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A propósito de uma dança de cadeiras em Ankara

Maria Manuela Aguiar

 

Uma questão de género, de protocolo e de boa educação

 

1 – Estas três questões não andam necessariamente entrelaçadas, mas, quando isso acontece, a mistura pode tornar-se explosiva…  O chamado “sofagate” é exemplo dessa confluência, que provocou uma tempestade política perfeita. Envolveu, como é universalmente sabido, dois homens e uma mulher – um triângulo formado por Erdogan, muçulmano retrógrado, que, a partir de Ankara, lidera hordas de assalto aos direitos das mulheres (e a outros direitos democráticos), Charles Michel, o Presidente do Conselho Europeu, ex-primeiro ministro belga, (que a ele se aliou, infringindo os tríplices cânones), e Ursula von der Leyen, a primeira mulher a presidir à Comissão Europeia, uma conservadora do PPE, vinda do governo de Angela Merkel.

Pormenores relevantes: a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu, têm, precisamente, a mesma categoria protocolar: e, em visitas anteriores, quando os dois altos dirigentes da UE eram do sexo masculino, sempre houve, na sala de reunião, três vistosos cadeirões dourados para os três presidentes da cimeira, e dois modestos sofás paralelos para figuras menores, discretos acompanhantes. Desta feita, o Protocolo de Estado providenciou apenas duas cadeiras de honra, que o sultão turco e o liberal belga se apressaram a ocupar, como fazem os contendores numa dança de cadeiras, deixando Von der Leyen ignorada, solitária, em pé, por  alguns momentos, que pareceram uma eternidade e foram difundidos no mundo inteiro. Entre abandonar  o encontro, pela porta grande, ou remeter-se a um lugarzinho secundário, ela escolheu acantonar-se no sofá, que, assim, entrou para a história, pelo menos para a “petite histoire”…

Nas conversações, talvez muito estivesse em causa, pesando na decisão da senhora –  em foco ou na sombra, nomeadamente o tenebroso acordo para a retenção de refugiados do Médio Oriente e Norte de África, em solo turco, pago, a peso de ouro, pela UE, contra a letra e o espírito do Direito humanitário, do Direito de asilo…

Coisa inédita, a Presidente Von der Leyen, dirigiu-se, dias depois, aos deputados do Parlamento Europeu e denunciou a discriminação sexista de que tinha sido alvo. Erdogan, tendo atingido, em pleno, os seus objetivos, planeia os próximos passos, numa imparável escalada ditatorial, enquanto o Senhor Michel, aliado de ocasião, se desfez em desculpas esfarrapadas,  receando perder a reeleição em 2022 , talvez, como já se aventa para um proeminente socialista português…

2 –  O Protocolo lida, em princípio, com a hierarquização institucional – ou, como no caso de Ankara, com a paridade. Por isso, a infração às suas regras ofende, em primeira linha, as instituições, não tanto os seus representantes. Todavia, numa conjuntura marcada pela rompimento turco da Convenção destinada a proteger as mulheres contra todas as formas de  violência  – j um convite de Erdogan à violência contra as mulheres do seu país – a  grosseira discriminação da Dr.ª Von der Leyen assumiu um caráter eminentemente político, misógino e pessoal. Foi um recado para dentro, e um manifesto para fora. E foi, igualmente, um atentado aos nossos valores conviviais e aos princípios da boa educação, que nos mandam dar precedência cerimonial aos mais velhos, às senhoras, a trajetos de vida especiais. Neste plano, o belga conseguiu descer tão baixo  quanto o seu parceiro do “sofagate”.

Um comportamento sem perdão, porque infringiu o protocolo no pior sentido. Um homem muito civilizado é aquele que faz precisamente o contrário,  permitindo-se inverter a gradação hierárquica, em benefício das boas maneiras. Há feministas que encaram mal quaisquer gestos de cortesia e, em nome da igualdade, preferem ver um homem passar à sua frente em todo o lado, ou ocupar um assento, enquanto elas aguardam a sua vez, a pé firme. Não perfilho essa doutrina, admitindo, de bom grado, o relacionamento cerimonioso de homens para mulheres, ou dos mais novos para com os mais velhos…

É certo que, em atos oficiais, é normal ver reis ou presidentes deixarem as esposas em segundo plano, na sua condição de ungidos ou eleitos. E, neste século XXI, ano 21, ainda causa espanto, se não desconforto, a inversão dos papéis, quando os consortes são do sexo masculino –  e isso foi trazido à ribalta, recentemente, por altura do falecimento do Príncipe Filipe (matéria que mereceria comentário desenvolvido, pois, a meu ver, ele desempenhou o papel, de forma, a todos os títulos, paradigmática).

Uma admirável exceção à regra de deixar na retaguarda as consortes femininas, a  que eu mesma assisti, no hemiciclo do Conselho da Europa, teve por protagonista o Rei Hussein da Jordânia. Era deveras surpreendente, que um monarca daquela região do mundo, para um discurso e debate com deputados da Assembleia, se fizesse acompanhar de sua mulher, a belíssima Rainha Noor. Foi brilhante o discurso que proferiu, mas ler um  bom texto  está ao alcance de qualquer um… Responder, de improviso, com mestria e profundidade, a perguntas que livremente lhe foram colocadas, já não era para qualquer um… O Rei Hussein foi o melhor orador que ouvi, no Palácio da Europa, ao longo de treze anos de sucessivos mandatos. E mais impressionada do que com o debate, fiquei ainda com o facto de, ao sair do hemiciclo, ter dado precedência à sua Rainha e caminhar um passo atrás dela.

3 –  Andou bem Ursula von der Leyen, quando suportou ser destratada pelo protocolo turco?  Talvez sim, talvez não… Para avaliar a sua atitude, seria, como disse, necessário saber exatamente o que estava a tratar, em conjunto com o Sr Michel.

Falo por experiência própria, porque já me vi numa situação, que, embora sem a mesma visibilidade, teve contornos algo semelhantes… O incidente de que fui vítima aconteceu  na capital da Austrália, no ano de 1996. Ali me encontrava como deputada eleita pela  emigração, a visitar comunidades portuguesas. Era Embaixador um excelente e amável diplomata de origem goesa, Zózimo da Silva, e estava na ordem do dia a problemática dos refugiados timorenses, recém-chegados a Darwin, e espalhados pelo país, às dezenas de milhares.

Português de origens orientais, o Embaixador tinha uma especial sensibilidade para os dramas humanos de uma descolonização, que foi, de todas, a mais sangrenta, (não às mãos do colonizador multissecular, mas do invasor indonésio, reconhecido, como nova potência colonial pelos EUA, pela Austrália e outros países ditos democráticos, que, assim, pactuaram com o verdadeiro genocídio dos resistentes timorenses). Transmitiu-me o Dr Zózimo o convite do ministro do Interior, que insistia em reunir comigo sobre um bizarro plano seu de reencaminhar para Portugal todos

os refugiados, a pretexto de lhes ser, por nós, reconhecida a nacionalidade portuguesa. O Ministro chamava-se Ruddock e era um conhecido líder religioso – se não fanático, pelo menos devoto cristão, não católico. Sempre pronta a bater-me por este povo irmão (tendo sido já peticionária no Comité de Descolonização da ONU, a pedido de uma organização timorense), aceitei o repto.

O Embaixador, que mantinha com o Ministro Ruddock um relacionamento difícil, colocou-me a alternativa de ir, ou não, comigo. Ambos concluímos que a sua presença não facilitaria o encontro, para o qual avancei com o nº 2 da Embaixada. Entrei na sala e deparei com o  Senhor Ministro, ostensivamente sentado, “grudado” na sua cadeira! Nunca tal me tinha sucedido. Senti a afronta, mais ainda por ser mulher, embora convencida de que aquele australiano rude, ao contrário do déspota turco, faria precisamente o mesmo a um deputado homem… (do mal, o menos!). Em qualquer caso, grande foi a tentação de virar costas e bater com a porta… Por segundos hesitei, mas logo senti que era melhor ficar, dizer o que queria dizer sobre Timor-Leste… e dizê-lo com uma raiva fria e controlada.

Aparentemente, Ruddock esperava tudo menos o tipo de agressividade polida e, ainda por cima, feminina, com que encetei a conversa. O  meu fio da argumentação não diferia do do Embaixador Zózimo: Portugal, de braços abertos, receberia todos os timorenses, que estavam na Austrália, todos sem exceção, mas por livre vontade de cada um, não por ditames de um governo estrangeiro. A nacionalidade portuguesa não era imposta, antes incondicionalmente atribuída, a pedido, como frisei. Durante mais de meia hora, dissecamos factos históricos e conceitos jurídicos, e a cada minuto decorrido, eu sentia que ganhava pontos, porque a razão e a moral estavam do meu lado – do lado timorense!

Não sei, ao certo, quando o ambiente pesado cedeu a uma gradual cordialidade, passando eu a apelar aos valores cristãos do cidadão Ruddock. (não tomei notas, infelizmente, nunca tomava… o jovem diplomata, a meu lado, sim, e essas existirão, ainda, nos arquivos da chancelaria de Camberra). Lembro-me de, à despedida, sorridente, exortando o devoto governante a “ganhar o céu, ajudando os timorenses”!…. Ele, não menos sorridente, levantou-se do seu assento e acompanhou-me à porta, como era sua obrigação….

Uma história  com “happy end”, sem contornos sexistas, em que um pecado protocolar foi revelado, pelo arrependimento do pecador, e a civilidade acabou por prevalecer. E, mais importante ainda, os direitos dos refugiados, também. Tudo, afinal, nas antípodas do “sofagate”, e não só geograficamente!

 

 

Foto: pesquisa Web

 

01jun21

 

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