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O nome de Gisberta – a transsexual assassinada, há 15 anos -, para rua do Porto, é o objetivo de petição promovida pela COMOP! PS e Júlio Machado Vaz solidários com a iniciativa…

 Gisberta Salce Júnior, a transsexual brasileira, de 45 anos, profissional do sexo, sem-abrigo e seropositiva, que foi barbaramente assassinada, no dia 16 de janeiro de 2006, por um grupo de adolescentes, com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, e que a espancaram durante vários dias e que depois atiraram o seu corpo, ainda com vida, para um poço existente num edifício inacabado, na Avenida de Fernão de Magalhães (lado esquerdo, em sentido ascendente), a dois passos do Campo 24 de Agosto, está a ser alvo de uma petição para que uma rua da cidade do Porto passe a ter o seu nome.

 

 A iniciativa, que decorrerá até ao próximo mês de julho, é da responsabilidade da Comissão Organizadora da Marcha de Orgulho do Porto (COMOP) e que se encontra online desde o passado mês de março. Para já, o PS-Porto, assim como o médico psiquiatra e sexólogo, Júlio Machado Vaz, entre outras organizações e personalidades, manifestaram já a sua solidariedade para com a iniciativa, que está a ser analisada pela Comissão de Toponímia do Porto. 

 Na carta, que qualquer um pode subscrever, a COMOP começa por salientar queGisberta tornou-se um símbolo da luta pelos direitos humanos, pela dignidade e autodeterminação, que ainda se encontra muito longe de ser conquistada”, e que “esta carta, assinada por todas as pessoas que querem ver mudança na cidade do Porto, promove junto da Câmara Municipal do Porto, nomeadamente junto da Comissão de Toponímia, na figura da sua presidente Isabel Ponce Leão, vice-presidente Luís Oliveira Dias e restantes vogais, a proposta de atribuição do nome Gisberta Salce Júnior a um arruamento da cidade. Este pedido tem vindo a ser feito pela população, ao longo dos anos, pelas mais diversas formas, sendo recorrentemente ignorado pela Comissão de Toponímia.”

PEDIDOS SEM RESPOSTAS

A COMOP relembra que fez, por diversas vezes, esse pedido: “fizemo-lo em 2010, aquando do projeto artístico «Viver a Rua», desenvolvido pelo Núcleo de Experimentação Coreográfica – NEC, inserido no FITEI, em que era pedido à população que criasse uma lista de 10 nomes a entregar à Comissão para que esta escolhesse um a atribuir a um novo arruamento. O nome de Gisberta aparecia em primeiro lugar na lista, mas não foi suficiente para o selecionarem.
Fizemo-lo novamente em 2020, aquando da apresentação do espetáculo «Todos os Dias Me Sujo de Coisas Eternas», apresentado no programa Cultura em Expansão, do qual resultou um abaixo-assinado com este mesmo pedido que agora aqui fazemos, que foi enviado à Comissão de Toponímia, e sobre o qual nunca obtivemos resposta”.

Como este – e ainda de acordo com o que está escrito na Carta – “é o ano em que a cidade assinala os 15 anos deste brutal acontecimento. Consideramos que a atribuição do nome de Gisberta Salce Júnior a um arruamento da cidade seria uma forma de a cidade não deixar esquecer este acontecimento. Pelo contrário, seria uma forma de o assumir. Não apenas como homenagem e memória de uma mulher a quem a cidade falhou. Mas, também, como compromisso para o futuro”.

Mais: “a violência de que a Gisberta foi alvo continua presente nas ruas do Porto e, de resto, por todo o país. 15 anos depois, a comunidade trans continua largamente exposta à mesma marginalização, preconceito e violência que entregam às ruas todas as pessoas que a cidade é incapaz de proteger e abrigar com a mesma dignidade a que todo o ser humano tem direito”.

“Está, assim”, para a COMOP, “na hora da cidade do Porto reconhecer a sua identidade, a sua importância e assumir o papel de agente de mudança, tornando a cidade um local seguro e inclusivo para todas as pessoas que nela vivem, trabalham, caminham e desfrutam – em especial para as pessoas que, ainda hoje, permitimos que continuem a ser as mais marginalizadas e esquecidas”.

ISABEL PONCE DE LEÃO: “TEMOS O MAIOR RESPEITO PELO CASO

Entretanto, a presidente da Comissão de Toponímia, Isabel Ponce de Leão, em declarações ao semanário Expresso, adotou uma posição de “neutralidade e de abertura” relativamente ao abaixo-assinado em que os signatários pedem para ser atribuído a um arruamento da Invicta o nome de Gisberta Salce Júnior, assassinada há 15 anos depois de ter sido violada e violentamente agredida durante vários dias. Isabel Ponce de Leão tem “o maior respeito pelo caso”, condena o crime de ódio, salienta que o órgão consultivo seleciona “personalidades carismáticas da cidade, de todas as classes”, mas considera que “a pessoa em si nada fez em prol do Porto”

PS: “A CÂMARA DO PORTO NÃO PODE FICAR INDIFERENTE A ESTE CRIME E ÀS SUAS MOTIVAÇÕES

Já o PS-Porto, através dos seus vereadores na Câmara Municipal do Porto propôs à Comissão de Toponímia a atribuição do nome de Gisberta, a uma rua ou praça da cidade, considerando que “perpetuar o nome de Gisberta Salce Júnior na toponímia da cidade constitui um reconhecimento e uma forma de valorizar a luta em defesa dos direitos de todas as pessoas”.

“Gisberta Salce Júnior foi cobardemente assinada por querer viver livre e sem medo, por ser uma mulher transexual. Este horrendo ato é exemplo duro que nos recorda a violência, a discriminação e o preconceito que a comunidade transexual tem, ainda hoje, que vencer e superar”, acrescenta o PS-Porto que não deixou de recordar o facto de que no mesmo ano da morte de Gisberta, e como forma de “resistência e protesto”, o Porto via nascer a sua marcha LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo) e, desde então, Gisberta Salce Júnior é também assim recordada, “elevando-se a símbolo maior da luta pelos direitos humanos, pela dignidade, pela autodeterminação e pela igualdade”.

Assim sendo, e para os socialistas, “a Câmara Municipal do Porto, cidade da Liberdade, não deve ficar indiferente a este crime e às suas motivações”, entenderam os vereadores. Reiteradamente, cidadãos e movimentos cívicos da sociedade portuense dirigiram diversas petições aos órgãos municipais, tendo em vista o reconhecimento, na toponímia da cidade, do nome de Gisberta Salce Júnior.

 JÚLIO MACHADO VAZ: “QUE O PORTO SEJA PORTO

(Foto Correio da Manhã)

Um dos apoiantes do abaixo-assinado é o médico psiquiatra e sexólogo, Júlio Machado Vaz, que a propósito, e na sua coluna no “Jornal de Notícias”, escrever, a 04 de abril passado, o seguinte artigo: 

Assinada a petição para dar a uma rua do Porto o nome de Gisberta, fui assolado por um pensamento perturbador – há quanto tempo não pensava nela? Demasiado.

Vivemos soterrados por um dilúvio de notícias avulsas, cada uma delas é substituída por outra a um ritmo frenético, a tristeza escandalizada perante algumas – lembro a criança morta à beira-mar… – é genuína, mas cai prisioneira de novo estímulo e permanece superficial; na maioria dos casos, não se transforma em acto modificador do Mundo.

Esta petição é a terceira (cito o povo – será de vez?). O que aconteceu há 15 anos a Gisberta, transsexual, sem-abrigo e seropositiva, foi sobejamente noticiado, os mais novos encontrarão no Google a sua triste estória. Agredida ao longo de dias por um grupo de adolescentes, que a dado momento a julgaram morta e lançaram a um poço na esperança de encobrir as agressões, nele morreu afogada. Ela e os mais básicos princípios da decência.

Cresci em Anselmo Braam-camp, lembro-me de perguntar a meu Pai quem fora. Ele desafiou-me a descobrir. O que fiz. E aprendi que em 1895, a 1 de Maio, a autarquia baptizara uma rua já existente com o seu nome, homenageando um político de que passei a conhecer, embora mal, vida e obra. E assim uma placa nos reenvia para alguém e a sua importância para a comunidade.

Não é indispensável mergulhar no passado para encontrar baptismos de ruas ou equipamentos. Suspeito que sou, pela amizade que lhe dedico, membro de uma geração que continua a falar do Palácio de Cristal, quando ouço falar do Pavilhão Rosa Mota sorrio, satisfeito. E com tantas memórias privadas e públicas à disposição, regresso à maratona de Atenas em 82 e a uma garota frágil, atravessando a meta com aquele sorriso inconfundível nos lábios. A Rosinha enche-nos de orgulho e faz bem à nossa auto-estima, oferecer-lhe um Palácio de Cristal pareceu-me justo.

Gisberta toca-me de um modo bem mais complexo. Sinto horror pelo que lhe aconteceu, vergonha por não ter encontrado neste país a segurança sonhada, desencanto pela “prova de vida” do ódio discriminatório que a sua morte representou. E continua a representar!, a raiva à diferença, em Portugal e no estrangeiro, não se limita a sobreviver, nalgumas paragens floresce como nunca.

Penso que esta petição tem mais do que um mérito. Homenagear e lembrar qualquer vítima da barbárie é importante, a História ensina que ignorá-las é um atalho para que se multipliquem. Mas semear Gisberta no espaço público é também contribuir para que a luta por o democratizar não esmoreça e desperte mais consciências.

Por todo o lado. Mas em breve, deseja este tripeiro, na cidade generosa e estóica que sempre se bateu pela Liberdade”.

 

Texto: José Gonçalves

Fotos: pesquisa Web

01mai21

 

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