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“Diálogos Gallaecia” – Rui Moreira e Alberto Feijóo unidos pela ferrovia que revolucionará o noroeste peninsular

 

DIÁLOGOS GALLAECIA (I/III)

 

Os transportes, a economia, as lições e as respostas dadas à pandemia, a (des)centralização e a comunicação social foram alguns dos assuntos abordados na manhã do passado dia 10 de maio, na segunda edição dos “Diálogos Gallaecia”, iniciativa que, deste feita, foi realizada no Rivoli-Teatro Municipal do Porto, e que contou como oradores o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira e o presidente do Governo Regional da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, e como moderadora a economista Cristina Azevedo.

 

José Gonçalves              Carlos Amaro

(texto)                                  (fotos)

 

Foram mais de duas horas de um interessante debate, por pertinente que foram os assuntos tratados, e logo na presença dos dois mais destacados líderes do noroeste peninsular (Norte de Portugal e Galiza), que tiveram na plateia do Rivoli – Teatro Municipal do Porto, e de forma presencial, algumas dezenas de pessoas entre empresários, economistas, autarcas e jornalistas dos dois lados da fronteira.

Foi dado, então, o mote para estes longos mas interesses diálogos, que publicaremos na presente e nas próximas duas edições do “Etc e Tal”:

 

 O que pensam os líderes da eurorregião sobre desafios e oportunidades do nosso futuro em comum?

 

Abordaremos aqui, então, de uma “eurorregião, que de acordo com o estudo apresentado por Cristina Azevedo, que tem caraterísticas muito especiais, não só pelo facto de ficar “localizada no noroeste da Península Ibérica e dividida pelo troço mais povoado da fronteira; mas, também, por agregar “uma comunidade de mais de seis milhões de habitantes que se espalham, em densidade variável, por 51 mil quilómetros quadrados.

Seis milhões de habitantes que “se entendem em galaico-português “ facto que “carrega” a sua identidade. Falamos, assim, do Norte de Portugal e da Galiza no seu conjunto, ou seja, na tal eurorregião que “evoluiu de uma ocupação, essencialmente agrícola, para o emprego no setor da indústria, dos serviços, da construção”.

Saiba, e de acordo com os dados apresentados pela economista, e, neste caso, também moderadora, que “em 2019, o PIB da eurorregião ascendia a 126 mil milhões de euros, e o saldo comercial intracomunitário era de mais de 10 mil milhões de euros”, e que “a trajetória de crescimento pré-pandemia registava a mesma tendência, uma subida de 2,2 por cento e 1,8 por cento para o Norte de Portugal e a Galiza respetivamente”.

Cristina Azevedo

O trafego rodoviário na fronteira, nos dois sentidos, foi outro facto abordado e tido muito em conta, pois “ilustra, com clareza, o grau de permeabilidade que a torna uma linha imaterial, garantindo quase 50 por cento de todo o tráfego rodoviário transfronteiriço entre os dois países”.

Para tal movimento contribuem, sobremaneira, “os negócios, o emprego, as compras, os almoços de domingo, as férias de cidade, de montanha ou de praia, o turismo cultural e religioso, mas também já a ida à escola ou à consulta no centro de saúde, são alguns dos muitos motivos que nos fazem deslocar de lá para cá, e de cá, para lá, com a curiosidade de experimentarmos uma coisa nova, ou mais confortável, mas sem qualquer angústia sobre o desconhecido”, referiu Cristina Azevedo.

Enfatizando, como um facto negativo: a deslocalização das populações do interior para o litoral, outros dados nada positivos foram apontados, mais concretamente na questão económica, como o da eurorregião ter perdido “em produtividade por hora trabalhada; em abandono escolar precoce; em percentagem de população com ensino superior na dupla dimensão nacional quando comparados com as regiões mais dinâmicas da Europa”. Acresce, aos factos anteriormente referidos, e isto ainda de acordo com Cristina Azevedo o “sistema político e administrativo, com poder desproporcional da capital para a periferia” e consequente controlo “dos sistemas económico, financeiro e mediático” do Norte de Portugal e da Galiza com o aproveitamento direto de “toda a riqueza que gera”.

 

FERROVIA(S)

 

 

Iniciando o debate, após a apresentação de alguns números e realidades curiosas das regiões que compõem o noroeste peninsular, e sabendo-se que a Galiza inicia este ano a comemoração do Xacobeo, o ano santo que se desenvolverá até finais do ano de 2022,começou por ser abordada a questão, que engloba muitas outras questões, em relação à ligação das duas regiões por ferrovia, e ao seu anunciado desenvolvimento, com especial destaque para a faixa atlântica, e a conexão Lisboa-Corunha-Lisboa com estações principais no Porto (Campanhã) e em Braga.

A LIGAÇÃO LISBOA-CORUNHA-LISBOA, EM BITOLA IBÉRICA, COM DUPLICAÇÃO DA LINHA DO NORTE E PASSAGEM PELO AEROPORTO DO PORTO… É PARA SER CONCRETIZADA NOS PRÓXIMOS DEZ ANOS…

O presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira foi o primeiro orador a usar da palavra e a dar algumas novidades sobre o tema relacionado com o transporte ferroviário nas duas regiões do noroeste peninsular.

“As últimas conversas que tive com o Governo português, apontam para uma determinação relativamente à concretização de um velho sonho, ou seja uma ligação da fachada atlântica”, que é como quem diz “que se faça uma ligação rápida, segura e eficiente entre Lisboa e a Corunha. Este é um grande desafio e as últimas informações que tenho do governo português é que já há acordo relativamente à metodologia”.

Palavras de Rui Moreira que não ficam por aqui em termos de… novidades: “uma das questões que se colocava e que não se conseguia resolver era se a via iria ser bitola ibérica, ou europeia?! Essa velha questão que, no fundo, é um fantasma que pesa sobre a linha férrea na Península Ibérica. De acordo com as informações que tenho, há uma determinação de manter a bitola ibérica, o que tem várias vantagens, e o que o Governo português me disse é que haverá uma duplicação da Linha do Norte, entre Lisboa e Porto, e que a partir do Porto-Campanhã ela irá passar pelo aeroporto até à fronteira, ligando-se depois à rede espanhola”.

Sobre as vantagens da via ser em bitola ibérica e disso representar vantagens, Rui Moreira explicou melhor a sua posição: “tem a vantagem de permitir pequenos percursos. Se fosse feita em bitola europeia, ela iria permitir apenas ligações a grandes distâncias – ponto a ponto. Ao fazermos em bitola ibérica, temos a possibilidade de termos serviços combinados. Podemos ter comboios mais rápidos a fazer a ligação de grandes distâncias e, depois, comboios a fazer menores distâncias”.

E Rui Moreira acredita que “isso será possível! A linha atual não tem capacidade, não tem velocidade, pelo que precisamos de uma nova linha. Já sabemos como vai ser a travessia do Douro. Já sabemos que ela vai a Campanhã. Já sabemos que vai ao aeroporto, que vai a Braga, e portanto, julgo que num período de tempo de qualquer coisa como dez anos poderá ser feita toda esta ligação. Há quem diga que vai ser mais depressa, mas penso que dez anos é o tempo necessário para podermos fazer qualquer coisa como duas horas e meia entre Lisboa e a Corunha, o que já seria uma transformação completa deste nosso território”. Portanto, e segundo Rui Moreira, já há algo de muito concreto no que concerne à “metodologia” de todo este processo, por parte do Governo português.

A EURORREGIÃO MAIS ANTIGA DA UNIÃO EUROPEIA E COM “UMA HISTÓRIA DE ÊXITOS”…

Por seu turno, o presidente do Governo da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, começou logo por destacar o facto de que “a Galiza e o Norte de Portugal tiveram sempre um objetivo fundamental: o de unir os territórios e formar uma eurorregião, a primeira da União Europeia. A eurorregião entre a Galiza e o Norte de Portugal é a eurorregião mais antiga da União Europeia, e creio que tem tido uma história de êxitos”.

Êxitos esses que são fáceis de constatar naquilo que é a ligação, por autoestrada, entre a Corunha e o… Algarve. “Uma das formas de acelerar esse êxito foram, sem dúvida, as infraestruturas, como a autoestrada desde a Corunha, Ferrol, Santiago, Pontevedra, Vigo, Viana, Braga e Porto, e depois até ao Algarve, como uma forma muito importante para unir os nossos países. Muito importante para a Península Ibérica e muito importante para as permanentes relações entre o Norte de Portugal e a Galiza, com 68 mil veículos todos os dias cruzam as pontes que unem estas nossas duas regiões”.

Alberto Feijóo recordou a propósito, que “quando a pandemia obrigou a encerrar as fronteiras, vimos a tensão dos autarcas galegos e portugueses, porque os seus povos, os seus trabalhadores não podiam ter a fluidez de tráfego e de relação económica e social que vínhamos tendo”

E a verdade, para Feijóo, é que a “ligação a Portugal já era pensada em 2011, Pensava-se, assim, nos comboios de Alta Velocidade até Tui e depois a sua entrada em Valença do Minho. Veio a crise de 2012 e parou-se com essa infraestrutura. Recentemente, saiu um estudo para que a estação de Vigo seja uma estação passante, e constato que o Governo português disse claramente ao Governo espanhol que a prioridade é Lisboa-Porto-Vigo, antes que existam outras ligações a partir de Lisboa”.

Para o líder galego, esta notícia “é boa para Portugal, mas também para Espanha. Não há a necessidade de tudo conectar-se a partir ou através de Madrid. Nesta região há uma atividade económica muito superior e mais gente, e é uma forma de entrar em terras espanholas através da Galiza”.

Relativamente a prazos, esses “conhece-os bem o autarca do Porto. Em Espanha são menos quilómetros, mas a obra que obrigará a estação de Vigo a ser uma estação passante, implica a construção de um túnel já projetado para a entrada da cidade, e que está orçado em 500 milhões de euros. E vamos ter que fazer cerca de 30 quilómetros para ligar Vigo a Tui, o que representa mais 300 ou 400 milhões de euros. Uma década para a realização destes projetos será prudente, pois falam-se sempre em prazos para não cumpri-los, pelo que este é mais prudente e sério”.

Esforços financeiros, que para Alberto Feijóo são importantes, até porque é “realmente necessário ter um corredor atlântico para o transporte de mercadorias, que, em 2013, a União Europeia não considerava prioritário, mas, depois de uma importante luta política, conseguiu-se que a União Europeia retomasse um corredor transeuropeu de mercadorias. Os trabalhos para a rede de transporte de passageiros e de mercadorias pode ser feita em simultâneo. Isso seria sem dúvida importante para melhorar a competitividade. Espero que os Governos de Lisboa e de Madrid possam dar as devidas prioridades a estes projetos.

A LIGAÇÃO DE ALTA VELOCIDADE DE MADRID À GALIZA POTENCIA TAMBÉM A NOSSA REGIÃO

Rui Moreira, por seu turno, começou, nesta fase dos diálogos, por recordar o facto de durante muitos anos envolvi-me, como presidente da Associação Comercial do Porto, naquilo que era a opção da rede de Alta Velocidade portuguesa. Sempre me pareceu que devíamos olhar para a Península Ibérica como se fosse uma cidade, e a rede de ferroviária devia ser o seu Metro. Infelizmente aquilo que aconteceu foi que, enquanto do lado espanhol foram feitas um conjunto de opções pensadas e regradas, sendo verdade que o noroeste ficou sempre um pouco de fora. Mas a primeira ligação de Madrid a Sevilha foi de facto um êxito, e devia ter sido um sinal do que nós poderíamos fazer.

A verdade é que, do nosso lado, foram sempre apresentados planos sucessivos. Cada vez que chegava alguém ao Ministério das Obras Públicas ou Infraestruturas rasgava tudo e começava de novo. Lembro-me ainda, e não foi assim há muito tempo, que, em determinada altura, queriam fazer uma linha entre Madrid e Lisboa por Castelo Branco, enquanto os espanhóis diziam que não queriam. Portanto, é errada a ideia de queremos fazer coisas separadas”.

 

 Ainda de acordo com o presidente da Câmara Municipal do Porto, “a ligação de Alta Velocidade, de Madrid à Galiza potencia também a nossa região. A partir do momento que ela seja feita e esteja a funcionar, o que quero é que nós consigamos, com esta nova linha que fará a ligação entre Lisboa-Porto-Vigo-Corunha, consiga chegar à mesma estação do TGV, e aí pegar na minha malinha e mudar de veículo. Da mesma maneira que defendo que é importantíssimo, por exemplo, fazer a ligação por estrada de Bragança a Pueblo de Sanabria para também potenciar o TGV espanhol. O AVE é um AVE Ibérico e se espanhóis andarem mais depressa nisso, para nós é perfeito”.

E Rui Moreira explica outros pontos positivos do TGV espanhol. “Vendo as coisas ao contrário: se nós temos aqui um aeroporto, que é mais eficiente que os da Galiza, isso deve ser visto pela Galiza como uma oportunidade. Entre nós, o mais importante não é pensarmos na concorrência, mas na convergência e articulação de interesses, razão pela qual os Caminhos de santiago, por exemplo, são tão importantes para nós. O facto de eles estarem na Galiza não nos deve assustar, pelo contrário, nós devemos investir sabendo que isso tem mais interesse para a Galiza do que para nós”.

Para Rui Moreira, “devemos também fazer essa convergência a nível portuário. Eu gostava muito e o presidente da Galiza há muito que insiste nisso da ligação ferroviária ao porto da Corunha. Não vejo isso como uma ameaça para Leixões, pelo contrário, vejo nisso um conjunto de fatores de competividade internacional maior, e espero que, no âmbito desta ligação que vai ser feita, o porto da Corunha tenha a devida atenção. Os portos sozinhos não fazem sentido., O que se passa nos Países Baixos?! Vemos que há portos muito próximos uns dos outros – Roterdão e Antuérpia – e ambos crescem articulando-se entre si”.

Dando um salto ao futuro, através das palavras do autarca portuense, “quem quiser do Porto ir a Madrid, não o irá fazer de avião, porque daqui a 10,15 anos, não vão ser permitidas ligações aéreas entre pontos com menos de 600 quilómetros por razões ambientais, e isso vai obrigar e potenciar a utilização da via-férrea. Portanto, a pessoa queira ir do Porto para Madrid, nessa altura, pode ir por Vigo e lá apanhar o AVE, ou, eventualmente, um dia pode ir pelo Sul, isto se fizerem a linha de Lisboa até Madrid… que continuo a ter muitas dúvidas que vá ser feita”

“A nossa perspetiva tem a de ser de juntos somos mais fortes. Se fizermos coisas em conjunto percebemos que a Galiza tem determinados fatores de competitividade que nos ajudam e o contrário também, assim sendo precisaremos menos dos governos nacionais, e nos libertaremos do centralismo”, concluiu Rui Moreira.

 

(…) Segue na próxima edição

 

 

01jun21

 

 

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