Menu Fechar

Futura extensão do Museu da Cidade, no antigo Matadouro Industrial, acolherá “Coleção Távora Sequeira Pinto”

 A coleção particular de Távora Sequeira Pinto vai ficar na futura extensão do Museu da Cidade, a ser erguida no Matadouro Industrial de Campanhã. Integra mais de 1.100 peças de pintura, escultura, mobiliário, têxteis, objetos de uso quotidiano, entre outro tipo de peças e obras. A proposta do contrato promessa de comodato foi aprovada esta manhã em reunião de Executivo Municipal, por unanimidade. “Ato de generosidade” para com a cidade foi destacado.

Depois de em outubro do ano passado o auto de consignação ter dado o arranque oficial ao projeto de reconversão do antigo Matadouro Industrial de Campanhã, começam a criar-se condições para o nascimento dos projetos culturais que ali vão nascer. O novo Museu da Cidade vai ter neste espaço mais uma extensão, aquela que terá a oportunidade de acolher a coleção Távora Sequeira Pinto, uma das mais relevantes e valiosas coleções residentes em Portugal.

Trata-se, portanto, de mais um passo que a Câmara do Porto anuncia para este importante projeto-âncora de desenvolvimento da zona oriental, com assinatura do arquiteto japonês Kengo Kuma, em parceria com o ateliê portuense OODA. A inauguração está prevista para 2023.

Nuno Faria

Em reunião de Câmara, Nuno Faria, diretor artístico do Museu da Cidade, revelou a singularidade de algumas das peças, que partem de um conjunto que se estende de pintura, escultura, desenho, a mobiliário, têxteis, ourivesaria, objetos religiosos, objetos de uso quotidiano, artefactos exóticos, entre outros mais particulares. Adquiridas por Álvaro Sequeira Pinto, fruto de intenso estudo e dedicação pessoal, “o espectro temporal e geográfico é também ele vasto, entre a Índia, a China e o Japão, ou outros países em que a presença dos portugueses foi historicamente importante, tendo incidência nos séculos XV e XIX, mas ampliando-se à antiguidade clássica e a outras épocas”, referiu o responsável.

A coleção, com enfoque humanista, assenta na ideia de “contaminação e de fusão de formas, de motivos e de materiais que dão corpo a um sincretismo religioso, espiritual e cultural”, informou também Nuno Faria, reforçando que este protocolo de comodato das peças, não só acrescenta valor à coleção municipal, como a “projeta para um patamar de excelência internacional”.

Aliás, algumas das peças desta coleção, que começou a consolidar-se desde a década de 80, foram apresentadas em importantes instituições desde a presença na Europália 91′ na Bélgica, como pelo V&A Victoria and Albert Museum, em Londres, os Museus Capitolinos, em Roma, e o Asian Civilisations Museum, em Singapura. Doravante, vão encontrar no novo espaço museológico, em Campanhã, lugar para que possam, pela primeira vez, ser mostradas no seu conjunto integral para fruição dos habitantes da cidade e daqueles que a visitam.

Dada a sua abrangência e localizada no momento da expansão marítima e comercial dos portugueses, a coleção Távora Sequeira Pinto constitui ainda, para Nuno Faria, um “fascinante mosaico de influências recíprocas, e por essa razão é um campo de estudo particularmente fértil”.

Por outro lado, e na construção de um museu para o tempo atual, para o diretor artístico a extensão que se vai erguer no Matadouro (ainda sem nome), vai constituir-se como “pivotante” no debruçar sobre feridas que o passado e o presente da sociedade têm aberto, contribuindo para uma reflexão “que considere os contextos e as diferentes narrativas históricas, que integre vários pontos de vista para além de uma perspetiva eurocêntrica, que as ponha à discussão, que fomente um debate descomplexado do ponto de vista social, rigoroso do ponto de vista histórico, tolerante do ponto de vista religioso, iluminado do ponto de vista espiritual, estimulante do ponto de vista museológico”, referiu.

Álvaro Sequeira Pinto, que também esteve presente na reunião de Executivo Municipal durante a apresentação, assumiu-se como colecionador emocional e disse estar pronto a partilhar o que considera ser “um livro em aberto que deixo para folhear páginas de sementes”, ou uma coleção rica em “interrogações ainda nela existentes, as dúvidas por responder, os diálogos inerentes, os cruzamentos constantes”.

“Estes quase 30 anos de colecionador têm sido uma enorme viagem, com inúmeros percursos, uma grande aventura de estudo e dedicação”, realçou, sinalizando que a viagem segue agora “um novo rumo”, “que abrirá a coleção a novos diálogos, a colocará à fruição e serviço do público e a submeterá abertamente ao mundo e à ciência”.

UM DOS MOMENTOS MAIS IMPORTANTES DA GOVERNAÇÃO, FEZ QUESTÃO DE SALIENTAR RUI MOREIRA

“A partir do Porto, minha cidade natal. Num museu moderno e descomplexado, simples e com um discurso expositivo linear; com um programa dinâmico e propulsor de diálogos e interações com o universo que a própria coleção reflete”, afirmou ainda Álvaro Sequeira Pinto, acrescentando que quando o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, o abordou sobre a possibilidade deste projeto, “soube fazê-lo com a delicadeza de alguém que compreende bem as ligações afetivas de um colecionador”.

Rui Moreira, que levou a proposta à aprovação do Executivo Municipal, assinalou este como “um dos momentos mais importantes” da sua governação, revelando que foi numa viagem a Atenas que se apercebeu de que haveria abertura de Álvaro Sequeira Pinto em disponibilizar a sua coleção para fruição do público.

“É um ato de grande generosidade”, considerou o autarca, para quem o facto de a coleção ficar visitável na freguesia de Campanhã é o “sinal último do empenho da cidade relativamente àquele território”, vincou Rui Moreira.

Em nome do Partido Socialista, o vereador Manuel Pizarro quis manifestar a Álvaro Sequeira Pinto “a gratidão da cidade à sua ação”, repetindo que é “um ato de generosidade” o facto de a coleção “passar a ser claramente nossa”.

Da CDU, a vereadora Ilda Figueiredo quis também agradecer ao colecionador “a disponibilidade de criar condições para que a coleção pode ser apreciada pelo público”.

Na zona oriental, o Museu da Cidade vai ainda construir ao longo dos próximos dois anos as extensões da Indústria, na antiga central elétrica CACE, e da Natureza, na Quinta da Bonjóia. Se na Extensão da Indústria vai mergulhar na relação dos corpos com as máquinas nas várias facetas da industrialização, no Matadouro vai abrir-se à possibilidade de analisar multiculturalidade. A última estação da Bonjóia, designada Extensão da Natureza, regressa à relação mais básica e fundamental com a terra, através da condição migratória das sementes e dos sabores, num projeto baseado na boca, lugar de todas as fusões.

 

Texto: Porto. / Etc e Tal jornal

Fotos: Miguel Nogueira (Porto.)

 

01mai21

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.