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Isto é gozar com a Língua Portuguesa

Joaquim Castro

 

 

Carlos Moedas, ex-deputado do Parlamento Europeu e ex-secretário de Estado, no Governo de Passos Coelho, é candidato pela coligação PSD/CDS, à Câmara Municipal de Lisboa nas eleições autárquicas de 2021. Por essa razão, foi convidado do programa da SIC, “Isto é Gozar Com Quem Trabalha, do dia 28 de Março de 2021. Tenho reparado que Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que Carlos Moedas quer derrotar, também não é muito de respeitar a regras da nossa Língua. Mas Moedas ultrapassa-o, a todo o gás! No referido programa, Carlos Moedas utilizou expressões, como “tou aqui”, “vou tar aqui”, “não tão naquilo que era o seu ambiente”, “aprendi muito, pá”. Até me lembrei de Otelo Saraiva de Carvalho, para quem todos são “pá”! Fernando Medina, disse recentemente, na TV, que as obras que estão a decorrer em Lisboa, representam um investimento “vultuoso”, quando deveria ter dito “vultoso”. A palavra “vultuoso” também existe, mas refere-se a alguém ou a alguma coisa volumosa, de grandes proporções. É um adjetivo pouco utilizado e refere-se a uma pessoa que sofre de vultuosidade, ficando com a face e os lábios vermelhos e inchados, e com os olhos salientes.

“VETERNÁRIO”

Em 12 de Abril de 2021, Júlia Pinheiro, no seu programa “Júlia”, que apresenta de segunda a sexta-feira, na SIC, apresentou um convidado, “que já tinha sido “veternário”, ou seja, que já tinha sido “veterinário”. A apresentadora falava com Filipe Vargas, com quem esteve à conversa. Mas este tipo de pronúncias tem muitos seguidores, que pululam nas televisões e pelas rádios. No caso de imprensa escrita, vale o corrector ortográfico. E mesmo assim…Por sua vez, Helena Matos, no programa Histórias da História, também nem sempre cumpre as regras gramaticais. Por exemplo, referiu-se a um recluso do Bugio, preso por fabricar dinheiro, que era “miúpe”, ou seja, que era “míope” Em outro programa, de 1 de Abril de 2021, a autora, falou de um “admnistrador”, que era “administrador de uma fábrica de sabonetes, há mais de 100 anos. E chamou-lhe “admnistardor por seis vezes, em poucos minutos!

CADÁVER!

Um responsável de uma zona marítima do Algarve, em declarações à Antena 1, afirmou que num acidente náutico, havia um ferido grave e um cadáver! Bom, se tivesse dito um ferido e um morto, estaria a seguir a terminologia utilizada normalmente. O termo “cadáver”, parece ter origem popular, a partir da palavra latina “Caro Data Vermibus” (“carne dada aos vermes”), que supostamente seria inscrita nos túmulos. Contudo, não se encontrou até hoje nenhuma inscrição romana deste género. Por outro Lado, os etimologistas defendem que a palavra deriva do termo latino cadavere, que, por sua vez, deriva da raiz latina cado, que significa “caído”. A favor desta teoria, está o facto de Santo isidoro de Sevilha referir que o corpo deixa de ser cadáver, a partir do momento em que é sepultado. Já Hernâni Carvalho, na sua crónica criminal, na SIC, utilizou a expressão “acusado de o ter morto”, referindo-se a um suspeito de ter cometido esse crime, Na verdade, deveria ter utilizado a expressão “ter matado”, que se usa com os verbos ver e haver.

E CONTINUA

Já aqui falámos, na edição de Dezembro de 2019, da expressão “um dos que foi”, em vez de “um dos que foram”. Bento Rodrigues, da SIC, utilizou a expressão: “O concelho de Alandroal é um dos que não avança no desconfinamento”. Ou seja, havia outros concelhos que não iriam avançar. Deveria ter dito “um dos que não avançam. No programa para crianças, Zig Zag, de 27 de Março de 2021, foi dito que o escritor José Letria é um dos que participou numa determinada obra. Deveria ter sido dito “é um dos que participaram”. Anteriormente, como aqui já foi referido, na SIC Notícias, foi dito que o realizador do filme “Joker”, Joaquin Phoenix, agradeceu a cada um dos que “comprou” bilhetes, o sucesso do seu filme. Este fenómeno de passar para o singular, quando se fala no plural é muito comum dentro da comunicação social. Neste caso, a jornalista deveria ter dito: o realizador do filme “Joker”, Joaquim Phoneix, agradeceu a cada um dos que “compraram” bilhete, o sucesso do seu filme. Outro exemplo errado: ele é um dos que “foi” à guerra. O certo seria: “ele é um dos que foram à guerra”. Como é o meu caso!

AI, COSTA!

O primeiro-ministro, António Costa, continua a não ligar muito à Gramática, dando-lhe pontapés sistematicamente. Parece que não, mas ao utilizar incorrectamente a Língua Portuguesa pode estar a induzir em erro quem o ouve, nomeadamente, os alunos das escolas, para quem fala frequentemente. As últimas que ouvi  de António Costa, quando falava da Pandemia, foi a de utilizar as expressões “controle” e “descontrole”, em vez de “controlo” e “descontrolo”. Outra das expressões que pronuncia erradamente, é “precaridade”, quando a palavra correcta é “precariedade”, como no caso de “solidariedade”. Mas existem mais palavras com esta terminação, a respeito das quais se pode estabelecer a mesma relação, como, contrariedade e contrário, arbitrariedade e arbitrário, impropriedade e impróprio, notoriedade e notório, obrigatoriedade e obrigatório, sobriedade e sóbrio, variedade e vário, solidariedade e solidário. Diversas destas palavras, já existiam no latim, mas  outras formaram-se já no português, com o sufixo -dade, usado na formação de substantivos abstratos a partir de adjectivos, como, por exemplo, precariedade e solidariedade. (Consulta de Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)

“CATECUMBAS”

Para quem estiver atento às calinadas proferidas nas televisões e nas rádios, pode preencher um bom caderno de apontamentos de pontapés na Gramática. Pior que tudo, as mesmas pessoas repetem os mesmos erros, o que significa que os meios de comunicação não se preocupam com a qualidade da Língua Portuguesa, assim como, alguns que usam esses meios, também não têm essa preocupação. Alguns exemplos:  Pedro Proença – presidente da Liga Portuguesa de Futebol, em 01 de Abril de 2021: “A única coisa que estamos a trabalhar…”, quando, no caso, deveria ter dito “A única coisa em que estamos a trabalhar…”. Já um jornalista da Antena 1, a conversar com o padre João Caniço, em 20 de Março de 2021, falou-lhe nas “catecumbas” de Roma, quando o que deveria ter referido, era as “catacumbas de Roma”. Ora, se ninguém o chamar à atenção, o jornalista irá continuar a pronunciar “catecumbas”. As catacumbas eram galerias subterrâneas onde se enterravam os mortos, mas que também serviam de esconderijos dos primitivos cristãos.

PONTAPÉS NA BOLA E NA GRAMÁTICA 

Os canais de televisão estão cheios de comentadores e de apresentadores, parecendo que muitos deles não têm perfil ou preparação para lá estarem. Alguns canais foram buscar muitos artistas e actores desempregados, por causa da Pandemia e pô-los a apresentar programas e a comentar jogos de futebol. E se intenção pode ser louvável, por dar uma fonte de rendimentos a esses desempregados, não é compreensível que tenhamos de ouvir apresentadores aos montes, num mesmo programa, todos a falar ao mesmo tempo. Pior do que isso, é ouvi-los falar em mau português, contribuindo, também, para a degradação da Língua Portuguesa e em directo. “Meteu a bola fora” ou “rodou sobre si mesmo”, são expressões consagradas, entre comentadores de futebol, sem perfil para a função. Mas as calinadas são às dezenas, por vezes, num só jogo de futebol.

RESILIÊNCIA?

Está muito na moda falar de resiliência, como o faz o primeiro-ministro, António Costa, tendo em mente o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que é “um amplo documento estratégico, onde estão plasmadas reformas estruturais fundamentais para assegurar a saída da crise pandémica e garantir um futuro resiliente para Portugal”. De acordo com esse Plano, ”Importa salientar que o Mecanismo de Recuperação e Resiliência, criado no passado dia 12 de fevereiro com a assinatura do seu regulamento, constitui um processo único e inédito na História da União Europeia e tem como objetivo assegurar que todos os Estados-Membros beneficiam de apoios e de estratégias capazes de alavancar a recuperação económica da mais grave crise que a União Europeia enfrentou”. Mas este assunto é aqui colocado, para questionar se a maioria dos portugueses sabe o significado de “resiliência”. A palavra resiliência vem do latim: resilire, que significa “voltar atrás”. Está associada à capacidade que cada pessoa tem de lidar com os seus próprios problemas, de sobreviver, de superar momentos difíceis, perante situações adversas, e não ceder à pressão, independentemente desse problema. Assim dito, não me parece que a maior parte dos portugueses entenda muito bem o termo resiliência.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

 

Fotos: pesquisa Web

 

01mai21

 

 

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