Menu Fechar

Cais da Ribeira (Ovar): um património que merece mais respeito e dignidade

Em memória de um património histórico e cultural, económico, social e humano, que se construiu durante mais de dois séculos, o Cais da Ribeira de Ovar cuja origem remonta a 1754, foi uma importante referencia como intermediário do comércio entre Aveiro, Porto e outras terras do interior. Sendo muito frequentado por passageiros e mercadorias em que se destacou o transporte do sal fabricado nas salinas da região de Aveiro, através dos característicos barcos mercantéis que deram vida ao cais e à ria de Aveiro durante muitas décadas com velas ao vento, acabando as carcaças de alguns dos seus exemplares enterrados nas lamas do Cais da Ribeira, num deprimente cenário de abandono e degradação que se veio acentuando até às desastrosas recentes obras de desassoreamento, que trouxeram ainda mais indignação da população, ao deixarem este cais literalmente enlameado por uma obra sem planeamento.

 

José Lopes

(texto)

 

 

Trata-se de um património que merece mais respeito e dignidade, como o merecem a população da Ribeira e o povo de Ovar, tal como as memórias de uma região, com todas as suas tradições ligadas à vida e atividade económica e social que representou a indústria do sal, da qual restam ali no Cais da Ribeira simbólicas atividades comerciais, considerando a azáfama de outros tempos, de mão-de-obra feminina nas descargas do sal em canastra à cabeça para os grandes armazéns, e da navegabilidade do canal pelos imponentes mercantéis.

Azafama que chegou ao final dos anos oitenta e por aí ficou, já que o transporte rodoviário de sal por camiões acabou por se impor, servindo a paisagem envolvente do Cais da Ribeira apenas de cenário etnográfico em 2009 para a recriação histórica da visita da Rainha D. Maria II que ali embarcou em Maio de 1852 com o rei D. Fernando II, Príncipe Real D. Pedro e o Infante D. Luís, com destino à cidade de Aveiro depois de terem pernoitado nos Paços do Concelho de Ovar.

Quando se tinham gerado algumas espectativas de que o Cais da Ribeira ia ao fim de tantos anos de abandono, desmazelo e promessas por parte das várias entidades competentes na sua requalificação e desassoreamento, eis que a surpresa foi uma intervenção sem planeamento das obras de desassoreamento para a navegabilidade na ligação à laguna.

O cenário em que se transformou o Cais da Ribeira, que até aí já estava atolado em lama que as correntes mais intensas das marés vinham agravando na sequencia das obras de desassoreamento nas duas ultimas décadas na ria, que acabou por voltar a assorear, como se teme que volte a acontecer agora com as mais recentes e desarticuladas operações de desassoreamento em 2020 e inicio de 2021. Deu origem, no caso da bacia deste cais a um cenário surrealista que gerou uma certa unanimidade de preocupações e criticas dos vários partidos políticos na Assembleia Municipal de Ovar, que obrigaram o presidente do município de Ovar, Salvador Malheiro, a reconhecer a necessidade de uma segunda intervenção para corrigir a empreitada falhada no Cais da Ribeira, que tinha sido realizada no âmbito das obras de desassoreamento da ria, canais e bacias de cais, através da retirada de sedimentos para reforço das margens da Ria de Aveiro que se encontram danificadas pela força das marés.

Desencadeada a segunda intervenção sob administração direta da Camara Municipal de Ovar em abril, o resultado voltou a ser o contrário do desejado para dignificar um tal património de Ovar, e o contrário das promessas do presidente do município, proferidas na sessão da Assembleia Municipal de 22 de abril, quando anunciou uma nova intervenção no cais da Ribeira para corrigir a polémica primeira empreitada. Uma obra que se verificou verdadeiramente desajustada e incompleta, sem uniformidade em toda a bacia do cais e sem prolongamento ao canal que assim continua assoreado e sem segurança de navegabilidade mesmo na maré cheia.

Entre as vozes que mais se têm feito ouvir na denuncia do estado em que se encontra o Cais da Ribeira, o grupo municipal do Bloco de Esquerda fez mesmo chegar à Câmara local um requerimento, em que afirma alguns pontos, como, “Sendo a segunda fase da empreitada de desassoreamento necessária para corrigir os erros da primeira empreitada no Cais da Ribeira, e considerando que os objetivos do prometido desassoreamento continuam sem serem atingidos. Questiona-se que tipo de acompanhamento e de fiscalização assumiu o Município de Ovar nesta obra, e que me medidas vão ser tomadas para que esta obra reponha as espectativas criadas nos diferentes utilizadores deste espaço ribeirinho na ligação entre a cidade de Ovar e a ria?”. Questiona ainda, “Que responsabilidades já foram apuradas junto da entidade responsável pela primeira empreitada de desassoreamento, como a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA)”.

 LUGAR DE MEMÓRIAS QUE NÃO PODE CONTINUAR ENTERRADO EM LODO…

A Ribeira é um dos lugares rural e urbano da atual União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e S. Vicente de Pereira Jusã, a antiga freguesia de S. Cristóvão de Ovar. Lugar da Ribeira que vem mencionado no prontuário das terras de Portugal, de 1689.

A importância do Cais da Ribeira, remonta ao século XVIII, em que as viagens entre Aveiro e Porto se faziam normalmente pela ria, sendo já nesse século referida a relação com o sal, cuja indústria com diferentes fases de desenvolvimento se manteve, hoje sem o peso social e económico que chegou até ao século XX.

Uma outra industria referenciada na história local e da região, foi a carpintaria naval como uma das mais florescentes da freguesia de Ovar, que tinha o principal estaleiro no Cais da Ribeira onde se construíram fragatas para a zona de Lisboa, em que as frotas de transporte fluvial no Tejo que teve também o seu tempo, empregou uma grande comunidade de fragateiros naturais de Ovar.

São muitas das memórias que atravessaram sucessivas gerações de um povo em terras ribeirinhas, que deram forma a este património histórico e cultural, económico, social e humano. Que teve o Cais da Ribeira como ponto de referencia nas ligações entre importantes centros comerciais e entre laços de comunidades que se cruzaram e uniram, que merece mais respeito e dignidade por parte dos autarcas e das diferentes entidades responsáveis valorização e requalificação deste património enterrado em lodo, como foi o inglório fim de algumas carcaças dos barcos mercantéis, cujo triste destino foi muito ditado, não só pela decadência e abandono do tradicional transporte de sal de Aveiro, mas também pelo estado a que durante décadas, foi deixada a ria, canais e cais assoreados.

 

Fotos: António Valente/Facebook e pesquisa Web

 

01jun21

 

 

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.