam conforme as notícias sugerem que se deva decidir. Nas redes sociais, circulam dichotes apostos a jornais do tempo dos últimos meses da república, pouco antes do golpe militar de que veio a surgir o Estado Novo, a dizer cobras e lagartos dos magistrados. Os simplórios riem. Perguntados por que riem, respondem que não querem saber de política. Não fosse o confinamento, estou certo de que me diriam que o que lhes interessa é o trabalho.

Em resumo, se bem percebo os motivos da discussão irracional que animou uns dias desta nossa pandemia, no mês de Abril, sob a forma de escândalo: o primeiro-ministro vender a personalidade, que é a acusação que se sustenta, é pouca. A acusação boa seria a de dizer que havia provas indiciárias de corrupção no valor de 30 e tal milhões de euros, mesmo que se tivesse de esperar mais tempo. A lógica é quantitativa: 30 milhões é mais do que 1,7 milhões, em euros; a perspectiva de 15 anos de prisão que se cumprirão ou não um dia, é mais do que 3 anos de prisão bem fundamentada.

Nenhum desse dinheiro, nem da maior parte do que foi acumulado, está ou vai ser arrestado. Mesmo que fosse arrestado, Sócrates continuaria a ser um homem muito rico. Sempre irá continua a ser mais um rico, com conta nalgum paraíso fiscal, muito bem acompanhado e melhor protegido por leis que, desta vez, não foi ele quem as assinou.

  

Foto: Marcos Borga (Visão)

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 01mai21

 

 

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