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Estará o futebol em perigo?

Orlando Esteves

 

Era uma vez…

Era uma vez uma bola…

Era uma vez uma bola que, em várias versões, corria o globo sem olhar para a raça, para o género ou para a classe social…

Era uma vez uma bola que, sem comunicar, tinha o poder de transformar a diferença em igualdade e a igualdade em diferença sem discriminar…

 

Era uma vez um campo…

Era uma vez um campo com linhas imaginárias…

Era uma vez um campo “pelado” …

Era uma vez um campo relvado sintético…

Era uma vez um campo relvado verdadeiramente bem tratado…

 

Era uma vez uma baliza…

Era uma vez uma baliza feita com duas pedras…

Era uma vez uma baliza para os que ainda agora aprenderam a caminhar…

Era uma vez uma baliza para os que começam a sonhar…

Era uma vez uma baliza para os que jogam sempre para ganhar…

 

Era uma vez um menino…

Era uma vez uma menina…

Era uma vez alguém que, sem nada saber, sabia que gostava futebol

Era uma vez uma paixão…

Era uma vez uma paixão que, do nada, passou a ser tudo…

Era uma vez uma paixão que, do nada, passou a ser tudo e, sendo tudo, não há nada que a explique…

 

Era uma vez um desporto ao qual chamavam futebol e que, segundo Arrigo Sachi, era “a coisa mais importante das menos importantes” na nossa vida…

Talvez hierarquizar aquilo que faz parte da nossa vida seja um mau princípio de conversa contudo, é certo que todos temos a capacidade de identificar o que é importante sem que, para isso, seja necessário colocar algo em primeiro lugar.

Deste modo, sem radicalismos e apelando à racionalidade que distingue a espécie humana, depois daquelas prioridades que todos temos na nossa vida, a realidade é que, para aqueles que, como diria Luís Freitas Lobo, “amam verdadeiramente o futebol”, esta modalidade assume uma importância enorme ainda que, para afirmar isto, não tenhamos que ordenar as nossas preferências.

É extremamente complexo explicar o impacto que um jogo tem na vida de milhões de pessoas, desde miúdos a graúdos, passando pelos quatro cantos do mundo e unindo contextos totalmente distintos que, na maioria dos assuntos, assumem posições opostas e, neste, conseguem entender-se.

Perante tal fenómeno, talvez tudo se resuma a dois caminhos paralelos que, a certa altura, se encontram, dando origem a algo tão fascinante… Mas que caminhos serão esses?

Se um simbolizará, inequivocamente, aquilo que representa apenas mais um desporto que é praticado a nível mundial e que vai suscitando algum interesse, o outro bem poderia ser o da magia, dando assim o pequeno toque que transforma um simples desporto numa modalidade que enfeitiça milhões.

É difícil, para todos nós, verbalizar aquilo que nos faz gostar tanto deste jogo e, ainda mais complicado será identificar o momento em que deixou de ser apenas mais um para assumir importância no nosso dia-a-dia.

Ainda assim, todos conseguimos recordar alguns dos primeiros momentos em que interagimos com o futebol sendo, provavelmente, os jogos a que assistimos in loco alguns dos mais marcantes.

Num país com uma mentalidade um tanto ou quanto tradicionalista e que, por consequência, costuma estar relacionado com alguma cultura bairrista, é bastante provável que as primeiras interações com o futebol estejam associadas ao clube da cidade ou, por vezes, até ao da própria aldeia ou vila.

Apesar de, nas últimas décadas, o desenvolvimento tecnológico ter contribuído de alguma forma para que a ligação às raízes fosse perdendo intensidade, a verdade é que algumas gerações ainda vão transmitindo o brilhantismo de outros tempos, viajando até às célebres tardes de domingo que eram celebradas com a ida de toda a família ao futebol.

Diz-se que eram outros tempos… Para além de não existirem tantos pontos de interrogação relativamente à segurança das crianças e, quiçá, dos próprios adultos, os estádios costumavam estar bem compostos, estivesse em campo um emblema do principal escalão do futebol português ou algum das divisões secundárias… Na realidade, o mais importante seria a partilha de momentos com os familiares que começava bem antes do apito inicial…

Naturalmente, não deixava de existir um espírito competitivo e, por ser assim, todos queriam que o clube que, muitas vezes, “carregava” o nome das suas origens chegasse ao patamar mais alto. Era possível… De vitória em vitória, rumo à conquista do respetivo objetivo!

Com o passar dos anos, toda esta envolvência foi desaparecendo e, apesar de não ter sido totalmente, é evidente que a tendência será para, cada vez menos, ela ser uma realidade.

Diz-se que os tempos mudaram… É um facto! Ao longo dos anos, fomos assistindo a inúmeras alterações que foram transformando o mundo e, naturalmente, a sociedade também se adaptou às mesmas.

Na verdade, volta a ser crucial que não entremos em radicalismos e consigamos refletir sobre o impacto positivo que algumas dessas mutações tiveram na nossa realidade, tal como também será importante que consigamos refletir sobre o que não nos trouxe de tão bom.

Assim, mais que principiar um aceso debate entre gerações no qual, claramente, todos perderíamos, é imperativo que estejamos atentos ao presente e ao que podemos fazer para o melhorar.

Hoje e conforme foi referido anteriormente, o país continua a ser um pouco tradicionalista e, por aí, ainda vislumbramos alguns exemplos de cultura bairrista contudo, a tendência para a globalização é clara e, certamente, irreversível.

Como se costuma dizer, “tudo o que é demais, enjoa”, ou seja, no que concerne a esta questão, o vocábulo “equilibro” poderá ser a chave para a solução. Assim, será importante que não deixemos desaparecer a ligação com as nossas raízes contudo, também não devemos “travar” aquela que vamos criando com o mundo e que tanto nos enriquece.

Mas… o que terá isto a ver com o futebol? Tudo!

Com o passar dos anos, os adeptos dos “clubes da terra” e que apenas simpatizavam com um dos chamados “três grandes” passaram a apoiá-los, colocando em segundo plano os que, outrora, eram os mais importantes. Mais tarde, ou seja, em tempos mais recentes, alguns adeptos dos “três grandes” também afirmam que simpatizam com determinados clubes estrangeiros. Posto isto, qual será a tendência?

O mundo mudou, está a mudar e estará em constante transformação no entanto, há algo que parece ser claro: se, há algumas décadas, o importante seria apoiar o clube da cidade, mesmo que fosse teoricamente mais fraco, atualmente parece ser mais relevante o poderio dos emblemas e, por consequência, a maior probabilidade de vencer.

Em suma, tudo está relacionado: com a perda de ligação às raízes, o “adepto” estará mais interessado em apoiar o clube que ganha maior regularidade e se, num determinado momento da história, isto já acontecia a nível nacional, com a globalização, poderá tornar-se num fenómeno à escala global.

Também neste contexto, jamais poderão ser esquecidos os interesses financeiros de cada clube que estão, indubitavelmente, ligados ao número de adeptos.

Num esquema que nos indica que o sucesso financeiro e o sucesso desportivo dependem um do outro, que o primeiro depende dos adeptos e que, logicamente, o segundo também deveria depender, “mergulhamos” numa questão de enorme complexidade.

Não devia ser óbvia a relação de dependência entre o sucesso desportivo e os adeptos?

À partida, sim! Ainda assim, temos assistido a alguns exemplos de que, por vezes, o sucesso desportivo poderá não ter o mesmo valor semântico para todos.

Para o adepto, o sucesso desportivo estará sempre associado à concretização dos objetivos definidos para as várias competições em que estão inseridos porém, para o presidente/proprietário de um clube, poderá não ser exatamente assim.

Simplificando esta temática, existem vários tipos de liderança sendo que, entre elas, importa abordar duas: a que, tal como o adepto, vê no sucesso desportivo a obtenção de títulos, promoções entre outros objetivos e a que tem uma filosofia empresarial, definindo o mundo do futebol como um espaço onde é possível realizar bons negócios ainda que, para tal, nunca seja possível descurar totalmente a obtenção de bons resultados.

Perante tudo isto, surge a tão famosa e controversa Superliga.

Muito foi dito e escrito sobre esta competição que nunca foi jogada e que, nos próximos tempos, dificilmente será.

Por aqui, poucas novidades poderão ser redigidas!

É evidente que a realização desta competição reforçaria a tendência que foi apresentada nas linhas anteriores e, em sentido inverso, seria “mais um prego no caixão” no lado mais tradicional da modalidade.

O lado mais tradicional da modalidade somos nós, os adeptos!

Desde os seus primórdios, esta modalidade sempre foi feita para as gentes que, desde cedo, a praticavam, alimentando um sonho ao alcance de muito poucos e que, não o conseguindo alcançar, não deixavam de a acompanhar por esse mundo fora, assistindo a competições épicas e a partidas memoráveis.

O futebol dos adeptos é jogado na rua, no “pelado”, no campo da vila ou num estádio com capacidade para milhares sem que isso seja o mais importante.

O futebol dos adeptos é jogado e vivido por qualquer um, seja rico ou pobre.

O futebol vive da imprevisibilidade: como tantos disseram e como muitos dizem, “no futebol, não há impossíveis”.

O futebol vive do sonho da criança que quer ser jogador ou do adulto que acredita que o clube da vila pode derrotar o da grande cidade.

O futebol é de todos e para todos!

Deste modo, competições como a Superliga são uma armadilha para que, no futuro, o nosso lugar seja ocupado pelo sucesso financeiro.

Não o devemos permitir! Não o podemos permitir!

O objetivo desta modalidade terá de ser sempre a felicidade de todas as pessoas e não apenas o sucesso financeiro de algumas.

Se, como dissemos no início, este desporto é importante para nós, temos de o preservar.

Como?

Preservando o que tem de bom e melhorando o que pode ser melhorado.

Estará o futebol em perigo?

Talvez não!

Porquê?

Porque, desta vez, vencemos!

 

 

Fotos: pesquisa Web

 

01mai21

 

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